TEMPLÁRIOS

HISTÓRIA

Os Pobres Cavalheiros de Cristo e do Templo de Salomão — Pauperes Commilitiones Christi Templique Salomonis, ou simplesmente Templários, ou ainda o Templo, como ficaram conhecidos, conformam uma ordem militar monástica que existiu entre os anos de 1119 e 1312. Sua fundação se deu por iniciativa de um nobre francês chamado Hugo de Payns, que juntamente com outros oito cavalheiros formou uma unidade militar que observava os votos de pobreza, obediência e castidade, com o objetivo aparente de dar segurança às rotas de peregrinos cristãos na Terra Santa, devido a numerosos ataques que estes sofriam de bandidos, em suas viagens ao Médio Oriente, principalmente a Jerusalém.

 


O fato de o Templo ter-se tornado muito poderoso em poucas décadas, bem como o seu desaparecimento misterioso, após uma perseguição encabeçada por Felipe IV, o Belo, Rei da França, ensejou e enseja até hoje muitas especulações sobre os verdadeiros objetivos dessa ordem de cavalaria.
Ao se analisar a história dos Templários dentro do contexto da Cultura Marcial, verifica-se que foram nada mais nada menos do que a mais formidável força de combate do seu tempo. Não simples máquinas de guerra, mas verdadeiros cavalheiros e guerreiros com um senso de transcendência do ato de lutar, ciosos de que a verdadeira batalha se trava no interior de cada um.
O nome da ordem se deve a ter, quando da sua fundação, recebido como doação do patriarca de Jerusalém, para sua sede, o local em que existira o Templo de Salomão, destruído no ano 70 d.C. pelas legiões de Tito, após a retomada de Jerusalém pelos romanos depois de um levante dos judeus que durara cerca de três anos. Muito depois, foi construída a mesquita Al-Aqsa, no mesmo local, conhecido como a Cúpula da Rocha, pois ali os muçulmanos antes da conquista de Jerusalém pelos cruzados reverenciavam a “rocha negra” da qual o profeta Maomé teria feito sua subida aos céus, descrita no Alcorão como “o mais distante local da última viagem do profeta”. Com a fundação da Ordem, em 1119, o local que já fora sagrado para judeus e muçulmanos se tornava sede de uma ordem cristã.
Além de grandes guerreiros, os Templários foram também magníficos construtores. Dentro das muitas propriedades que conquistaram como prêmios de batalha ou por doação de nobres simpatizantes que abraçavam a sua causa, construíram numerosos castelos, fortalezas, portos, estradas e catedrais. Conheciam as proporções mágicas, ou áureas, conseguindo reunir e harmonizar os três mundos, o inferior da matéria, com o domínio da arquitetura, em formas quadradas, o intermediário da alma, com o domínio da geometria com formas predominantemente triangulares, e o superior do espírito, com o domínio dos números, em formas circulares, a representar a perfeição.
Todas as fortalezas construídas pelos Templários também tinham forma semelhante, atendendo a um padrão arquitetônico e funcional. A particularidade fica para a capela, sempre em formato octogonal, que é a forma, segundo eles, que congrega a dualidade do quadrado representando a matéria e a unidade do círculo representando o espírito.
A forma simples como viviam os Templários, dentro dos seus votos monásticos, aliada à extrema confiabilidade que transmitiam e efetivamente exercitavam no seu dia-a-dia, trouxe ao Templo muitas doações e contribuições, como já foi dito. Isso tornou muito rica a ordem formada por cavaleiros pobres, a ponto de, além de auto-financiar suas campanhas militares, manter criações de animais, inclusive cavalos utilizados em combate e aparelhar suas tropas com os melhores equipamentos militares, poder emprestar dinheiro para muitos reis.
A Ordem dos Cavaleiros Templários não estava subordinada às autoridades seculares, pois com o esfacelamento do Império Romano e a divisão feudal das terras, não havia um sentido de Estado com poder centralizado que pudesse fazer frente à organização da igreja católica. A estrutura de poder do reis medievais era precária, calcada mais na propriedade privada do que num sentido de poder público, e tendo-se em conta que o poder dos reis baseado na força dependia muito de alianças com nobres de menor envergadura, cuja fidelidade era volúvel, acompanhando seus interesses imediatos, dificilmente um nobre, ainda que fosse rei, conseguiria reunir soldados que pudessem se equivaler em eficiência bélica aos Templários.
Tampouco dentro da estrutura da Igreja Católica Romana, que transcendia as fronteiras dos reinos, a Ordem do Templo se subordinava às autoridades eclesiásticas, estando inclusive isenta do pagamento do dízimo. O Grão-Mestre da Ordem reportava-se diretamente ao Papa e somente a ele. Deve-se, entretanto, ter em conta que essa subordinação a Roma era mais formal do que material. Difícil conceber que na prática o Papa tivesse meios para controlar ou se imiscuir nas atividades de uma organização imensa e acima de tudo poderosa.

 

HIERARQUIA

A estrutura militar de impressionante envergadura demonstra que os Templários eram um corpo disciplinado e coeso de monges-guerreiros que renunciaram ao seu alvedrio para obedecer, esperando-se tal comportamento até dos de mais baixa classe social quando em campanha ou durante a batalha. Assim era a sua hierarquia:

CAPÍTULO: assembléia de todos os cavaleiros, que elegia o Grão-mestre, admitia novos membros e participava na tomada de decisões importantes.
GRÃO-MESTRE: controlava a estratégia, mas precisava da aprovação do Capítulo para alguns atos, como declarar guerra ou assinar trégua, alienar terras ou assumir a defesa de um castelo, nomear comandantes provinciais ou oficiais em chefe e acolher novos membros na Ordem. Podia ter em sua unidade doze cavalos. A expressão grão-mestre passou a ser mais utilizada a partir da metade do século XIII, antes se denominava Magister Militum Templi. Só respondia ao Papa e ao Capítulo.
SENESCAL: responsável pela administração de terras, casas e mantimentos, e pela elaboração e guarda dos estandartes. Oficial superior que substituía interinamente o Grão-mestre quando este morria.
MARECHAL: responsável pelo recolhimento e distribuição de todo o equipamento militar, inclusive os animais, sendo proibido aos cavaleiros lhe pedir determinado animal, sob pena de receber o pior.
COMANDANTE DA CIDADE DE JERUSALÉM: responsável pela missão original dos Templários: proteger as rotas de peregrinos, para o que contava com dez cavaleiros, que em tempos de guerra formavam sua guarda pessoal.
COMANDANTES DE TERRAS: atribuições similares às do Comandante de Jerusalém, em outras cidades. Tinham a obrigação de equipar os castelos e fortalezas sob o seus comando, com provisões de trigo, vinho, ferro, aço, couro, etc.
COMANDANTES DE CASAS: estavam abaixo dos comandantes de Terras na estrutura hierárquica, sendo responsáveis por uma determinada propriedade, fosse castelo, casa ou fazenda.
COMANDANTES DE CAVALEIROS: vinham abaixo dos anteriores, atuando como oficiais no campo de batalha. Deste grau para cima, era permitido levar estandartes, para servir de pontos de reagrupamento durante a batalha.
IRMÃOS CAVALEIROS: levavam mantos brancos, que depois de 1147 passaram a ser estampados com a cruz vermelha de quatro hastes. Podiam dispor de quatro cavalos: um ou dois corcéis de guerra, um animal para montar (mula ou palafrém) e um cavalo de carga; um escudeiro para cada corcel de guerra. Essa era a unidade básica de guerra Templária.
SARGENTOS: de origem não nobre, por isso pode dispor de apenas uma cavalgadura. Armadura mais leve, sem os pés blindados, para poder servir como soldado de infantaria. Usavam mantos marrons ou negros.
CONFANONIER (abandeirado): dirigia as atividades dos escudeiros, que desempenhavam um papel crucial na hora de cuidar das montarias da Ordem e ajudar a seus senhores em campanha e durante a batalha.
TURCÓPOLO: cavaleiros nascidos no Oriente, portanto adestrados nas técnicas de combate à maneira oriental. Exímios arqueiros, inclusive sobre o cavalo a galope.
TURCOPLIER: oficial superior dos turcópolos. Quatro montarias. Posição intermediária entre sargentos e cavaleiros. Os oficiais sargentos estavam sob o seu comando.

SÍMBOLOS E CERIMÔNIAS

Em 1147, o Papa Eugênio III autorizou a utilização de um símbolo sobre os mantos brancos dos cavaleiros, que era uma cruz vermelha, com as quatro hastes de mesmo tamanho, alargando-se nas extremidades. Esse símbolo, que exotericamente representava o sangue do mártir sobre o branco da pureza, era no sentido esotérico da Ordem um escudo espiritual para proteger os cavaleiros em sua luta interior, que transcendia os limites da matéria.
No mundo visível, eram protegidos pelo escudo, pela armadura e pelo elmo, todos concebidos em linhas curvas, denotando a intenção de desviar os golpes e não bloqueá-los. As armaduras eram leves, protegendo apenas partes vitais do corpo, pois os Templários entendiam que a melhor defesa em combate é a boa técnica e o espírito guerreiro.
As espadas eram utilizadas na cintura com guarda cruzada, para permitir o desembainhar mais eficiente, em virtude do seu tamanho. O corte era duplo. A guarda reta, formando com o corpo da espada uma cruz.
Todos os cavaleiros usavam barba e os mantos brancos com a cruz vermelha. Nenhum adorno ou item em metais preciosos era permitido, salvo com a autorização expressa do mestre. Nas montarias também não era permitido nenhum adereço extraordinário, o que fazia com que os cavaleiros Templários parecessem todos iguais. Essa uniformização tanto na aparência quanto na forma de combate é um código de várias culturas guerreiras, valorizando o sentido do conjunto e do bem maior pelo qual o guerreiro vive e morre, em detrimento da personalidade do indivíduo, que nenhum valor tem quando destacada do conjunto. Para outras culturas guerreiras, essa unidade era representada pela cidade, no caso destes cavaleiros, isso foi simbolizado pelo Templo.
Outro símbolo bastante conhecido dos Cavaleiros Templários é o seu selo, que traz dois cavaleiros montando um mesmo cavalo, com os dizeres: Xpist (Cristo ou o Mestre); militum (serviço, militância); e sigilum (segredo ou silêncio).

Muitos significados foram atribuídos pelos estudiosos a esse símbolo, como por exemplo a pobreza, cujos votos seguiam. Mas a pobreza a que se submetiam aqueles que ingressavam nas linhas Templárias — se junto a um cavaleiro Templário morto em batalha fosse encontrado algum dinheiro, ele não seria enterrado no cemitério da casa do Templo, mas sim jogado aos cães; se o fato só fosse descoberto após o enterro, o corpo seria retirado de sua tumba para ser jogado aos cães — não significava a pobreza da ordem, muitos menos no que se referia aos seus instrumentos de combate, como armas e principalmente cavalos, que podiam ser em número de quatro — dois corcéis de guerra, uma montaria e um animal de carga — para cada um dos irmãos cavaleiros menos graduados, aumentando esse número na medida em que subisse a posição hierarquia do templário na Ordem.
O verdadeiro significado desse símbolo é a representação do mestre e do discípulo, encontrada em toda a cultura marcial. Evidentemente, os Templários seguiam essa configuração clássica de transmissão do conhecimento, inclusive adotando o título de “grão-mestre” para seu líder. A clara e rígida organização hierárquica do Templo também indica o respeito que dedicavam à linhagem de mestres e ao voto de obediência, cuja compreensão consciente muitas vezes foge àqueles que não conhecem os códigos marciais.
Também tinha extrema importância para os Templários o seu estandarte, conhecido como Bauceant — que era também o temível grito de guerra desses cavaleiros —, segundo alguns autores derivação da expressão vau cent (“vale cem”, isto é, cada Templário valia por cem inimigos).
Certa feita, em uma campanha cristã no norte da África, um conde francês que chefiava a expedição solicitou auxílio aos Templários, que prontamente lhe enviaram reforços: vinte cavaleiros. O nobre mostrou-se irritado com o pequeno número de Templários, ao que o líder da unidade templária lhe respondeu: “Vocês têm que profissão? Ferreiros, agricultores, camponeses? Quantos são guerreiros, talvez dois ou três? Nós somos vinte guerreiros! Portanto, estamos em maior número do que vocês! Nos combates que se seguiram, o nobre cristão pôde efetivamente observar o que dissera o Templário. A confiança em sua capacidade de combate, aliada ao poder de viver por um Ideal maior, e à honra de morrer por esse Ideal, davam aos Templários uma força e uma coragem impressionantes.
O Bauceant era dividido em duas metades, uma branca, uma negra, reforçando a idéia de dualidade. Exotericamente, o negro era “terror e morte ao inimigo” enquanto o branco representava “fé e caridade para os cristãos”. Esotericamente, as cores opostas representavam a eterna luta entre o bem e o mal, entre os demônios da personalidade e a elevação do espírito. No centro do estandarte, aparecia a cruz vermelha. E como moldura a máxima “Non nobis, Domine, non nobis, sed nomini Tuo da gloriam”.
Essa máxima, que quer dizer “Nada para nós, Senhor, nada para nós, mas pela glória do Teu nome”, outro símbolo importante — talvez o mais importante — da Ordem dos Templários, traduzia e resumia o ideal do Templo: a entrega total! A devoção e a luta por um Ideal maior do que eles mesmos, representando toda a humildade do guerreiro perante os mestres e perante esse ideal, que lhes outorga o orgulho necessário para não temer inimigo algum em combate, seja ele físico ou não!
Os estandartes, além da extrema importância estratégica em batalha, tinham significado muito profundo para o Templo, a ponto de uma das nove penitências punidas com a exclusão da Ordem — pena máxima — ser soltar ou abaixar um estandarte no campo de batalha, fosse por medo do inimigo, o que seria indesculpável, fosse mesmo para golpear um inimigo, o que seria desculpável segundo o discernimento dos irmãos caso nenhum dano tivesse daí decorrido.
Dentre muitas cerimônias que faziam parte das liturgias do Templo, destaca-se a de recebimento de um novo membro na Ordem, que tinha um ritual um tanto extenso, que não vem ao caso aqui repetir, mas um ponto se destaca por traduzir o espírito desses notáveis combatentes. Depois de advertido de todas as agruras que representava o ingresso nas linhas templárias, pois todos os desejos da personalidade seriam quebrados: “se desejas estar deste lado do mar, te enviaremos ao outro; (…) se desejas dormir, serás despertado; se desejas estar desperto, se te ordenará que descanses em tua cama…”, depois de pedir, diante de Deus, do seu mestre e dos seus irmãos, acolhida naquela companhia, da qual desejaria ser um servo e escravo para sempre, de ser sabatinado com perguntas e repetir uma série de promessas, o mestre oficiante lhe respondia: “E nós (…) te prometemos pão e água e as modestas roupas desta casa, e muita dor e sofrimento”.
A aceitação de um novo irmão não era ato isolado do Grão-Mestre. O Capítulo se reunia, e qualquer um dos cavaleiros presentes que tivesse uma objeção ao ingresso do novo pretendente poderia dizê-lo, vetando sua entrada.

TRADIÇÃO E CULTURA GUERREIRA

Dentro dos códigos marciais, sempre há um lutador ou guerreiro com uma superioridade técnica e grandeza interior tão distintas, que o tornam muito difícil de ser batido, mesmo por maior número de oponentes. Um guerreiro como esse dentro de uma armadura de quota de malha que o torna invulnerável nos pontos mais sensíveis, com a cabeça também protegida por um elmo de aço, um sólido escudo sustentado em um dos braços, na outra mão uma longa espada de duplo fio, sobre um grande cavalo europeu de floresta, era ainda muito mais difícil de ser combatido. Oitenta, cem, trezentos guerreiros como esse, lado a lado em linha cerrada, todos imbuídos de uma disciplina de monge, da vontade de entregar sua vida por algo maior, e de uma ferocidade em combate, cujo código de honra expressamente proibia que deixassem o campo de batalha se estivessem em proporção contrária menor do que “um para sete, cinco para cem, e cem para dez mil”, eram praticamente imbatíveis!
Essa é apenas uma vaga imagem do que era uma pequena unidade templária em batalha. Esses cavaleiros que todos os dias, ao nascer do sol, cravavam suas espadas no chão, simbolizando a união de céu e terra, e com o joelho direito em terra aguardavam o primeiro verde raio de sol para orar, pedindo a Deus que no dia que começava tivessem o que mereciam, nada mais, nada menos. Ao voltar-se diariamente para algo maior, os Templários ganhavam um poder que não era dado a outros soldados. Ao se ligar humildemente a um plano superior, os Templários promoviam a sua união horizontal, tornando-se “irmãos” — que era o tratamento dispensado entre os cavaleiros do Templo —, o que gerava a homogeneização daqueles cavaleiros que vinham de diferentes países, culturas e famílias, com formações e educações distintas.
Ao se tornarem “irmãos”, todos os cavaleiros Templários se defenderiam uns aos outros como ninguém no campo de batalha. Aqui se fecha o elo que torna a corrente indestrutível: a ligação de cada um ao Ideal Superior e, ao mesmo tempo, a ligação com aquele que ao final é quem luta e morre ao seu lado na batalha.
O Templo aceitava aspirantes independentemente de sua origem, nacionalidade ou raça. Porém, para aspirar à condição de cavaleiro, era necessário nobreza. No momento de ingresso, essa nobreza era aferida pela origem familiar do cavaleiro, mas no decorrer de sua permanência no Templo, o cavaleiro devia entender que nobreza não é uma característica, mas um estado, um espírito. No momento em que esse espírito da nobreza, vindo dos deuses, abandona o coração do guerreiro, ele se torna pedra, como o ouro que perde o seu espírito cósmico se torna um metal qualquer, ele deixa de ser nobre e passa a ser um homem comum. O homem nobre pensa nos outros e no Ideal antes do que em si mesmo, enquanto o homem comum só tem ações comuns e não pensa senão em si mesmo. Quando um cavaleiro Templário deixava de ter o coração nobre, devia deixar as fileiras da Ordem, pois esta não era composta por homens comuns!
A mesma humildade que os Templários cultivavam perante o mestre e o ideal transformava-se em altivez e orgulho perante seus inimigos. A vitória ou a morte eram os únicos destinos possíveis para um Templário, pois nunca eram mantidos prisioneiros pelo inimigo. A regra do Templo proibia que se pagasse resgate pelos prisioneiros. Os Templários nunca davam qualquer informação sobre suas posições, estratégias ou qualquer assunto militar ou esotérico da Ordem, nem mesmo sob tortura. Essas duas características, combinadas, os tornavam prisioneiros desinteressantes, o que levava os inimigos a executá-los sempre que conseguia prendê-los, o que não era tão freqüente.
Certa vez, nas primeiras décadas de existência do Templo, um cavaleiro foi feito prisioneiro. Seu captor de início não entendia por que a Ordem se negava a pagar resgate. Procurava afetar a mente do cavaleiro, dizendo-lhe que seus superiores não se importavam com ele e que o estavam condenando a uma morte horrível. Como não se manifestava, levaram-no para uma câmara de tortura a fim de extrair dele informações sobre a ordem que o traíra. Os mais terríveis castigos físicos lhe foram impostos, durante vários dias, sem que uma palavra sequer fosse extraída dos seus lábios. Os torturadores já não tinham mais imaginação para prosseguir, quando o cavaleiro começou a sussurrar alguma coisa com a pouca energia que lhe restava. O algoz se aproximou, curioso, para ouvi-lo repetir sua máxima até que a vida deixou seu corpo. Aquele episódio se alastrou, criando para os Templários a fama de guerreiros duros e de prisioneiros inúteis, duas razões para matá-los sempre que possível.
Foi muito raro observar ocasiões de combate em que se apresentassem mais de trezentos Templários juntos. Suas unidades de combate geralmente eram pequenas, algumas dezenas. Os cavaleiros Templários nunca transitavam sozinhos. Suas patrulhas eram sempre de dois homens, assim como em batalhas campais, para além da formação em linha de cavalaria, após a primeira carga, em que as linhas se desfaziam em meio ao inimigo, sempre havia duplas que se protegiam mutuamente dos ataques pelas costas, haja vista que em combates a cavalo as manobras de esquiva e contra-ataque para a retaguarda nem sempre são rápidas o suficiente. Muitas culturas guerreiras ao longo da história se utilizaram desse expediente em batalha, a exemplo dos dyas espartanos, e o conceito é válido até hoje, em exércitos e unidades policiais contemporâneas.
Outra semelhança dos Templários com os espartanos é que muitas vezes quando um aliado lhes pedia reforços, enviavam um único guerreiro, que além de valer por muitos no combate, ali estava para ensinar e liderar, mostrando-se de muita valia. A diferença entre um guerreiro e um simples soldado, é que enquanto este é recrutado, aquele é voluntário. O guerreiro sempre sabe por que está lutando, enquanto o soldado muitas vezes o ignora.
Os Templários não faziam treinamentos técnicos, pois a destreza nas técnicas de combate era um pressuposto para o ingresso na Ordem. Todo aquele que tinha ingresso concedido na Ordem já dominava, além das técnicas com a lança e a espada longa de duplo corte, também o uso da maça, do punhal e alguns cavaleiros o machado de duplo corte. Também era necessário o domínio das técnicas em que o próprio cavalo é utilizado como ferramenta de guerra, ao realizar movimentos no campo de batalha visando a atingir os adversários com seu lombo ou com as patas — mãos e pés do animal.
Havia também na Ordem cavaleiros geralmente originários do oriente, chamados turcópolos que conformavam unidades ligeiras, com cavalos de estepe, menores e mais ágeis e rápidos do que os cavalos de floresta europeus, armados com cimitarras, mas sendo especialistas arqueiros que disparavam a galope. O que se acrescentava, portanto, à técnica de cada cavaleiro eram aspectos táticos, estratégicos e mágicos, o que lhes ampliava exponencialmente a eficácia e a eficiência bélica.
A Regra tinha previsões claras sobre como se devia dar uma carga de cavalaria, bem como o reagrupamento e acampamento, o que demonstra o alto grau de organização militar e disciplina para observância das ordens em batalha. Enquanto outras unidades de cavalaria, ao fazer carga, se assemelhavam a jogar sementes sobre uma janela, isto é, primeiro chega uma, depois mais algumas e em seguida de um só golpe todas as demais, os Templários mantinham a unidade de suas linhas, atingindo a frente de batalha do inimigo como um só corpo. Só iniciavam o galope quando a menos de cinqüenta metros das linhas inimigas. A punição para qualquer cavaleiro que fizesse carga sozinho, desobedecendo ao seu superior era severa: faria o resto da batalha sem montaria, como soldado de infantaria, o que era a maior humilhação possível para um cavaleiro, pior do que a própria morte. O reagrupamento dos Templários também se realizava com disciplina admirável, o que lhes outorgava uma condição muito superior à de qualquer outra força militar da época. Quando um estandarte caía, deviam reagrupar-se perto de outro estandarte templário ou, na falta deste, de outra ordem de cavalaria, preferencialmente dos Hospitalários, com quem tinham excelente e fraterno relacionamento.
Não foram poucas as vezes, durante as cruzadas, em que a disciplina dos Cavaleiros do Templo, a permitir velocidade e organização na reação contra um ataque inimigo, salvou os cruzados de derrotas retumbantes para os sarracenos.
A Regra dos Templários não permitia que pagassem resgate por aqueles que eram feitos prisioneiros, o que ocasionava, geralmente, sua execução, quando caíam em mãos do inimigo. Em uma das vitórias obtidas por Saladino contra os cruzados, ele resolveu libertar todos os prisioneiros, mostrando compaixão, qualidade pela qual ficou historicamente conhecido. Mas essa compaixão não se estendeu aos prisioneiros Templários, que foram prontamente executados, haja vista que o sultão, como grande estrategista que era, sabia quão renhidos em combate eram aqueles homens para se permitir ter de enfrentá-los novamente.
Geralmente, quando sofriam um revés no campo de batalha, as baixas dos Templários eram enormes, uma vez que não se deixavam prender com vida, nem abandonavam a luta. Seu código de honra proibia que um cavaleiro se afastasse de sua posição mesmo que estivesse ferido e “se por acaso ocorrer dos cristãos serem derrotados, que Deus os receba!” assim dizia a Regra. Há vários relatos históricos de que o Templo, durante o século XII, era um corpo compacto e muito coeso, caracterizado por uma disciplina férrea. Em 1188, quando Saladino sitiava a cidade de Darbsák, o historiador sarraceno escreveu impressionado seu relato de como os Templários da guarnição que defendia a cidade fecharam uma brecha que se abriu na muralha usando o próprio corpo “imóveis como uma muralha”, tão logo caía um cavaleiro entrava outro em seu lugar.

No final do século XIII, o Rei da França tomara emprestadas da Ordem vultosas quantias. O Tesouro Real ficava na fortaleza do Templo em Paris, o que tornava a França muito dependente dos Templários. O rei Felipe IV inicia então uma forte campanha contra o Templo, imputando-lhe crimes e condutas vis que jamais se comprovaram e conseguindo que o Papa iniciasse um processo de investigação.
Em 1307, o Grão-mestre do Templo, Jacques de Molay, estava em Paris para o enterro de Catarina de Courtenay, cunhada de Felipe IV — tendo sido inclusive um dos que carregou seu caixão. No dia seguinte ao funeral, 13 de outubro de 1307, foi preso a mando do rei da França. Um dia depois, foi emanada ordem de prisão contra todos os Templários e seus bens foram seqüestrados.
Até mesmo o Papa, subserviente a Felipe IV, indignou-se com a forma das prisões e escreveu-lhe indignado, mas os interesses do rei eram outros, pouco lhe importavam as objeções do Papa. O processo passou para as mãos da Inquisição, cujo líder era o confessor do Rei Felipe IV. A Inquisição se caracterizou pela possibilidade de prisão e seqüestro de bens antes mesmo de qualquer acusação formal, valendo-se os acusadores de quaisquer meios para provar as acusações iniciais que levaram à prisão, inclusive a tortura.
Pouco mais de um mês depois das prisões, o Papa Clemente V voltou atrás em sua postura inicial e ordenou a prisão de todos os Templários, na Europa e no Oriente. Felipe tornou público o processo, com o fim de denegrir a imagem da Ordem. As acusações eram: negação de Cristo, idolatria, recusa dos sacramentos, absolvição por leigos, enriquecimento da ordem por todos os meios, prática de magia, costumes obscenos e sodomia.
Mesmo com o expediente da tortura, nenhuma confissão foi extraída, baseando-se então as acusações em depoimentos de alguns sargentos e serventes, sem qualquer coerência, em que afirmavam terem visto “alguma coisa estranha” em cerimônias às quais não tinham acesso.
Era de se pressupor que, como em qualquer outra organização, no Templo também houvesse círculos de acesso, sendo os mais internos reservados a membros mais afeitos às práticas da ordem e de consciência mais desenvolvida. Se a magia foi efetivamente trabalhada em um núcleo dentro da organização templária, adquirida a partir de conhecimentos secretos, ou não conhecidos fora da ordem ou nos seus círculos mais externos, não foi fruto senão de uma constante e inflexível disciplina interior, como parte de um processo de evolução espiritual.
Os Templários de fato não adoravam a imagem do Cristo crucificado em que este aparecia com expressão triste e sofredora, por entenderem que não refletia a conduta do fundador da sua religião. É fácil entender tal comportamento. Se para simples cavaleiros a dor, a prisão pelo inimigo, com torturas cruéis, não levava a renegar a sua fé, a fornecer informações militares relevantes para o inimigo, seria inconcebível que o filho de Deus, o enviado do céu para guiar os homens, sucumbisse e fraquejasse diante da dor física. Preferiam então o Cristo Rei dos Reis.
Alguns meses após a prisão de Jacques de Molay, noticiou-se sua confissão de todas as acusações que lhe eram imputadas e à Ordem. Se foi uma confissão legítima, obtida mediante tortura — lembrando que soldados desse nível não sucumbiriam facilmente a esse expediente — ou totalmente forjadas pelos acusadores, é difícil precisar. O que é fato é que quando diante da fogueira se solicitou ao Grão-Mestre que confirmasse sua confissão ele a negou, preferindo as chamas, tendo inclusive praguejado contra seus captores e acusadores: “A vida me foi oferecida, mas pelo preço da infâmia. Por esse preço, a vida não vale a pena ser vivida”. Tal conduta não condiz com quem confessa, espontaneamente ou por tortura.
Já nos dias atuais, foi encontrado nos arquivos secretos do Vaticano um pergaminho até então desconhecido, nomeado pelos historiadores “Pergaminho de Chinon” que demonstra que o Papa os havia inocentado de todas as acusações, proibindo sua prisão, interrogatório e execução.
Tal pergaminho jamais chegou a público na época, e, em 10 de maio de 1310, foram levados à fogueira cinqüenta e quatro Templários, incluindo o Grão-Mestre.
Em 1312, o Papa lançou a bula Vox in excelso, que extinguia oficialmente a Ordem dos Templários, transferindo todos os seus bens para a Ordem dos Hospitalários.
Por que morrer por um punhado de idéias, poderiam perguntar-se alguns. Os Templários não morreram por dinheiro ou por uma ideologia, mas sim por princípios muito claros para o valente e muito distantes e ininteligíveis para o covarde. Morreram pelo ideal guerreiro, guardado no mais interno de sua alma, e que não pode ser mudado ou extraído nem com a mais pérfida tortura ou com a morte mais dolorosa, morreram pela honra, morreram para que hoje, quase sete séculos depois, esta possa ser resgatada como valor primordial para a construção de um mundo novo e melhor!
Mesmo depois da extinção formal da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, muitos ainda continuaram a acreditar na sua continuidade secreta. Não há nada que corrobore cientificamente essa tese. Mas o simples fato de os Templários ainda despertarem tanto interesse, de seus ideais ainda se prorrogarem no tempo, de ainda se querer imitar sua conduta moral, já atesta a sua imortalidade. O código pelo qual viveram e pelo qual morreram é um código conhecido, é um código marcial de honra e disciplina. Mudam as armas, mudam os trajes, mudam as palavras, mas não muda o ideal: travar uma constante luta interior, para o crescimento na vida espiritual. Transcender os limites da matéria, do corpo físico, e voltar-se para dentro, para aquilo que há de divino dentro de cada um. Encontrar o ouro alquímico da transmutação que se passa no coração do guerreiro. É isso que buscavam os cavaleiros do Templo. É isso que buscaram os guerreiros de diferentes lugares e de diferentes tempos e templos. É isso que busca o guerreiro de hoje!

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