TUAREG

HISTÓRIA

O nome “Tuareg”, “Targuí” no singular, lhes foi dado pelos europeus, para designar um individuo habitante do Saara ( Saara: literalmente deserto). A palavra árabe “Tuareg” significa “abandonados pelos deuses”. Talvez por isso prefiram chamar a si mesmos por Inmouchar, Imashagen (Os Livres) ou Kel Tamasheq - os que falam Tamasheq - e se identificam como Tamust - a Nação.

 


Suas origens parecem perdidas no tempo. Uns lhes atribuem ascendência egípcia. Outros, iemenita. Alguns ainda os consideram descendentes de uma antiga tribo européia. Mas a maioria acredita se tratar de um povo berbere, os antigos habitantes do Saara. Há referências de Heródoto sobre o povo do Deserto.
Alguns acreditam que os tuaregs derivaram de “Targa”, que é uma cidade no sul da Líbia, numa região chamada “Fezzan”.
Porém, os tuaregs se consideram descendentes dos garamantes (Antigo povo da Líbia). “Conta a tradição que esse povo já era inteligente e poderoso, desde a ilha de Creta, nos tempos dos faraós. Tanto que tentaram invadir o Egito mas uma mulher os traiu e eles perderam a grande batalha. Alguns deles fugiram para o leste, se estabeleceram junto ao mar e formaram o povo dos fenícios, que dominaram os oceanos. Outros fugiram para o oeste, e se estabeleceram sobre as areias, dominando o deserto.”
Sua sociedade é matriarcal e veneram Tin-Hinan, nome da rainha ancestral dos Tuaregs. Sua tumba está em Abalessa, a capital da região Hoggar.
Diz o mito que ela veio com seu servo Takamat de Tafilalet no sul de Marrocos para Hoggar. Ela se tornou a Tamenokalt (Rainha) dos Tuaregs, que a chamam de “Mãe de Todos Nós”.
O cadáver foi encontrado num caixão de madeira finamente decorado e coberto por jóias. No seu braço esquerdo havia sete braceletes de prata e no braço direito sete braceletes de ouro. Por nunca ter sido saqueada se percebe a grande adoração que a rainha guereira exerce. É alvo de peregrinação e há evidências de que pessoas dormiram nela na busca de cura. Ainda hoje, dizem que Tin-Hinam matém um poder guerreiro sobrenatural, onde ao olhar para ela, mescla-se uma sensação de medo, poder e respeito ao mesmo tempo.
Os problemas enfrentados atualmente pelos Tuareg nascem de sua recusa em aceitar as fronteiras de cinco Estados - Argélia, Mali, Líbia, Níger e Burkina Fasso -, estabelecidas nos tempos coloniais em territórios que sempre lhes pertenceram.
Expulsos da Argélia em 1986 e obrigados a sair da Líbia em 1990, os Tuareg se refugiaram no Níger e no Mali. Ali criaram vários distúrbios, e por isso sofreram a dura reação dos governos locais. Houve matanças e verdadeiros genocídios.
Para os povos sedentários, é muito difícil compreender a vida nômade dos Tuareg.
Não se pode esquecer que esses nômades guerreiros ainda não tiveram a chance de encontrar um território para si, numa imensa região que pertenceu a eles durante séculos.
Um território onde possam se estabelecer e conservar o estilo de vida que lhes é próprio, desde tempos imemoriais.

 

Hierarquia

Sob uma distinta hierarquização formada por castas que descendem da tradicional rainha guerreira Tin-Hinan e seu companheiro Takama, encontra-se cinco classes sociais fechadas. Dão muita importância à nobreza de sangue e não se pode passar de uma para outra.

1) Inmouchar ou Imouhag: A casta nobre, categoria social mais elevada entre os tuareg. São os guerreiros por excelência. Portam a tradicional espada Takouba, cujo formato lembra muito as espadas medievais das cruzadas. Há pequenas distinções no formato e detalhes entre as espadas de acordo com a região de origem ou dos artesãos-ferreiros que as fazem.
Inmouchar: textualmente , designa um tipo de faca. Entre os beduinos, as qualidades guerreiras, ou seja, o “afiamento” dos homens das tribos, sempre foram de relevância. Para ser um inmouchar, assim como a faca que é afiada dos dois lados, deve ser afiado como guerreiro dentro e fora de si mesmo. Um inmochar nasce como guerreiro é depois é formado para fazer florecer todo o seu potencial. Sendo esses guerreiros o modelo do dirigente, lembram as tradições onde os dirigentes eram simbolizados por machados de duplo fio, onde o machado “abria caminho” tanto dentro como fora do dirigente.
Imohag: textualmente, “grupo sentado ao redor do fogo celebrando uma aliança”. Designa um aliança entre tribos que se unem contra um inimigo comum. Também são conhecidos como imouhag porque somente os guerreiros dirigentes podiam fazer essas alianças.

2) Imrad: Os “Homens Livres”, são a maioria e se dizem descendentes de Takama. Imrad significa “povo das cabras”. Os imrad, por sua vez, cuidavam do pastoreio e da condução das caravanas, confiavam os trabalhos mais pesados à casta dos servidores, os iklan, que geralmente eram escravos.
Junto aos imrad encontramos os majarrero: homens que fazem ou comerciam jóias. São considerados pelos tuaregs como um raça inferior, no entanto, o consideram a classe mais culta de todo o sistema social, uma vez que muitos deles sabiam ler e escrever e alguns tinham viajado para além da fronteira do deserto.

3) Iklan ou akli: Aos escravos, chamados de Iklan, ficam os trabalhos mais pesados. São compostos por descendentes dos antigos cativos. Desde a dominação francesa em finais do século XIX não é permitida a escravidão. Mesmo assim eles permanecem numa quantidade considerável e têm as suas subcastas. Algumas tribos eram escravizadas por outras, pois por muito tempo prevaleceu no deserto a lei do mais forte. Até hoje as tribos usufruem de maior ou menor destaque social em virtude de sua maior ou menor capacidade de lutar.
Subcastas:

- Iderfen, já estabelecidos e libertos há várias gerações
- Iborroliten, nascidos dos casamento entre lmrad e lklan. São libertos por seus pais.
- Iklan-n-Eguef (cativos das dunas), pastores;
- Tent Iklan, servos que vivem com seus mestres.

4) Harratin: Agricultores.

5) Inaden: são os artesãos que trabalhavam o ferro e o couro. Estes não são nômades, mas vão de um acampamento a outro para oferecer seus serviços. São considerados os “fora de casta”. Os ferreiros (Ineden) são ancestrais Sudaneses e pertencem a uma casta separada. Não casam com membros de outras castas e têm uma linguagem secreta (Ténet). Dizem que possuem poderes místicos ocultos (negros).

Tradicionalmente, as tribos tuaregues formavam uma confederação sob o comando de um chefe supremo, o amenokal, que tinha poder de vida e morte sobre seus súditos. As decisões mais importantes eram discutidas por um conselho dos chefes, o arrollan.
A insígnia do poder é o tobol, o grande tambor real de 80 centímetros de diâmetro.

RELIGIÃO

A religião fica a cargo dos Ineselmen, que significa os Muçulmanos, cuidando da observação das leis do Corão. Desde o século 16 os Tuaregs tem sido Muçulmanos. Combinam a tradição Sunita (Maliki madhhab) com algumas crenças pré-islâmicas animísticas, como a presença dos espíritos Kel Asuf e a divinização do Qur’an.
Devido ao nomadismo não seguem as atritas regras do Corão, nem mesmo os jejuns e peregrinações. Por isso não são muito considerados pelo povo árabe. Misturam suas crenças mágicas ancestrais com a doutrina do Islã, usando o Corão nas curas juntamente com as adivinhações feitas com lagartos, espelhos e conchas. Contam com a presença de vários espíritos que chamam de Djinns. Conhecem as influências do demônio (Saitan) e possuem técnicas para expulsar espíritos malígnos (gri-gri).
Os rapazes raspam a cabeça, deixando apenas uma espécie de crista no centro. Segundo acreditam, isso servirá para que Alá os “arraste” ao paraíso.

TRADIÇÃO E CULTURA GUERREIRA DOS FILHOS DO VENTO

Usam a linhagem materna, são matriarcais. As mulheres não sofrem dos rigores do islamismo, não usam os véus e podem até solicitar o divórcio. Atacar uma mulher é considerado algo totalmente indigno para um tuareg. São os homens que não dispensam um véu azul índigo característico, o Tagelmust, que começam a usar à partir dos 25 anos, ocultam todo o seu rosto salvo seus olhos. Este véu nunca o quitam, inclusive diante dos membros familiares. Dizem que os protege dos maus espíritos, e tem a função prática de proteger contra a inclemência do sol do deserto, das rajadas de areia e dos harmatan, vento forte do deserto, durante suas viagens em caravana.
Usavam tendas conhecidas como jaima ou imahan, feitas de lã de camelo ou cabras trançada, onde se abrigavam. Era feito um retângulo que era fortemente esticado nos cantos formava uma estrutura curvada para resistir aos vento e areia de forma a diminuir os danos. Atualmente têm sido substituídas por lonas de plástico, mais leves. Mas há também diversos tipos de casas fixas, feitas com blocos de terra e palha misturadas, os tub. A zeriba é uma habitação provisória de folhagens. O dahamus, uma casa fresca para o verão, é parcialmente escavado no terreno. Também usam a guelta, são cavidades na rocha que servem de habitação para algumas tribos no deserto, que preferem viver nessas cavernas por uma questão de clima. Trata-se de tribos de natureza mais sedentária.
Sua escrita original, o tifinarh, de origem fenícia, tem sido objeto de intensos estudos. Ainda hoje encontramos seus caracteres gravados nas figuras rupestres tão abundantes no Saara.
No passado, só as mulheres tuaregs sabiam escrever. Existe também uma “linguagem muda”, usada para transmitir mensagens secretas. Os Tuaregues a empregam tanto em transações comerciais quanto nas relações amorosas. Nela, o dedo indicador traça complexos ideogramas na palma da mão daquele a quem se dirige a mensagem.
As mulheres têm longas cabeleiras presas em tranças. Em ocasiões especiais, pintam o rosto de vermelho ou amarelo e os lábios de azul, formando uma espécie de más.

Voltar