OS SIKHS

INTRODUÇÃO

Por volta do século XV d.C., do encontro de hindus e muçulmanos, surgiu no Punjab, região no noroeste da Índia, o Sikhismo, que abrange aspectos religiosos e guerreiros, o que apesar de aparentemente incongruente, também aparece em outras culturas marciais. Religião e formação guerreira não são dissociados.
Entretanto, não se sabe ao certo se sua origem verdadeira foi a de uma comunidade guerreira (chatrya) que adotou nuances religiosas ou a de uma religião que adotou contornos guerreiros para operar num meio hostil.
O nome Sikh provém de Sishya que significa “discípulo”. Existem pequenas comunidades Sikhs em praticamente todos os continentes, mas sua maior concentração é na Índia, onde excedem os 10 milhões.
O fundador do movimento Sikh foi Guru Nanak (1469 – 1539), que pregou e viveu, assim como seus seguidores, uma vida de unidade com Deus, irmandade entre os homens, rejeitando o sistema de castas hindu e igualdade entre homens e mulheres, contrariamente ao que se adota no islamismo.
Depois de Guru Nanak, outros nove mestres o sucederam na liderança dos Sikhs, sendo o último deles Gobind Singh (1666 – 1708), que desafiou o poder do imperador muçulmano Mughal, sendo derrotado. Depois de seu assassinato, a perseguição contra os Sikhs foi grande, mas lograram estabelecer um território razoavelmente grande no noroeste da Índia, sob a liderança de Ranjit Singh. Após sua morte, sem comando claro, os Sikhs se envolveram em confrontos com os invasores ingleses.
Os ingleses os derrotaram, anexaram o Punjab, e com isso o Sikhismo sofreu um duro golpe, não se recuperando até o século XX, quando lhe foi concedido o controle de seus lugares sagrados (gurdwaras). Quando o subcontinente indiano foi dividido em 1947, o Punjab ocidental transformou-se território paquistanês e a porção oriental permaneceu na Índia.

O início formal do Sikhismo é marcado pela era dos Dez Gurus, que começa com o Guru Nanak (1469-1538).

 

 

INTRODUÇÃO

Por volta do século XV d.C., do encontro de hindus e muçulmanos, surgiu no Punjab, região no noroeste da Índia, o Sikhismo, que abrange aspectos religiosos e guerreiros, o que apesar de aparentemente incongruente, também aparece em outras culturas marciais. Religião e formação guerreira não são dissociados.
Entretanto, não se sabe ao certo se sua origem verdadeira foi a de uma comunidade guerreira (chatrya) que adotou nuances religiosas ou a de uma religião que adotou contornos guerreiros para operar num meio hostil.
O nome Sikh provém de Sishya que significa “discípulo”. Existem pequenas comunidades Sikhs em praticamente todos os continentes, mas sua maior concentração é na Índia, onde excedem os 10 milhões.
O fundador do movimento Sikh foi Guru Nanak (1469 – 1539), que pregou e viveu, assim como seus seguidores, uma vida de unidade com Deus, irmandade entre os homens, rejeitando o sistema de castas hindu e igualdade entre homens e mulheres, contrariamente ao que se adota no islamismo.
Depois de Guru Nanak, outros nove mestres o sucederam na liderança dos Sikhs, sendo o último deles Gobind Singh (1666 – 1708), que desafiou o poder do imperador muçulmano Mughal, sendo derrotado. Depois de seu assassinato, a perseguição contra os Sikhs foi grande, mas lograram estabelecer um território razoavelmente grande no noroeste da Índia, sob a liderança de Ranjit Singh. Após sua morte, sem comando claro, os Sikhs se envolveram em confrontos com os invasores ingleses.
Os ingleses os derrotaram, anexaram o Punjab, e com isso o Sikhismo sofreu um duro golpe, não se recuperando até o século XX, quando lhe foi concedido o controle de seus lugares sagrados (gurdwaras). Quando o subcontinente indiano foi dividido em 1947, o Punjab ocidental transformou-se território paquistanês e a porção oriental permaneceu na Índia.
O início formal do Sikhismo é marcado pela era dos Dez Gurus, que começa com o Guru Nanak (1469-1538).

“A realização da verdade é mais elevada do que qualquer outra coisa. Mais elevado ainda é levar uma vida veraz”

“Deus é único
Seu nome é a Verdade
Ele é o Criador
Ele é sem medo
Ele não tem inimizade com nada
Ele nunca morre
Ele está para alem do nascimento e da morte
Mortais obtiveram seus corpos humanos como resultado de boas ações, mas só conseguirão alcançar o portão da salvação com a boa Graça de Deus”

(Guru Nanak)

 

GURU NANAK

Guru Nanak nasceu na vila de Rai Bhoi di Talwandi, na região do Punjab. Desde tenra idade Guru Nank fez amizades entre crianças hindus e muçulmanas e sempre se mostrou muito inquisidor sobre o significado da vida. Aos seis anos ele foi mandado ao professor da vila para aprender matemática e a ler e a escrever em hindu. Ele sempre foi um aluno brilhante na literatura muçulmana e aprendeu o persa e o arábico. Era uma criança muito dotada que aprendia muito rápido e sempre questionava seus professores.
Nanak demonstrou que o hinduísmo (movimento Bhakti) e o islamismo (movimento Sufista) tinham elementos em comum, que podiam permitir uma compatibilidade.
Ainda jovem herdou o rebanho da família e, ao cuidá-lo, passava várias horas absorto em meditações e em discussões religiosas com muçulmanos e hindus que viviam nas florestas ao redor de seu vilarejo. Sua família pensou que se Nakak se casasse se interessaria mais pelos afazeres domésticos, deixando um pouco de lado suas divagações filosóficas. Foi então arranjado um casamento. Aos 16 anos, Nanak se casou com Sulakhani, filha de um rico mercador. Ele não apresentou objeção ao casamento, pois viu que a vida de casado não conflitava com sua busca espiritual. Amou muito sua mulher e teve com ela dois filhos, Sri Chand em 1494 e Lakshmi Chand três anos depois.
Responsável agora por sua família, Guru Nanak aceitou um emprego de contador nas lojas do governador muçulmano Sultanpur Daulat Khan Lodi. Nanak juntou-se com seu amigo de infância muçulmano Mardana, que era um tocador de flauta profissional. Guru Nanak trabalhava durante o dia, mas bem cedo nas manhãs e tarde da noite ele meditava e cantava hinos acompanhado por Mardana no rabab (um instrumento de cordas). Essas seções atraíram muitas pessoas e muitos acabaram juntando-se aos dois.
Certo dia, Nanak foi ao rio Bain para se banhar, mas depois de mergulhar não mais voltou à superfície. Foi dado como provavelmente morto afogado. Os moradores do vilarejo procuraram em vão por ele, vivo ou morto. Guru Nanak estava em sagrada comunhão com Deus, que o iluminou e o permitiu entender: “Não existe nenhum senão Um Deus, Seu nome é Verdade, Ele é o Criador, a nada Ele teme, Nele não permanece o ódio, Ele nunca morre, Ele está para além do círculo da vida e da morte, Ele é auto-iluminado, Ele se manifesta pela bondade do Verdadeiro Guru. Ele era verdadeiro no início, Ele era verdadeiro quando as eras começaram e sempre foi verdadeiro assim como ainda o é nos dias de hoje” (Japji)
Relata-se que ele reapareceu depois de três dias, no mesmo lugar. Ele não era mais a mesma pessoa de antes, havia uma luz divina em seus olhos e seu rosto estava resplandecente. Deixou seu emprego, doou todos os seus bens para os pobres e, finalmente, proclamou: “Não existe hindu, não existe muçulmano”. Essa frase tornar-se-ia um dos pilares do Sikhismo.
Depois desse episódio, Guru Nanak percorreu todo o Punjab pregando as palavras do Sikhismo durante 15 anos nos quais conseguiu muitos adeptos à sua doutrina. Quando estava com 30 anos, no ano de 1499, começou um novo estágio, realizando jornadas mais extensas para difundir sua religião e a mensagem de Deus. Durante todo esse tempo, Nanak se viu acompanhado de seu amigo tocador de rabab, Mardana, e utilizou os hinos para atingir mais profundamente as pessoas.
Viajou pelo subcontinente Indiano e para além do leste, oeste, norte e sul para espalhar sua mensagem onde quer que fosse. Instalava-se em lugares públicos chamados manjis, onde seus seguidores podiam se reunir para recitar hinos e meditar.
Quando Guru Nanak foi parado em Hardwar, um centro de peregrinação no rio Ganges, ele presenciou uma grande quantidade de devotos. Eles estavam tomando banhos rituais no rio sagrado e oferecendo água ao sol. Quando perguntou “por que vocês estão jogando água para cima dessa maneira?”, os peregrinos responderam que a estavam oferecendo aos seus ancestrais. Ouvindo isso, Nanak começou a jogar água para o lado oposto, para o oeste. Quando os peregrinos o indagaram o porquê de sua ação, Guru Nanak respondeu: “Eu estou mandando água para minha fazenda que é muito seca”. Eles então perguntaram como a água poderia alcançar sua plantação que estava tão afastada, e ele respondeu: “se a água consegue alcançar seus ancestrais na região do sol, por que não poderia alcançar minha plantação, que está muito mais perto?”. Os peregrinos entenderam o que Nanak disse e se jogaram aos seus pés, tornando-se seguidores do Sikhismo.
Numa de suas peregrinações, Guru Nanak visitou Meca, Medina e Bagdá, vestido com a túnica azul típica dos muçulmanos. Chegando a Meca, adormeceu com seus pés voltados para o sagrado Kabba. Quando o vigia, em sua ronda, percebeu o Guru o chutou dizendo: “como se atreve a voltar seus pés para a casa de Deus?” Nesse momento o Guru acordou e disse: “Bom homem, estou cansado de uma grande jornada, por favor, me faça a gentileza de virar meus pés numa direção em que Deus não esteja”.
Em seu regresso, parou em Saidpur, no oeste do Punjab, durante a invasão do primeiro Mughal, imperador Babar. Vendo o massacre realizado pelos invasores, Mardana perguntou ao Guru por que tantos inocentes morreram dentre poucos realmente culpados. Guru Nanak disse a Mardana para esperar debaixo de uma árvore, que logo lhe traria a resposta. Esperando o Guru debaixo da árvore, Mardana foi mordido por uma formiga e, em sua ira, matou quantas formigas conseguiu com seus pés. Guru Nanak lhe disse então: “Agora você sabe Mardana, por que os inocentes sofrem junto com os culpados?”
Em outra oportunidade, um parente muçulmano perguntou-lhe se acreditava num só Deus. Nanak disse que sim e que era incompreensível, invisível, porém adorável. O parente, pensando que se referia a Alá, levou-o a uma mesquita para que orasse com ele, e assim fez Nanak. Ao final, o muçulmano felicitou-o por haver abraçado a nova fé dos conquistadores, mas Nanak lhe disse que não o havia feito. Seu parente, zangado, reprovou-lhe se haver prostrado sem fé, porém, Nanak lhe respondeu que não se assombrasse, pois ele mesmo, quando parecia orar, estava pensando em cavalos, e o próprio sacerdote cantor da mesquita oficiava mecanicamente enquanto pensava em seu gado enfermo. Constatados como verdadeiros esses pensamentos, Nanak passou a ser visto com grande respeito e temor.
Nanak acreditava em uma sociedade sem castas, sem nenhuma distinção gerada pelo nascimento, religião ou sexo. Ele instituiu o refeitório comum chamado Langar no Sikhismo. Ali todos podem se sentar juntos e dividir uma refeição comum, sendo reis ou pedintes.
Enquanto trabalhava no campo, um dia em 1532, Guru Nanak foi abordado por um novo devoto que disse: “sou Lehna”. Guru Nanak olhou para ele e disse: “Então você chegou Lehna. Eu estava esperando por você todos esses dias”. Lehna era um grande devoto do deus hindu Durga. Um dia, ouvindo falar de Guru Nanak e de seus ensinamentos, decidiu visitá-lo pessoalmente. Uma vez que Lehna encontrou Nanak, abandonou sua crença e se tornou um fiel discípulo. Com o tempo, tornou-se o discípulo mais ardente de Guru Nanak, que colocou todos os seus discípulos a duras provas e testes para ver quem seria o mais fiel. Um dia, acompanhado por Lehna e seus dois filhos, Guru Nanak passou sobre o corpo de um animal morto coberto por um pano e indagou: “quem comeria isto?” Seus filhos se recusaram pensando que seu pai tinha perdido o juízo, mas Lehna se abaixou e, ao tirar o pano, viu que o corpo era comida sagrada. Primeiro ofereceu ao Guru, repartiu entre todos e depois comeu.
Guru Nanak então abençoou Lehna com sua mão e lhe deu um novo nome: Angad, dizendo “Você é parte de meu corpo”. Guru Nanak colocou 5 moedas em um coco na frente do Guru Angad e se curvou ante ele. Quando Guru Nanak reuniu todos os seus seguidores, disse para Angad ocupar o assento do Guru e lhe ordenou como seu sucessor.
Sentindo que seu fim próximo, ouvindo os hindus dizerem que iam queimá-lo, e os muçulmanos que iam enterrá-lo, Nanak disse: “coloquem flores dos meus dois lados representando cada parte. O lado que tiver as flores frescas amanhã terá sua vontade realizada”. Pediu que rezassem por ele e que cobrissem seu corpo com um lençol. Então, em 22 de setembro de 1539, nas primeiras horas da manhã, Guru Nanak se fundiu com a luz do criador. Foi feito como pediu e, depois das preces, ao levantar o lençol que estava cobrindo seu corpo, havia apenas flores que estavam todas frescas.
Tendo propagado suas convicções por toda a sua vida, Guru Nanak conseguiu desafiar e questionar as formas religiosas existentes na época e firmou os fundamentos do Sikhismo. Seus ensinamentos parecem basear-se fundamentalmente nos Upanishads. Eis aqui um fragmento: “Tu és Eu; Eu sou Tu…Qual é a diferença? O Uno está em Tudo e o Todo contém o Uno. Ele é Uno e Muitos. Não morre nem perece. Não vem nem vai. Nanak lhes disse que perpetuamente está contido no Todo”.

OS OUTROS GURUS
1 GURU ANGAD
O sucessor do Guru Nanak foi o Guru Angad (1539-1552), que recompilou hinos e escrituras sagradas, começando a ordenada recompilação do Adi Grantha Saheb, livro Sikh fundamental.
Angad manifestou interesse na manutenção do físico e encorajava seus devotos a se engajar em esportes depois das orações matutinas.
Vendo que Amar Das era o mais valoroso de seus discípulos e sentindo que seu fim estava próximo, Guru Angad anunciou Amar Das como seu sucessor. Os dois filhos de Angad não ficaram contentes com a decisão do pai, mas o Guru lhes disse que essa honra deveria ir para Amar Das, pois ele era o mais valoroso e humilde. Guru Angad se curvou diante de Amar Das, colocando cinco moedas de cobre e um coco diante dele, da mesma forma que Guru Nanak tinha feito anteriormente. Guru Angad deixou este mundo em 28 de março de 1552.

2 GURU AMAR DAS E GURU RAML DAS SODHI
O terceiro Mestre chamou-se Amar Das (1552-1574) que chegou a ter contato direto com o próprio imperador muçulmano Akbar, o que demonstra a influência que o Sikhismo chegou a ter na época e suas tentativas de conciliar problemas religiosos e políticos entre um sistema cultural conquistador e uma velha civilização conquistada.
O quarto guru foi Ram Das (1574-1581), que continuou os contatos com Akbar, que passou à História como um dos exemplos de imperador-filósofo. Ele cedeu a esse Mestre um território situado em Amritsar, onde Ram Das mandou construir uma famosa cisterna (espécie de poço de desejos e centro de peregrinação, além de suas utilidades físicas).

3 GURU ARJUN MAL
O quinto guru foi Arjunmal (1581-1606), que erigiu um templo dourado como centro do Sikhismo. No princípio colocou-se sob a avocação de Hari Mandur, nome que encerra as chaves da Salvação, segundo o próprio Nanak, mas depois chamou-se Darbar Saheb, ou seja, a residência própria dos Sikhs. Em volta desse templo, agruparam-se famílias e detiveram-se mendicantes, e num processo parecido com o das sociedades de extramuros medievais no Ocidente, foi essa a origem do posterior estado Sikh. Este mesmo mestre publicou o Adi Grantha Saheb, com todos os agregados de seus antecessores.
Arjun Mal reuniu os muitos escritos e hinos, que até sua época permaneciam separados e independentes. Esse processo de compilação continuou até ser concluído pelo décimo guru, Gobind Rai.

4 GURU HAR GOBIND E GURU HAR RAJ
O sexto Mestre foi Har Gobind (1606-1645), que separou os Sikhs propriamente ditos de hinduístas e muçulmanos, convertendo-os em uma espécie de estado militar. Mandou empreender numerosas guerrilhas contra os muçulmanos.
O sétimo Guru, chamado Har Raj, governou de 1645 até 1661. Foi de caráter mais pacífico e tratou de dulcificar os costumes adquiridos pelos Sikhs, porém, recrudesceram as guerras e teve que continuar batalhando, prevalecendo cada vez mais o militar sobre o religioso à maneira hindu. De certa forma, não se perdia o religioso, que era usado para lutar contra os muçulmanos de uma maneira mística “à muçulmana”, espécie de “Guerra Santa”.

5 GURU HAI RISHAM, GURU TEGH BAHADUR E GURU GOBIND RAI
O oitavo Mestre foi Hai Risham (1661-1664). Morreu sendo ainda uma criança, e lhe sucedeu Tegh Bahadur (1664-1675), o nono Mestre, que morreu após grandes lutas em mãos do Imperador Aurangzib.
Seu filho Gobind Rai Singh, décimo e último dos Mestres Sikhs (1675-1708), aperfeiçoou a organização militar Sikh e fechou as bases do Império do Punjab. Diz-se que, depois do assassinato de seu pai, viveu vinte anos escondido numa cova alimentando suas futuras realizações, entregue a grandes meditações. No final, decidiu que os Sikhs deviam separar-se não só dos muçulmanos, mas também de homens de qualquer outra religião, não se assemelhando mais com as outras seitas hinduístas nem de outras “confissões”. Para esse efeito, chamou cinco discípulos escolhidos e submeteu-os à cerimônia do Pahul ou Iniciação Militar.
Gobind Rai concluiu a compilação dos escritos sagrados dos Sikhs que havia sido iniciada por Arjun Mal, o quinto guru. O volume resultante, que contém as doutrinas do Sikhismo, é chamado de Siri Guru Granth Sahib (também conhecido como Adi Granth), uma antologia dos escritos dos dez gurus, considerada como a bíblia Sikh. Deus, como confessado no Islamismo, é apenas um. Ele criou todas as coisas. A experiência para se chegar ao conhecimento do Todo-poderoso é alcançada através da meditação. Os Sikhs adotam o conceito hindu da samsara, karma e reencarnação. Ao nascer, o homem tem a oportunidade final de escapar da samsara.

TRADIÇÃO GUERREIRA
OS KHALSA E OS CINCO K’S
Os Sikhs são prontamente identificáveis por seus turbantes. Fazem votos para não cortar os cabelos e não fumar ou beber bebidas alcoólicas. Em 1699, Gobind Singh fundou uma fraternidade marcial chamada Khalsa (”puro”).
Os Khalsas são os Sikhs que realizaram a sagrada cerimônia de iniciação do Amrit, iniciada pelo Guru Gobind Singh, em 30 de março de 1699, com o batizado de cinco Sikhs.
Essa cerimônia consistiu numa grande prova de sacrifício para aqueles cinco guerreiros. Gobind Singh convocou os Sikhs e explicou que precisavam criar uma fraternidade de guerreiros cujo compromisso fosse ainda mais firme do que o dos sikhs em geral. Pediu que se apresentassem cinco voluntários dispostos a fazer qualquer sacrifício pelo povo Sikh.
Cinco guerreiros se apresentaram, e Gobind Singh chamou-os um a um para entrar em sua tenda, que estava iluminada por dentro, de modo que todos que estavam do lado de fora apenas viam as sombras projetadas na parede da tenda. O primeiro guerreiro se aproximou do Guru Gobind e, depois de ouvir rápidas palavras, ajoelhou-se e pousou sua cabeça sobre um pedestal. Então, o Guru sacou sua espada e decepou a cabeça do guerreiro. Todos estremeceram do lado de fora, pois não imaginaram que o sacrifício solicitado fosse a própria vida.
Gobind Singh saiu da tenda com a espada pingando sangue e chamou o segundo guerreiro, ressaltando novamente a necessidade de oferecer a própria vida em prol da causa. Os quatro voluntários se mantiveram fortes no seu ideal, e foram, um a um, entrando na tenda, onde a cena do primeiro se repetia.
Todos entenderam a mensagem do Guru e, depois disso, centenas de homens e mulheres se apresentaram como voluntários para dar a vida ao Guru. Porém, este pediu que os cinco guerreiros aparecessem, pois a decapitação fora apenas uma encenação para extrair de cada Sikh o que havia de mais puro no seu coração e o compromisso mais profundo possível. Centenas foram batizados pelo próprio Guru, adentrando na ordem Khalsa.
A Cerimônia de iniciação da ordem é tida como parte da evolução espiritual e se dá quando o iniciante está pronto para viver completamente as expectativas do Guru Gobind Singh. Espera-se que todos os Sikhs se tornem Khalsas ou que estejam trabalhando para alcançar esse objetivo.
A cerimônia de batismo Khalsa consiste em beber do Amrit (água açucarada oferecida em uma adaga), na presença de cinco Sikhs membros do Khalsa, assim como na presença do Guru.
Então o iniciado é requisitado a usar os símbolos físicos do Khalsa todo o tempo, assim como seguir sempre o código de conduta Khalsa.
Os Khalsas são líderes guerreiros e, em conjunto com o Guru Granth Sahib, conformam o núcleo do sikhismo pós-dinástico que dura até hoje.
Mais do que líderes políticos, os Khalsas são os patriarcas das famílias, as células do Estado. É de sua responsabilidade manter sua família na direção de Waheguru. Os Khalsa também são líderes guerreiros e desempenham o papel de generais e tropas de elite na sociedade Sikh.
O código de ética khalsa, em cujas diretrizes o guerreiro khalsa é instruído desde o seu batismo, consiste, resumidamente, nas seguintes regras:
• cultivar o Deus único e meditar diariamente em seu nome;
• adorar somente a Deus, e não confeccionar ídolos de deuses ou estátuas para adoração, nem adorar o ser humano;
• não acreditar em nenhum outro livro religioso a não ser o sagrado Guru Granth Sahib, ainda que seja permitido estudar qualquer livro religioso para adquirir conhecimento e para estudos comparativos;
• não acreditar em castas, intocabilidade ou mágica, amuletos, astrologia, rituais, cortes de cabelo cerimoniais, máscaras, túmulos e ritos tradicionais para aos mortos;
• respeito pelas pessoas de outras religiões;
• guardar seus símbolos e viver de acordo com os ensinamentos dos Gurus;
• não ter castas depois de agregados à irmandade e não seguir cerimoniais, ritos ou cultos não sikhs;
• nunca remover nenhum pêlo de qualquer parte de seu corpo;
• não usar álcool, tabaco ou qualquer outro intoxicante;
• não comer a carne de nenhum animal morto da forma muçulmana;
• não cometer adultério;
• não cometer ofensas sociais, como erigir monumentos em túmulos, ou se embebedar;
• contribuir com um décimo de sua renda para fins religiosos;
• servir à comunidade no que ela necessitar;
• praticar as armas e estar pronto para defender os fracos;
• aprender o Punjabi e ensinar as crianças a lê-lo, ainda que possa aprender tantas línguas quantas quiser;
• acrescentar Singh (Leão) depois de seu nome se homem, e Kaur se mulher;
• não furar suas orelhas ou narizes e nunca devem manter afinidade com aqueles que matam suas filhas;
• as mulheres Sikhs não usam véu;
• viver honestamente de seu trabalho e dar generosamente aos pobres;
• nunca roubar ou jogar;
• vestuário simples e modesto;
• saudar outro Khalsa dizendo: Waheguru Ji Ka Khalsa, Waheguru Ji Ki Fateh (O Khalsa pertence a Deus, a Vitória pertence a Deus);
• manter a palavra empenhada a qualquer preço.

Segundo essas diretrizes, os sikhs mantinham constantemente um grupo de fiéis zeladores do Estado, expoentes no domínio da doutrina Sikh e exemplos a serem seguidos, inspirando os mais jovens e honrando os mais velhos. Um grupo de elite pronto para qualquer eventualidade.
A doutrina nos cinco elementos aparece em várias tradições guerreiras, como os manípulos dos romanos representando os cinco dedos da mão, os manitous dos sioux igualmente representados pela mão, dentre outras. Dentre os Sikhs, ela aparece na forma dos cinco “K’s”, votos feitos pelo Khalsa tão logo era batizado, e símbolos que este deveria ostentar e seguir.
Esses símbolos (os K’s), que foram determinados pelo último Guru, Gobind Rai Singh, têm dois sentidos, um interno e outro externo:
1. kesh: o cabelo e barba longos. Externamente, servia para distinguir mais facilmente um Khalsa em meio à multidão. Internamente, era símbolo da resignação à vontade de Deus;
2. khanga: uma presilha consistente num pequeno pedaço de madeira para prender os cabelos. Externamente, permite que os cabelos não atrapalhem a visão em combate. Internamente, representa a pureza e a limpeza;
3. kora: um bracelete de aço usado no pulso direito, ajudando também na distinção dos khalsa entre a multidão, e representando a fé do seu portador como forma de lembrá-la sempre;
4. kocha: uma bermuda de soldado usada como roupa de baixo, que permite maior mobilidade aos soldados e simboliza o compromisso interno com o ideal Sikh;
5. kirpan: espada Sikh. Usada para a defesa dos fracos e necessitados e para a defesa do Estado Sikh. Internamente, representa a vontade e o compromisso do guerreiro Khalsa.

CERIMÔNIA PAHUL – O BATISMO PELA ESPADA

Na cerimônia Pahul, o Guru verte dentro de um grande cubo de água porções de cinco manjares especiais que sua própria esposa prepara e revolve energicamente a água com uma espada de duplo fio; unta com a mescla os cinco discípulos e depois a dá para beberem. Então, são proclamados Khalsa (puros) e lhes é ordenado agregar ao nome o epíteto de Singh (leão).
É-lhes ensinado que em qualquer lugar que os Sikhs se reúnam, o Espírito descerá sobre eles e poderão conferir essa Iniciação.
Para se tornar um khalsa o Sikh passa por essa cerimônia de Batismo pela Espada, cerimônia de iniciação que simboliza a implantação dos khalsa pelo Guru Gobind Rai Singh.
A cerimônia se dá com cinco membros do clã recitando orações e mantendo a espada de duplo fio (Khanda) dentro de um recipiente cheio da mescla antes mencionada, chamada Amrit (néctar). Depois de recitadas as orações, o Sikh que deseja ingressar no círculo bebe a água desse recipiente. Espera-se assim que ele entenda as responsabilidades de um khalsa Sikh. Os iniciados prometem manter uma vida de pureza, em concordância com os ensinamentos dos Gurus.
Os khalsa são tidos como guerreiros santos não só porque juraram seguir o caminho dos gurus, mas porque historicamente mantiveram presença na defesa de seus irmãos, famílias e Estado, defenderam sempre os indefesos e eles mesmos, usando a força se necessário.
Além da figura prática representada pelos khalsa, eles eram responsáveis pelas suas famílias, representavam tanto os gurus como o próprio Waheguru, mantinham a estrutura do estado unida em sua essência e sua identidade. Devido a esse poder gregário, os Sikhs mantinham a tradição da união, tão manifestada nas tribos guerreiras. Eles faziam tudo juntos, fosse nas famílias, fosse no Estado, realizavam seus ritos e cerimônias em conjunto, mantendo essa união que se expressava nas refeições coletivas que realizavam após o culto e leitura das escrituras dos gurus.

ESTADO SIKH

Gobind Rai Singh, o último Guru, foi general dos exércitos Sikhs e ainda que no princípio tenham obtido boas vitórias, reforços de tropas muçulmanas vindas do norte foram desgastando suas fileiras, que apesar de bravas eram pouco numerosas. Gobind Singh é assim derrotado e posto em fuga com o resto de seus exércitos. Porém, em manobra desesperada, logra reagrupar com velocidade incrível sua desorganizada tropa e vence surpreendentemente os muçulmanos na famosa batalha “Da Fonte da Salvação”.
No final de sua gloriosa vida, Gobind Singh publicou o último Livro Canônico, chamado O Livro do Décimo Rei, como complemento do Adi Grantha Saheb. Sua morte ocorrei numa passagem que a história recorda obscuramente e que parece ser mais mítica do que real, já que diz que Gobind, por haver matado um homem do povo que o ofendeu, cuidou de seus filhos, que já crescidos e a seu próprio pedido, vingaram seu pai, matando o próprio Gobind.
Com a sua morte, governaram os Khalsas, com um Conselho Central, os Mestres Mata, que se regiam pelos Livros Sagrados. Cabe destacar que O Livro do Décimo Rei havia abolido, de fato, as castas, como já pregava muito antes Guru Nanak.
Os sucessores de Gobind Raj Singh enfrentaram duras perseguições na região do Punjab, governada pelos muçulmanos. A tolerância desenvolveu-se gradualmente, quando os afegãos e persas invadiram a região e finalmente assumiram o poder. Em 1797, foi criado um Estado Sikh, por Raujit Singh, conhecido como o “Leão de Punjab”, que morreu em 1839.
Depois de sua morte, o Império Sikh afundou-se em luta praticamente contra todos. Resistiram ao protetorado inglês em duas guerras (1843-1846 e 1848-1849), mas os britânicos conquistaram-nos em 1849. Várias facções desenvolveram-se dentro do Sikhismo no século XIX. As relações com os ingleses eram consideravelmente melhores do que haviam sido com os dominadores muçulmanos, mas o massacre de civis em Amritsar em 1919 resultou no crescimento da amargura dos Sikhs contra seus “dominadores imperialistas”. Muitos deles uniram-se ao movimento de Mahatma Gandhi contra o domínio britânico.
Em 1947 ocorreram grandes mudanças culturais e demográficas, quando a Índia tornou-se independente. A terra foi repartida no que atualmente é o Paquistão, no norte e oeste e a Índia ao leste e sul. Devido ao confronto entre os grupos religiosos, 2,5 milhões de sikhs foram obrigados a abandonar o Paquistão e mudar-se para a Índia. Isso ocasionou mais violência, quando os muçulmanos, por sua vez, mudaram-se para o Paquistão. Os sikhs, por causa de seu crescimento, sempre desejaram constituir uma nação independente, o que gerou contínuas explosões de violência contra o governo, que culminou com o ataque do exército indiano, em junho de 1984, contra Harimandir, o santuário Sikh mais sagrado.
Em outubro do mesmo ano, a primeira ministra Indira Gandhi foi assassinada por dois de seus guarda-costas. Isso intensificou a tensão entre sikhs e hindus e precipitou mais violência. A tensão diminuiu em 1989, quando o primeiro ministro Rajiv Gandhi anunciou que todos os militantes sikhs presos depois do ataque de 1984 seriam soltos. Os sikhs ainda lutam pela formação de um estado independente.

DOUTRINA SIKH

A doutrina Sikh está profundamente ligada à formação de uma identidade tanto formal quanto ideológica de seu povo, tendo como meta gerar uma condição de defesa imediata a qualquer conflito iminente.
Internamente, o Sikhismo consiste na concepção de um único Deus anterior e criador de tudo e todo poderoso. Todas as coisas existentes partem desse espírito primeiro, que se denomina Waheguru. Tudo o que acontece no universo parte da vontade de Waheguru, e a existência de todas as coisas é o testemunho de sua própria existência.
Tudo que existe no universo tem duas partes: uma é a sua manifestação, seu corpo, e outra é a sua essência, o sopro que Waheguru inspira em tudo. Portanto, em essência, tudo e todos somos um só e esse ponto se encontra em Waheguru.
Externamente, o referencial da doutrina Sikh leva a uma forma muito prática de vida e ao desenvolvimento de uma unidade muito concreta e viva entre o povo, além de uma moral muito restrita, como se pode observar em quase todos os povos guerreiros.
O fato de Deus estar em todas as coisas leva os sikhs a se tornarem muito amáveis e bondosos, segundo os ensinamentos de seus Gurus. Os sikhs são incentivados a prestar auxilio a todo e qualquer ser necessitado e a fazer isso por amor a Waheguru, que se manifesta pelo ser necessitado.
Por esse mesmo fato, todo e qualquer ato que leve ao sofrimento de alguém é condenado pelos sikhs; o furto, o adultério e os meios ilícitos são estritamente proibidos e, durante toda a vida, desde a infância, um Sikh é encorajado a ganhar a vida de forma honesta, sendo merecedor de tudo aquilo que pode conquistar pela vontade de Deus.
Isso se observa nos relatos das vidas dos Gurus que, em batalha, curavam não só seus soldados, mas também seus inimigos. Demonstravam falta de interesse para com as pessoas com fraca disposição de caráter, que levavam uma vida sem honra e sem dignidade.
Também eram muito devotos e meditativos sendo absorvidos na contemplação e oração por várias horas do dia, recitando hinos legados pelos Gurus para sempre manter seu referencial e não se esquecerem do caminho a ser trilhado.
Por mais que os Sikhs fossem benevolentes, sempre foram um povo guerreiro e sempre tomaram as armas para defender sua religião, suas famílias e seus meios de vida. Os Sikhs nunca foram expansivos, mas tampouco foram coniventes com nações que buscassem subjugá-los.

FORMAÇÃO GUERREIRA

As crianças Sikhs eram educadas pelas palavras dos Gurus e pelo Guru Granth Sihib, seu livro sagrado. Desde tenra idade, participavam das funções do estado, realizando trabalhos menores, como manutenção de criações e pastoreio, gerando um compromisso com a sociedade e um senso de responsabilidade.
Conforme seu desenvolvimento, o infante assumia funções mais expressivas, sempre sendo educado a seguir os retos meios de vida pregados pela religião sikh, até ser intimamente ligado aos negócios da família. Durante sua formação pessoal, as lutas em arenas e a prática da guerra eram matérias obrigatórias a todos os jovens.
Já na idade adulta, aqueles que decidem seguir o caminho dos Gurus, podem se tornar khalsa, os guerreiros santos que assumem o lugar de corpo na dinastia dos Gurus.
A arte marcial praticada pelos Sikhs é chamada de Gakta, mesmo nome de um bastão usado para os treinamentos de lutas com espada. Esses treinamentos marciais são diários, começando já na infância. As crianças começam a aprender desenvolvendo a observação, através do acompanhamento das práticas ministradas pelo Guru. As demonstrações públicas dessas habilidades marciais também são freqüentes e começam já na infância.
Na educação Sikh referente aos valores guerreiros, desde cedo lhes é ensinada a importância da higiene, que se reflete no cuidado que dedicam aos cabelos, sempre limpos e arrumados de forma a não ficar um único fio solto. Essa também é uma forma de vivenciarem a impecabilidade do guerreiro, que deve estar presente em todo e cada um de seus atos, inclusive nas palavras que profere. Um Sikh tem sempre que manter a qualquer custo a palavra dada. Por isso, jamais proferem comentários negativos ou inúteis.

ARMAS MÁGICAS

O Sikhsmo é simbolizado pelo Khanda, no qual constam suas quatro armas mágicas: a espada de duplo fio, khanda, de onde o símbolo tira seu nome, que representa o conhecimento do divino e o poder criador de Deus; cercando o khanda está a Chakkar, uma arma circular medieval que simboliza a unidade de Deus; dos lados, estão duas adagas cruzadas, os kirpans, simbolizando os poderes temporais e atemporais.
Esse símbolo se encontra na entrada de todos os templos, Guradwaras, dos Sikhs.

ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO ESPIRITUAL SIKH

Os níveis de evolução espiritual dentro da tradição Sikh eram os seguintes:
1. Manmukh: uma pessoa que é egoísta e só pensa em si mesma e no mundo material que a cerca e está completamente apático a Deus;
2. Sikh: qualquer um que determina para si o caminho de aprendizado com o ponto de destino final especificado pelos Gurus, que aparece no Reht Maryada (código de conduta oficial);
3. Khalsa: total dedicação ao Sikhismo. Aquele que abdicou de sua personalidade para viver as verdades em honra da memória do Guru Gobind Singh através de suas ações e feitos;
4. Gurmukh: quem atingiu mukhti (salvação) e está totalmente centrado em Deus.

CONCLUSÃO

Através da sua vida simples, intimamente religiosa, de sua união conquistada pela devoção, fervor religioso e do sangue derramado em várias batalhas e ainda de uma conduta moral bem restrita, sem espaço para os ditames da personalidade, os Sikhs conquistaram seu lugar na história e desfrutam internamente de sua paz guerreira, conquistada diariamente na luta interior por seus ideais.
Esse povo guerreiro é mais um referencial e exemplo de coragem, força, perseverança, sacrifício e bondade para todos os povos e gerações.

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