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28 set 2008 A CULTURA MARCIAL

1. INTRODUÇÃO

A cultura marcial não é exclusividade de nenhuma religião, cultura ou civilização em particular. Sempre esteve presente tanto no ocidente quanto no oriente no caleidoscópio de diferentes momentos históricos. Suas digitais marcaram os guerreiros espartanos, romanos, tibetanos, índios norte e sul-americanos, celtas, pré-colombianos, assim como esteve presente no ideal dos samurais, tuaregs, maoris, etc.
A cultura é um conjunto de valores, de cultivo de experiências e crenças transmitidos de geração a geração que transcendem ao tempo das sociedades humanas. A civilização nada mais é do que a plasmação dessa cultura. Para a criação da civilização, é necessário dirigentes conscientes dessa tradição, dirigentes capazes de manter vivo o elo que os une por um lado à sabedoria e por outro ao coração do homem. O princípio do guerreiro iluminado ou dirigente consciente, capaz de ser esse elo, esteve presente no rei Artur, no Davi bíblico, em Ulisses, assim como em Leônidas, Alexandre o Grande e em milhares de outros.
Marcial (Marte, deus da guerra romano) se refere à guerra. Para um guerreiro, a guerra é inevitável e fundamental. Através dela o guerreiro tem acesso às portas de seu templo interior. Voa como um pássaro em direção ao trono da morte, tendo em uma das asas o medo e na outra a dor. A presença constante da morte dá ao guerreiro o verdadeiro sentido da vida e do amor. Numa ocasião, um rei capturou um inimigo e disse que o mataria, este contestou dizendo que perseguira o rei por toda a sua vida e que depois de morto causaria mais problemas ainda. O rei refletiu e disse: “Se realmente você for capaz de tal façanha, quando cortar-lhe o pescoço, você ainda será capaz de morder uma pedra”. O inimigo olhou as pedras que estavam no chão ao seu redor. O rei ordenou que o decapitassem. A cabeça rolou e mordeu uma pedra com um vigor assombroso. Todos que estavam ao redor se desesperaram temendo pela vida do rei. O rei os tranqüilizou dizendo que o último pensamento do inimigo foi morder uma pedra e não matá-lo. O rei disse que um dia um sábio lhe ensinou que o último pensamento é que importa, é o que nos projeta para o outro lado. De acordo a esse ensinamento tradicional devemos ter em conta que para termos um último pensamento digno e sábio devemos viver com dignidade e sabedoria. A vida é o treinamento para a morte. Para que o pânico não nos assalte no último momento devemos treinar por toda uma vida. Cada dia de vida é um preparo para a morte. Portanto, a condição da guerra é categórica para um guerreiro.
O problema é que quando se fala da guerra surgem preconceitos descabidos, acompanhados de alienações desmedidas. Sempre houve guerra entre os homens. Desde os tempos mais remotos da história até os momentos atuais. Parece ironia que quanto mais se clame pela paz mais guerras se vêem. Na realidade, a alienação de que as guerras não deveriam existir está mais presente neste ciclo histórico do que em outros. Por exemplo, ainda que pareça impactante, Ésquilo, o Pai da Tragédia, considerado como um dos homens mais espirituais e cultos da humanidade, teve a maior honra em ser um guerreiro e um homem de paz. Lutou nas batalhas de Maratona, Salamina e Platéia. No epitáfio de Ésquilo, confeccionado por ele mesmo, liam-se as palavras: “Este monumento cobre a Ésquilo, filho de Euforião, que nascido ateniense e morto nas fecundas ranhuras de Gela. O tão afamado bosque de Maratona e o medo da longa cavalaria dirão se fui valente. Bem, eles o viram!”
A guerra é natural e por isso obviamente é vista na natureza. O coração segue sua marcha pela oposição infinita que ele protagoniza. Os planetas, os satélites, lutam constantemente por seu espaço, ora atraindo ora repelindo. O próprio ser humano é agredido por uma série de micróbios que trata que adoeça ou morra. Os glóbulos brancos são os responsáveis por essa guerra que pode levar à saúde ou à morte. Há guerra numa partida de xadrez ou de tênis, tanto quanto nas relações humanas. Quando um cavalheiro quer conquistar uma dama, isso já não implica uma luta? Uma forma de guerra? Nas religiões, se encontram mestres espirituais que lidavam com a guerra de acordo ao necessário. Não foi Jesus quem lutou e tirou a chicotadas os publicanos que profanavam o templo? Também não foi Jesus que, na Galiléia, contra os fariseus, disse que quem não estivesse com ele estaria contra ele? Krishna não estava com Arjuna sobre um carro de guerra dando instruções sobre o campo de batalha e como vencer? Certamente trata-se de símbolos, mas o ambiente bélico pairava no ar. Maomé não conduziu grandes batalhas e invasões? Buda diz-nos que o Nirvana deve ser arrebatado, ou seja, tomado de assalto. A guerra e os combates não os desmerecem, não deixarão de ser seres espirituais condutores da humanidade. A guerra e o combate nesses casos estão inseridos dentro de um contexto maior . É como um mosaico, cujo desenho todo não se vê se não se toma a distância necessária. E não é porque não se vê o todo, pela proximidade das ranhuras do mosaico, que ele não tem um sentido. A própria história tem mais a ver com guerra do que com paz. A guerra é um fato. Por fazer parte do conhecimento, não pode ser omitida. O conhecimento leva a ver o que está para além do comum, assim como a pedra do rio toma formas incríveis pela luta constante com o rio, assim como o céu aparece com matizes de cores que nem nos sonhos são possíveis, devido à guerra das partículas em choque contra a luz solar. Assim, o verdadeiro conhecimento da guerra leva a conhecer o valor da paz.
Quando a Justiça, o Bem, ou quando os princípios de uma civilização estão em jogo, surge a necessidade da guerra. Um guerreiro não luta por qualquer motivo. Quando se luta, se luta com valor, coragem e outros códigos para que ninguém se torne assassino. A célebre frase das tradições para o uso da espada era: “Não me desembainhe por qualquer motivo. Não me guarde sem honra”. Também o conhecimento das tradições que diziam que num torneio eram os deuses que escolhiam o vencedor para ser exemplo para os demais, aquele que ganhasse era porque tinha uma virtude superior, demonstra que a verdadeira guerra é interior. Um guerreiro deve ser preparado para lutar contra suas próprias sombras e medos e que dentro de seu coração estava a verdadeira vitória. Sidharta Gautama dizia que “Maior do que aquele que venceu a mil homens em batalha é aquele que vence a si mesmo”. A luta é sempre contra nós mesmos. A verdadeira concepção do guerreiro não significa entrar em guerra com os outros. A agressividade originada de nossa ignorância é a origem de nossos problemas, não a solução.
O Bhagavad-Gita, tal como outras grandes epopéias, qual a Ilíada e a Odisséia de Homero, e todas as demais obras imortais, tem por objetivo revelar ao homem o verdadeiro sentido da vida. A virtude esteve sempre vinculada ao espírito da luta ou ao ideal sagrado da guerra. Só a virtude, com sua luz cintilante, pode iluminar os mais obscuros e recônditos rincões da personalidade. Se a luz vence, não há espaço para a escuridão, para os defeitos, limitações e impurezas. Por isso, os pré-colombianos, através do rito da “guerra florida” afirmavam: “Se vence a alma o corpo floresce”.
A paz que as pessoas reivindicam não passa de mentira, pois o preço que teria de se pagar para obtê-la implicaria a perda da honra, da dignidade e dos valores morais. Para prevalecer a justiça, o bem, a dignidade e a honra, se faz necessário que o indivíduo seja justo, digno, bondoso e honrado. Aí reside a guerra sagrada. A vida deve ser conquistada. A paz vem depois da guerra interior. A paz guerreira é a verdadeira paz para o guerreiro.
Como já foi visto, a cultura marcial se manifestou em diferentes povos, lugares e épocas. Essencialmente falam dos mesmos valores, códigos de honra, virtudes e de uma sabedoria capaz de resolver os problemas do mundo. No entanto, as nuances e as diferenças são tão ricas e impressionantes que facilmente aqueceriam o coração de qualquer guerreiro.
Algo do que será relatado parecerá forte e agressivo. Na realidade, é perfeitamente compreensível desde que esteja no contexto correto. Mesmo assim, para além do contexto, certas realidades só podem ser concebidas por quem tem natureza de guerreiro. Quem não o é, não deve se atrever a querer viver sequer um segundo como tal. Um lobo não deve querer ser uma águia, assim como uma ovelha não deve querer ser uma raposa. Cada um tem sua natureza própria. Um lobo não entenderia a realidade da águia, assim como uma ovelha não compreenderia as necessidades da raposa. A cultura marcial cria ressonância no interior de todo aquele que tem natureza guerreira. Ainda assim, é somente uma etapa dentro das esferas do conhecimento. A cultura marcial é prévia à filosofia das artes marciais, que por sua vez precede à magia marcial. A cultura marcial está relacionada com os códigos de honra, comportamentos, virtudes, etc. A filosofia das artes marciais está mais além e diz respeito à depuração dos conceitos. Para um guerreiro, a cultura marcial é o primeiro degrau dessa fantástica escada de luz que leva ao seio de Deus.
A alma do guerreiro é como a flor de cerejeira, que se abre para dar seu perfume antes de desfalecer por completo, sem medir o valor disso. Simplesmente se dá. Da mesma forma, este trabalho está sendo feito sem grandes pretensões nem pequenas, simplesmente está. Descobriremos assim, iluminado pelos mestres e pela alma, até onde esse perfume nos levará.

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28 set 2008 2. TIBET

2. TIBET

2.1. A Tradição
Pouco se sabe sobre a cultura marcial do Tibet, sua cultura e sociedade se viram afastadas do mundo criando uma fronteira misteriosa e singular. Ainda assim, sua tradição está viva e presente com os Khampas tibetanos, estirpe nômade guerreira, valente e corajosa.
Os Khampas foram os primeiros a descobrir as reais intensões da China- a extirpação dos tibetanos e cultura. Lutaram sempre na primeira linha e defendido seu país incontáveis vezes.
Seguem em alguns aspectos características similares as dos espartanos. Treinam muitas horas por dia e cuidam da aparência antes das batalhas com o mesmo propósito dos espartanos e tem um orgulho próprio muito distinto. Sua cultura marcial vem de um tempo muito distante. Herdeiros de uma tradição de sábios “Kham”que significa:grisalho, cabelo cinza (representando o sábio), transmitem oralmente à seus filhos histórias guerreiras, façanhas do rei Gesar de Ling e ensinam sobre sua origem ancestral, definindo a coragem como plataforma dessa tradição e o vencer a si mesmo como ápice do poder humano.
Na tradição guerreira do Tibet, encontram-se textos que fazem menção às origens da sociedade humana e à distinção singular demarcada entre o guerreiro e o covarde. No texto que segue, tem-se um exemplo claro:

A partir do grande espelho cósmico
Sem início e sem fim,
Tornou-se manifesta a sociedade humana.
Naquele momento nasceram a liberação e a confusão.
Quando ocorreram o temor e a dúvida
Perante a confiança, que é primordialmente livre,
Ergueram-se multidões de incontáveis covardes.
Quando a confiança, que é primordialmente livre,
Se fez seguir e assim trouxe o deleite,
Ergueram-se multidões de incontáveis guerreiros.
A multidão de incontáveis covardes
Ocultou-se em cavernas e selvas.
Mataram irmãos e irmãs e comeram sua carne,
Seguiram o exemplo das bestas,
Provocaram o terror entre si;
Tiraram assim sua própria vida,
Acenderam a grande fogueira do ódio,
Agitaram sem cessar o rio da luxúria,
Rolaram na lama da indolência:
Nasceu a era da fome e da praga.

Dentre aqueles que se consagraram à confiança primordial
— As múltiplas hostes de guerreiros —
Alguns foram às montanhas
E ali ergueram belos castelos de cristal.
Alguns foram às terras de belos lagos e de belas ilhas
E ali ergueram palácios encantadores.
E ali semearam o arroz, cevada e trigo.
Sempre livres de conflito,
Sempre amáveis e generosos,
Com sua condição insondável, que existe por si mesma, sem receber estímulo
Foram sempre devotados ao Rigden Imperial.

O espelho cósmico se refere a um espaço aberto, vasto e incondicional. É um universo eterno, sem começo nem fim. Sobrepassa os pensamentos e dentro desse universo não há espaço nem para a dúvida nem para a ignorância. Ele dá a visão do Todo, da Unidade incondicional. Ao mesmo tempo que é o círculo é o ponto central. É da vivência do reino do espelho cósmico na sua forma mais profunda que surge a sabedoria. A humanidade surge Dele e a Ele retornará. Na humanidade, portanto, desde o seu princípio, surgiram hostes de guerreiros e uma tradição secular de conhecimento capaz de fazer com que o homem dominasse suas imperfeições e limitações.
Mas para entender essas concepções e sua profundidade de pensamento devem-se analisar primeiramente as origens da tradição tibetana.

O Tibet sempre esteve associado ao mistério, ao desconhecido, a altíssimas montanhas brancas permeadas por homens sábios e santos. Dificilmente se imagina que o Tibet nasceu de uma estirpe de guerreiros, que defenderam suas terras de inúmeras invasões em batalhas sangrentas. Ainda nos dias de hoje se encontram grupos de guerreiros conhecidos como Khampas, equivalentes aos Gurkas do Nepal.
Alguns dizem que são descendentes dos Qiang, um grupo de tribos nômades guerreiras, registradas pelos chineses desde o Século II a.C. Outros afirmam que a origem da formação do Tibet vem de tempos muito mais antigos. De qualquer forma todos concordam que sua formação foi guerreira.
Um dos maiores guerreiros do Tibet, que inspirou guerreiros por muitos séculos com suas façanhas e seu alto grau de sabedoria, foi o Rei Gesar de Ling. Gesar é o Rei benevolente, equivalente ao Caesar latino, Kaiser alemão, e também para a palavra russa “rei”, Tzar.
Ling se refere ao reino provincial de Ling, situado na província de Kham, no leste do Tibet. O significado literal de Ling é “cintilante”, guardando talvez uma conotação mais simbólica do que somente de um local físico propriamente.
Viveu aproximadamente no século XI. Seus feitos como guerreiro e governante foram tão impressionantes que, findo seu reinado, lendas e relatos sobre seus feitos despontaram por todo o Tibet e acabaram se tornando a principal epopéia da literatura tibetana. Gesar venceu a barbárie e a ignorância valendo-se dos princípios tradicionais do Tigre, do Leão, do Garuda e do Dragão (Tak, Seng, Khyung, Druk), quatro animais conhecidos com símbolos similares na China, Japão, India e Koréia. Algumas lendas afirmam que Gesar de Ling e todo o seu exército estão vivos e que um dia retornarão de Shambhala para vencer as forças do mal.
A canção do Rei Gesar é o poema épico mais extenso do mundo. Contém mais de 120 volumes com mais de um milhão de versos. Dito de outra forma, é a obra mais extensa dentre os cinco épicos mais longos da história, a saber: O Gilgamesh, da Babilônia; Ilíada e Odisséia, da antiga Grécia; O Ramayana e o Mahabharata, duas das antigas epopéias da antiga Índia.
Os ensinamentos foram transmitidos de geração a geração sob a forma oral, tendo sido escritos muito tempo depois. Acredita-se também que para além do Gesar de Ling mítico, surgiram muitos outros que encarnaram os mesmos princípios, se estendendo pelo tempo, formando conseqüentemente um conhecimento fantástico, a explicar a magnitude da epopéia desse Rei.
Muitos tibetanos acreditam que o rei Gesar de Ling foi inspirado e guiado pelos Rigden e pela sabedoria shambaliana.
Tanto no Tibet, como em muitas outras regiões da Ásia, circulam histórias sobre um reino lendário que foi fonte de conhecimento e cultura para as atuais sociedades asiáticas. Esse lugar de paz e prosperidade, perfeito e ideal, era governado por homens sábios. Shambhala é o equivalente a Avalon, Camelot, Acrópole, Shangrilá, etc.
As lendas nos contam que Sidharta Gautama, o Buda, transmitiu ensinamentos avançados a Dawa Sangpo, o primeiro rei de Shambhala. Acredita-se que esse reino continua a existir, oculto num vale remoto em algum lugar do Himalaia. De acordo com as descrições de Mipham, célebre budista do século XIX, na montanha de Kailasa. O palácio dos Rigden — a palavra tibetana Rigden significa literalmente “detentor da sabedoria” —, os soberanos imperiais de Shambhala, ergue-se no topo da montanha de Kailasa. No centro do parque do palácio ergue-se um templo majestoso construído por Dawa Sangpo.
Outras lendas relatam que o reino de Shambhala desapareceu da terra há muitos séculos. Num dado momento, a sociedade como um todo havia alcançado a iluminação, e o reino desvaneceu-se numa esfera ainda mais celestial. Diz-se que ainda continuam velando pelos humanos e que um dia retornarão para salvar a humanidade da destruição.
Muitos sábios consideram Shambhala não como um reino externo, físico, mas como uma realidade interior repleta de poderes latentes, vêem-no como o ponto mais alto da consciência humana.
Para além de Shambhala representar um fato ou uma ficção, ela representa o ideal da sociedade humana. Muitos tibetanos acreditam que o rei Gesar de Ling foi inspirado e guiado pelos Rigden e pela sabedoria shambhaliana.
A visão do guerreiro tibetano é profunda e sólida. Ultrapassa as fronteiras do egoísmo e do medo, apontando para a atitude iluminada que existe potencialmente no interior de todo ser humano.

2.2. O CORAÇÃO DO GUERREIRO

Para o guerreiro tibetano, a condição de guerreiro não significa entrar em guerra com os outros. A palavra “guerreiro” traduz o tibetano “pawo”, que significa literalmente “aquele que é corajoso”. Nesse contexto, o espírito guerreiro é a tradição da coragem humana, ou tradição do destemor.
Coragem, em última instância, é não ter medo de ser quem somos, não ter medo de si mesmo. Ante os problemas do mundo um guerreiro pode ser heróico e amável. Quando se tem medo do mundo automaticamente se torna egoísta e inseguro. Busca-se viver isolado e se promove, ainda que inconscientemente, a separatividade e a covardia.
Dentro do princípio da coragem, deve-se pensar que se um guerreiro não ajudar o mundo ninguém o fará. Na realidade, antes de começar com o amigo ou com a família, deve começar por si mesmo. Confúcio já dizia que para governarmos o mundo, deveríamos primeiramente, governar a nós mesmos.
O guerreiro deve vislumbrar dentro de si a bondade fundamental e esta se inicia com a valorização de experiências muito simples. Refere-se ao que há de intrinsecamente bom em estarmos vivos. Constantemente temos vislumbres de bondade, mas pelo desejo não chegamos a reconhecê-lo. Quando vemos um pôr-do-sol, a dança de uma fogueira, o sorriso de uma criança ou quando temos a sensação de frescor ao sair de um quarto abafado, estamos testemunhando a nossa própria bondade fundamental. Esses acontecimentos podem durar segundos, mas são experiências reais de bondade, em que se pode experimentar a não-agressividade, conhecida em algumas artes marciais como a não-violência. É a bondade que constitui a base de nossas vidas, não a violência.
O mundo é bom, assim como nós. A bondade no guerreiro não é arbitrária.
A técnica para vislumbrar a bondade fundamental é a concentração. Para compreendê-la plenamente é preciso receber orientação direta e individualizada. Devemos concentrar até que a que a mente e o corpo possam se sincronizar.
No dia-a-dia, o guerreiro também deve estar atento à sua postura, à posição da cabeça, dos ombros, ao modo de andar, a forma de respirar, de fato pode-se reconhecer um guerreiro só pela sua maneira de andar, de olhar as pessoas. Para uma pessoa comum, tudo é comum. Para um guerreiro tudo tem uma razão de ser, nada é comum, tudo é especia
A bondade fundamental, ou a não-violência está estreitamente vinculada à idéia de “bodhicitta” na tradição budista. Bodhi significa “desperto” ou “ alerta” e citta quer dizer “ coração”; portanto, é o “coração desperto”. Não admira que o guerreiro — “aquele que é corojoso” — guarde relação com o coração, pois coragem é “agir com o coração”.
Um guerreiro não deve ter uma postura curva, pois assim estará escondendo seu coração, dobrando-se sobre si mesmo.
Sente-se uma tristeza, não de forma negativa, mas uma tristeza que guarda mais relação com a sensibilidade que se tem do mundo. Ela acontece porque nosso coração está absolutamente exposto. Para um guerreiro, é a experiência do coração triste e terno que dá origem ao destemor, à coragem… O verdadeiro destemor é produto da ternura e sobrevém quando deixamos o mundo roçar nosso coração.
Só se conhece o destemor rompendo o medo. A essência da covardia está em não reconhecer a realidade fulgurante do medo.
Uma das formas do medo está relacionada com a ansiedade e a agitação, como quando se rói a unha ou se coloca a mão no bolso sem necessidade, quando se entra em casa e liga a televisão ou o rádio para ter a sensação de que se está acompanhado, quando se toma tranqüilizantes ou se faz de tudo para afastar qualquer pensamento relacionado à morte. O covarde faz isso, evita o contato com seu silêncio interior, em contrapartida se casa com a tormenta da vida exterior.
Medo todos têm, só não tem quem não nasceu ou quem já morreu. O medo é a outra face da morte. Só se pode enfrentar o medo da morte depois de se aprender a enfrentar o medo da vida. Aquele que enfrenta seus medos, a vida o brinda com o destemor. O verdadeiro destemor não consiste em diminuir o medo, mas em ultrapassá-lo. O destemor é o que está para além do medo. É um estado de consciência que, ao mesmo tempo em que está vazio, está pleno. Para se atingir o destemor, é também necessário sincronizar a mente e o corpo.
A dúvida nasce sempre que a mente e o corpo não estão sincronizados. Quando corpo e mente estão perfeitamente sincronizados, as percepções são nítidas e sentimo-nos livres da dúvida, das vacilações que caracterizam a ansiedade e que tornam nosso comportamento inteiramente impreciso. A sincronização não é aleatória. Corpo, mente e percepções devem estar perfeitamente alinhados para a perfeita desenvoltura do guerreiro.
Os guerreiros kampas acreditam que o sol representa a dignidade humana, o poder humano. É o sol nascente, representando assim a aurora, o nascimento da condição guerreira. O alvorecer do Sol do Grande Leste (Sarchen Nyima) é o resultado da sincronização entre mente e corpo.
A visão do Sol do Grande Leste nos dá o sentimento de plenitude, de luz e de pureza, de um natural esplendor e brilho que se encontra no mundo. O sol da dignidade humana é comparável ao sol físico que atravessa a escuridão. Quando há um sol brilhante, não há espaço para a escuridão. Essa tradição é encontrada não somente no Tibet, mas também no Egito. Os egípcios moravam e tinham suas atividades do lado onde o sol nascia (leste) e enterravam seus mortos onde se punha (oeste).

O Sol do Grande Leste guarda relação com o mundo ideal, arquetípico, perfeito, do qual o guerreiro pode em certa medida partilhar e vivenciar neste mundo.
Em oposição ao Sol do Grande Leste, encontramos a Energia do Sol Poente. Tal qual em outras tradições, representa a escuridão e a covardia. O sol poente também representa a mecanicidade e o automatismo que afetam o ser humano.
No Tibet, o guerreiro que presencia a visão do Sol do Grande Leste, vive um grau de descondicionamento e soltura inimagináveis. Essa energia autogerável chama-se “cavalo de vento”. O vento representa a irradiação do imenso poder da bondade na vida do guerreiro. Poder que pode ser cavalgado, esse é o princípio do “cavalo”. Em certo sentido, o cavalo nunca chega a ser domado, a bondade nunca se torna propriedade pessoal. No entanto, a energia elevada da bondade pode ser invocada e provocada. Nos templos tibetanos, vêem-se bandeirolas flamejantes ao vento, essas bandeiras flamejantes representam o cavalo de vento. As bandeiras são agitadas pelos ventos da bondade, ou do dragão, como diriam os chineses. O guerreiro deve ser capaz de presenciar o cavalo de vento dentro de si e projetar esse estado anímico de energia superior para todos os demais.
Sempre se viu o guerreiro como sendo alguém forte e com muita energia. Essa energia, proveniente do cavalo de vento, confere confiança incondicional ao guerreiro. A palavra tibetana para confiança é ziji. Zi significa “brilho” ou “cintilação” e ji quer dizer “esplendor” ou “dignidade”, às vezes tendo também o sentido de “monolítico”. Ziji, assim, expressa a irradiação, o regozijo da dignidade.

2.3. O MUNDO SAGRADO DO GUERREIRO

A valorização do sagrado começa de um modo muito simples, com o interesse por todos os detalhes da vida. É ter consciência de tudo o que ocorre em nossa vida diária. Para uma pessoa comum, o ato de tomar café, a forma como se levanta da cama, como pega num simples copo d’água é trivial. Para um guerreiro cada instante e cada detalhe conta. O simples ato de sentar-se, que para uma pessoa comum nada significa, para um guerreiro é um limiar entre o profano e o sagrado. O guerreiro torna esse mundo especial porque sua consciência está no agora, no presente.

As percepções com que o agora brindam o guerreiro são mais profundas que o comum. Para além da percepção comum há o supersom, o supercheiro e a supersensação, existentes em nosso ser. Quando captamos a numa única percepção, o poder e a profundidade da grandeza, descobrimos que estamos invocando a magia. Em tibetano, essa qualidade mágica da existência, essa sabedoria natural chama-se drala. Dra significa “inimigo”ou “adversário” e la significa “acima”. Literalmente, portanto, drala significa “acima do inimigo”, “para além do inimigo”.
O drala (magia) é o ponto de contato entre a ordem do mundo externo e a ordem do mundo interno. Portanto, um dos pontos-chave para a descoberta do princípio de drala é perceber que nossa própria sabedoria como seres humanos não existe em separado do poder das coisas tais como elas são. Não há nenhuma separação ou dualidade entre nós e o mundo. Quando vivenciamos essas duas coisas como uma só, temos acesso a um poder imenso. Isso é a descoberta da magia.
Para “atrair”o drala, há que gerar as condições propícias.
A primeira delas é invocar o drala externo, isto é, invocar a magia em nosso ambiente físico. O modo como organizamos e cuidamos do nosso espaço é muito importante. Se é caótico e sujo, nenhum drala entrará ali. Para um guerreiro, invocar o drala externo significa criar harmonia em seu ambiente, para assim estimular a consciência e a atenção ao detalhe. Desse modo, o ambiente físico promove a disciplina da condição guerreira.
A idéia de espaço sagrado foi cultuada por inúmeras civilizações, desde os egípcios, romanos, gregos, aos índios, tuaregs e celtas. A própria catedral gótica é um exemplo de espaço sagrado. Numa catedral há algo que vai além da perfeição arquitetônica, há um brilho especial, pode-se sentir a magia que sua atmosfera particular irradia.
O drala interno está relacionado com a magia do nosso corpo. Vivenciar o drala interno significa sentir a unidade de nosso próprio corpo. Invocamos o drala interno através do relacionamento com nossos hábitos pessoais, da nossa maneira de cuidar dos detalhes, no vestir, no comer, no beber, no dormir. O drala interno se manifesta quando nos vestimos adequadamente para cada ambiente, sem automatismo ou mecanicidade. Também em nossa alimentação, no uso de nossa boca, para calar ou para falar. Tudo reflete um sentimento e uma conexão ou desconexão com o mundo. O drala secreto é o resultado da invocação dos princípios dos dralas externo e interno. Existem barreiras que devem ser superadas para dominar a fundo a invocação dos dralas. A arrogância e a vaidade cortam o elo com os dralas. Se considerarmos que o poder é nosso e que a realização é pessoal, estaremos errando o alvo. Quando não impera a amabilidade e a humildade, os dralas são repelidos.
Outro obstáculo são as tendências habituais. As tendências habituais são instintivas e promovem mais o animal no homem do que o ser-humano propriamente.
A palavra tibetana para “animal” é tudro. Tu significa “encurvado”, dro significa “andar”. Os tudros são quadrúpedes que andam encurvados. Fisicamente, aquele que vive dominado pelas tendências habituais, anda como um animal, encurvado e olhando para baixo, nunca para cima, não vê o sol nem as estrelas, não sonha e não permite que outros sonhem. É preguiçoso e tem um nível de inércia petrificante.
O mundo para o guerreiro é de caráter sagrado. Tudo no universo é potencialmente sagrado. A vivência do mundo sagrado nos denuncia como estamos entrelaçados com a riqueza e o brilho do mundo fenomenal. Somos parte natural desse mundo, o que implica numa hierarquia ou ordem natural. Nas filosofias milenares da China e do Japão, os três princípios do céu, da terra e do homem expressavam a concepção de como a vida humana e a sociedade podem se integrar à ordem do mundo natural. Esses princípios baseiam-se numa antiga compreensão da hierarquia natural.
Os princípios do céu, da terra e do homem são de grande ajuda para descrever de que maneira o guerreiro deve assumir seu lugar no mundo sagrado. O céu é tradicionalmente o reino dos deuses, o mais sagrado dos espaços. O céu representa simbolicamente qualquer ideal elevado. Inspira a grandeza e a criatividade humana. No I-Ching vemos o hexagrama Chien relacionado com a idéia de criativo, céu, luminosidade. A terra, por sua vez, simboliza a receptividade. É o solo que sustenta e promove a vida. O ponto de união e de potencialização do poder universal está representado pelo homem. Quando os seres humanos combinam a liberdade do céu com a praticidade da terra, podem viver juntos numa boa sociedade humana. Quando os seres humanos violam sua relação com o céu e a terra ou deixam de confiar neles, o resultado será o caos social e as catástrofes naturais.
Em chinês, o ideograma que designa o governante ou rei é uma linha vertical unindo três linhas horizontais, que representam o céu, a terra e o homem. Isso demonstra que o rei detém o poder de unir o céu e a terra numa boa sociedade humana.
O Homem tem um corpo de ouro por natureza, um corpo sagrado que não deve ser profanado. No Tibet, a visão dos três mundos (céu, terra e homem), expressada no corpo humano, é conhecida pelos nomes: lha, nyen e lu.
Literalmente, lha significa “divino” ou “deus”, refere-se aos pontos mais elevados da terra. É o ponto mais alto, o primeiro a captar a luz do sol nascente.
Psicologicamente representa o estar desperto, a atenção desperta. No plano corporal, lha é a cabeça, especialmente os olhos e a testa.
Nyen significa literalmente “amigo”. Nyen começa nas altas encostas das montanhas e compreende as florestas, as matas e as planícies. Na tradição dos samurais japoneses, as ombreiras engomadas do uniforme de guerreiro representam o princípio de nyen. Na tradição ocidental, as ombreiras acentuadas representam o mesmo papel. Psicologicamente está associado à solidez. Relaciona-se com a valentia e a galhardia do ser humano. No corpo humano está representado pelo ombro, peito e a caixa torácica.
Lu, por fim, significa literalmente “ser aquático”. É o reino da água, dos oceanos e grandes lagos. Lu tem o caráter de uma jóia líquida. No aspecto psicológico, a vivência de lu assemelha-se a um mergulho num lago dourado. Lu é o frescor da luz dourada do sol que se reflete num lago profundo. Em nosso corpo, lu são as pernas e os pés: tudo o que está abaixo da cintura.
Viver de acordo com a hierarquia natural não significa seguir um conjunto de regras rígidas nem estruturar os dias em função de mandamentos ou códigos de comportamentos caducos. A ordem dá equilíbrio e unidade ao conjunto. Os braços têm seu lugar, a cabeça deve estar sobre os ombros e o pescoço, as pernas têm seu lugar, e assim por diante. Essa lógica aparentemente infantil guarda um grande segredo da natureza. As coisas têm poder quando estão devidamente no lugar que a natureza lhes outorgou estar. As pernas no lugar da cabeça, ou os pés no lugar do peito não seriam só ridículos mas perderiam seu potencial. Cada coisa no seu lugar abre caminho para a força do cavalo de vento se manifestar.
De acordo aos princípios do lha, nyen, lu e da hierarquia natural, um guerreiro precisa estar com a cabeça alta, coluna ereta, ombros relaxados, peito aberto, andar possante e suavemente, respirar os problemas e olhar com a bondade e a força daquele que detém a vida e a morte em seu poder.
Para fazer a viagem da condição guerreira e presencializar esse poder é preciso ter um guia, um mestre guerreiro que ensine o caminho. Só é possível renunciar ao egoísmo quando se tem um exemplo vivo, um exemplo humano, alguém que já o tenha conseguido e portanto nos possibilite fazer o mesmo.
A cultura marcial do Tibet demonstra que não se trata de teoria, é uma trilha de coração que pode ser vivida pelo guerreiro de forma prática. Para ser guerreiro, requer-se uma disciplina impecável e uma convicção a toda prova.
Talvez a maior viagem que um guerreiro possa aprender a fazer, a trilha mais longa e tortuosa, esteja dentro de si mesmo. Uma viagem de aproximadamente trinta centímetros. Uma viagem do cérebro ao coração.

28 set 2008 3. MAORI

3. MAORI
3.1. História
Acreditasse que os maoris pertenciam à raça polinésia; oriundos das ilhas Cook, haviam alcançado a atual Nova Zelândia em várias levas, provavelmente nos séculos XIII e XIV. As tradições do povo maori fazem parte integrante da cultura do mundo neozelandês. Antes da infiltração dos brancos, os maoris viviam em núcleos comunais, cercados de fortificações e construídos, tanto quanto possível, em posições inexpugnáveis. Cada aldeia tinha o seu chefe. Cada comunidade tinha o seu tohunga, ou Grande Padre, a sua escola para instrução oral dos jovens e a sua sede de reuniões. As casas, as canoas, os instrumentos e as armas eram esculpidos com ornatos elaborados. Os maoris de alta linhagem tatuavam o rosto e o corpo com desenhos baseados nos símbolos fálicos esculpidos nos objetos. A guerra era expressão da vida, os cerimoniais tinham parte importante na vida de todos os dias. As armas e instrumentos eram feitas de osso, pedra ou madeira, com exceção dos mais valiosos, que eram talhados na rocha verde extremamente dura da Nova Zelândia.
Falam de que os Maori surgiram da batalha entre o Céu e a Terra e sendo eles filhos desses dois Deuses têm em si as características de ambos.
Na guerra, a sua coragem e força só eram igualadas e talvez excedidas pelo seu cavalheirismo. Corre uma série de histórias a esse respeito. Diz-se, por exemplo, que os maoris mandavam comida e munições para os brancos sitiados, a fim de que esses pudessem lutar em iguadade de condições. Conta-se também que os maoris avisavam ao inimigo que estavam se aproximando e falavam em voz alta para baixarem as cabeças pois iriam atirar.

3.2. A TRADIÇÃO- Kaupapa

Dentro das tribos a sociedade dava muita importância à sua tradição, Kaupapa em sua língua, e a estrutura do estado e tudo que gravita ao seu redor está profundamente ligada ao Kaupapa. A estrutura política dos Maori se dava pelo Mana, que poderia ser traduzido como autoridade, controle, influência, ou em uma palavra prestígio.
Para eles existiam três diferentes tipos de Mana, um adquirido ou seja, que já se nasce com ele, e representa sua estrutura física, sua família, sua saúde etc; um Mana próprio, que é aquele que as pessoas te dão por mérito e que pode ser conquistado e aumentado em vida; e um Mana grupal que te caracteriza pelo grupo que participa, a tribo o estado, etc.
O Mana não é algo somente agregado, ele deve ser mantido depois de conquistado às custas de esforço e de um comportamento digno da posição ocupada. Por serem uma tribo guerreira, os méritos sempre eram exaltados assim como todas as transgressões e os maus exemplos eram severamente punidos para não deixar máculas no estado. Deste ponto fica claro que toda a tradição Maori, assim como toda a tradição guerreira, traz consigo uma moral muito estrita que se vê bem presente em todos os ramos da sociedade.

3.3. A MORAL COMO BASE DO ESTADO - Mana

Devido à tradição Maori ser completamente verbal, a palavra tem um valor muito significativo dentro do estado sendo a via moral de conciliar as palavras com os atos uma prática natural e enraizada em todos os ramos da sociedade tendo as mais severas punições para aqueles que quebravam com sua palavra. Essa mentalidade, que era completamente colocada em prática, era fundamental para a educação dos jovens já que, quando se age moralmente seu Mana cresce e quando se age sem os princípios da moral seu Mana lhe é retirado maculando não só a própria pessoa mas todos os seus ancestrais, pelo Kaupapa da família, e toda a sua tribo pelo Mana grupal.

3.4. ESTRUTURA DO ESTADO

A estrutura das tribos Maori se centrava em três edifícios principais:

O Marae, ou Te – Maraenui – atta – o – Tumataenga que significa a Grande casa do Deus Tumataenga, que era o Deus da guerra, era o edifício político por excelência, lá se reuniam somente os homens para resolverem assuntos pertinentes aos indivíduos o à própria tribo, era a casa do julgamento onde sobre os olhos de seu Deus patriarca os Maori resolviam as disputas pessoais e onde os assuntos eram debatidos, toda cerimônia de importância comum também tinha cabida no Marae.
O Whare Hui, era a casa de encontro, onde os habitantes da tribo se encontravam informalmente e era de livre acesso a todos, lá se discutiam os trabalhos cotidianos, eram realizados os ofícios e as artes, no Whare Hui, eram celebradas as cerimônias aos Deuses tutelares e onde a educação dos jovens era ministrada em sua maior parte.
O Whare Kai, era o refeitório onde todas as refeições eram servidas e todos participavam em conjunto, no Whare Kai não se compartilhava apenas o alimento físico, esse era apenas um símbolo para o compartilhamento do alimento espiritual, essa mentalidade de união dos Whare Kai, se estendia por toda a tribo e tinha por objetivo gerar uma mentalidade de família entre os membros de tribo e um sentimento de identidade o que tornava essa união algo natural

3.4. A FAMILIA COMO BASE FUNCIONAL DO ESTADO

Dentro das tribos, onde a mentalidade de união era trabalhada desde o berço, a família exercia um papel de fundamental importância, a hierarquia do estado, que era muito bem definida pelo Mana e pela moral dos Maori, se estendia para as famílias, sendo estas a instituição estatal por excelência. O patriarca da família exercia o papel de ancião e conduzia a família inteira de acordo com as decisões tomadas no Marae. Os anciões da tribo, que mantinham em suas pessoas a liderança dos assuntos da tribo, tinha a sua extensão nas famílias e essa estrutura coesa e firme permitiu que a tradição Maori perdurasse durante muito tempo.
Para eles, a Kaupapa da família em si já era muito importante e podemos observar isso nos ritos funerários, os Tangihanga, onde enquanto o recém falecido era enterrado, sua família exaltava seus feitos em vida trazendo a tona seu Mana, e reafirmando os laços familiares daqueles presentes. Para eles a morte era algo natural e como os ciclos, a vida dá lugar à morte e essa à vida mas era ao Mana que os cantos, monumentos e ritos eram celebrados.

3.5. FORMAÇÃO MAORI - Kapa – Haka

A formação Maori, Kapa – Haka, começava desde o berço em forma de brincadeiras e jogos simbólicos que tinham como o objetivo desenvolver a agilidade, flexibilidade, coragem e destreza nas crianças. Numa idade avançada, o exemplo era o grande professor à medida que os estudos dos ofícios e das artes eram-lhes paulatinamente introduzidos e sua participação na tribo se fazia mais presente. As Artes faziam parte integrante da vida dos Maori e estavam presentes em ritos e cerimônias sendo a música e a dança realizada por todos e também eram muito bons na arte da escultura e da pintura que se apresentava principalmente com as tatuagens que representavam seus feitos em vida, uma imagem de seu Mana.
A maturidade deveria ser conquistada e não simplesmente atingida tendo o jovem que passar por provas de iniciação para conquistar seus direitos e estes eram simbolizados por tatuagens específicas nos corpo dos adultos.

Na formação guerreira maori o culto aos antepassados é fundamental. Contam os maoris:

“Antigamente a terra sentia um grande vazio.
Ela esperava ser povoada por alguém que a amasse.
Esperava por um líder.
E ele veio montado numa baleia.
Um homem que lideraria um novo povo.
Nosso ancestral, Paikea.”

Os maoris consideram seus líderes atuais, os que são capazes de tirar o povo da escuridão, descendentes de Paikea. Paikeia é o primeiro que ouve o choro dos homens. Vem de Hawaiki, onde vivem os ancestrais. A lenda conta-nos que Paikea vinha em uma canoa e esta afundou, pediu força para os ancestrais e com essa “força”, encantou uma baleia. Montou nela, e veio até o nosso mundo liderar os homens. Chegou em um local chamado Whangara e começou a civilizar a humanidade. Por isso Paikea é também conhecido como o domador de baleias.

A escola de formação, whitiria, é de caráter sagrado. Sistema de formação tradicional, busca desenvolver as virtudes e qualidades de um chefe. Procura-se o autêntico muruwai, ou sangue de guerreiro. Os discípulos são testados por sua força, coragem, inteligência e liderança.
Os novos grupos de discípulos guerreiros têm suas boas vindas maori numa cerimônia tradicional chamada Powhiri. Uma mulher introduz os novos ao grupo através da “ karanga”, espécie de canto cerimonial suave e profundo seguido de gestos rituais.
Os velhos maoris ensinam através de perguntas forçando respostas. Cria-se no discípulo uma esfera de conflito e incentivam o uso do discernimento e do pensamento rápido num momento de extrema pressão. Expõe os candidatos a líder à situções de perigo, com seus companheiros ou na natureza para desenvolverem a capacidade de lidar com o wehi, que significa medo. Para isso descobrem seu ihi ou força, e que essa força não é externa e sim interna. Também é ensinado que a força vem da união de todos os seus irmãos, que o ihi que faz vencer o wehi é a força que vem dos ancestrais, é a força que os ancestrais deram à Paikea para domar a baleia.
A força suave ou interna sempre esteve bem representada da cultura marcial maori, vemos claramente isso em seu cumprimento tradicional, conhecido como Hongi, tocam a testa e o nariz ao mesmo tempo. A testa representa a força e o nariz a bondade(carinho). Intimo e confrontante. Em suma, a força interior.
A dança típica é o Haka, preparatória para a luta de jovens guerreiros contra inimigos imaginários. Trata-se de uma dança em que se nota a elasticidade e o excelente manejo com as clavas e onde a tradicional careta, expondo toda a língua, tem a intenção de intimidar o inimigo.
Aprendem a dominar a Taiaha. A taiaha é um instrumento de guerra, de luta, feita com uma madeira especial, assemelha-se a um bastão de 1,5m. Desde o início aprendem que para dominar a taiaha é preciso respeitá-la. É preciso tê-la como extensão do corpo. Treina-se uma postura de combate específica e aprende-se a movimentar-se marcialmente. Desenvolvem a pukana, técnica de esbugalhar os olhos para ameaçar, é uma forma de olhar muito específica, semelhante ao olhar da baleia, canaliza a energia e o poder deste animal sagrado. Na haka, dança guerreira, mostram a lingua e fazem caretas amedrontadoras. Batem em seu próprio peito com força chamando o inimigo para o confronto. Quando expõem toda a lingua, batem no peito e esbugalham os olhos, estão dizendo a seus inimigos algo como: Vou te devorar, vou quebrar a sua cabeça com minha taiaha, comerei seu coração… Imagine o pavor dos europeus quando tiveram que combater pela primeira vez com guerreiros assim.
A prova final de reconhecimento do líder se faz no mar. O líder lança ao mar seu reiputá, dente de baleia símbolo do poder do chefe, “ quem tem o dente tem a mandíbula”. Aquele que recuperar o reiputá passa a ser o novo líder e velará por toda a tradição.
O ritual de aceitação do líder, acreditasse que o líder vem de uma longa linhagem de chefes que vai até o “domador de baleias”, se dá numa waka taua, canoa de guerrra tradicional. Cria-se uma dança vigorosa de guerreiros e guerreiras, uma espécie de “preparo para a guerra”, batem no corpo, promovendo equilibrio de energias internas etéricas com energias externas físicas do corpo, arregalam os olhos e mostram a língua com um canto forte, após esse impactante ritual, entram todos num barco e dão a volta da iniciação em sinal do reconhecimento do líder.
O espírito guerreiro maori sobrevive até os dias de hoje. Já tentaram fazê-los perder suas origens, esquecer seu idioma, e até mesmo esquecerem quem são. No entanto, sua força interna e cavalherismo sobrepassam todas as fronteiras do imaginável.Talvez o segredo dos maoris esteja em seus ancestrais, talvez neles mesmos. Talvez esteja em algum lugar onde todo guerreiro possa encontrar sua batalha perfeita. Talvez onde possa encontrar aquilo que chamam de deus da guerra interior.

28 set 2008 4. TUAREG

4. TUAREG

4.1. HISTÓRIA

O nome “Tuareg”, “Targuí” no singular, lhes foi dado pelos europeus, para designar um individuo habitante do Saara ( Saara: literalmente deserto). A palavra árabe “Tuareg” significa “abandonados pelos deuses”. Talvez por isso prefiram chamar a si mesmos por Inmouchar, Imashagen (Os Livres) ou Kel Tamasheq - os que falam Tamasheq - e se identificam como Tamust - a Nação.
Suas origens parecem perdidas no tempo. Uns lhes atribuem ascendência egípcia. Outros, iemenita. Alguns ainda os consideram descendentes de uma antiga tribo européia. Mas a maioria acredita se tratar de um povo berbere, os antigos habitantes do Saara. Há referências de Heródoto sobre o povo do Deserto.
Alguns acreditam que os tuaregs derivaram de “Targa”, que é uma cidade no sul da Líbia, numa região chamada “Fezzan”.
Porém, os tuaregs se consideram descendentes dos garamantes (Antigo povo da Líbia). “Conta a tradição que esse povo já era inteligente e poderoso, desde a ilha de Creta, nos tempos dos faraós. Tanto que tentaram invadir o Egito mas uma mulher os traiu e eles perderam a grande batalha. Alguns deles fugiram para o leste, se estabeleceram junto ao mar e formaram o povo dos fenícios, que dominaram os oceanos. Outros fugiram para o oeste, e se estabeleceram sobre as areias, dominando o deserto.”
Sua sociedade é matriarcal e veneram Tin-Hinan, nome da rainha ancestral dos Tuaregs. Sua tumba está em Abalessa, a capital da região Hoggar.
Diz o mito que ela veio com seu servo Takamat de Tafilalet no sul de Marrocos para Hoggar. Ela se tornou a Tamenokalt (Rainha) dos Tuaregs, que a chamam de “Mãe de Todos Nós”.
O cadáver foi encontrado num caixão de madeira finamente decorado e coberto por jóias. No seu braço esquerdo havia sete braceletes de prata e no braço direito sete braceletes de ouro. Por nunca ter sido saqueada se percebe a grande adoração que a rainha guereira exerce. É alvo de peregrinação e há evidências de que pessoas dormiram nela na busca de cura. Ainda hoje, dizem que Tin-Hinam matém um poder guerreiro sobrenatural, onde ao olhar para ela, mescla-se uma sensação de medo, poder e respeito ao mesmo tempo.
Os problemas enfrentados atualmente pelos Tuareg nascem de sua recusa em aceitar as fronteiras de cinco Estados - Argélia, Mali, Líbia, Níger e Burkina Fasso -, estabelecidas nos tempos coloniais em territórios que sempre lhes pertenceram.
Expulsos da Argélia em 1986 e obrigados a sair da Líbia em 1990, os Tuareg se refugiaram no Níger e no Mali. Ali criaram vários distúrbios, e por isso sofreram a dura reação dos governos locais. Houve matanças e verdadeiros genocídios.
Para os povos sedentários, é muito difícil compreender a vida nômade dos Tuareg.
Não se pode esquecer que esses nômades guerreiros ainda não tiveram a chance de encontrar um território para si, numa imensa região que pertenceu a eles durante séculos.
Um território onde possam se estabelecer e conservar o estilo de vida que lhes é próprio, desde tempos imemoriais.

4.2. Hierarquia

Sob uma distinta hierarquização formada por castas que descendem da tradicional rainha guerreira Tin-Hinan e seu companheiro Takama, encontra-se cinco classes sociais fechadas. Dão muita importância à nobreza de sangue e não se pode passar de uma para outra.

1) Inmouchar ou Imouhag: A casta nobre, categoria social mais elevada entre os tuareg. São os guerreiros por excelência. Portam a tradicional espada Takouba, cujo formato lembra muito as espadas medievais das cruzadas. Há pequenas distinções no formato e detalhes entre as espadas de acordo com a região de origem ou dos artesãos-ferreiros que as fazem.
Inmouchar: textualmente , designa um tipo de faca. Entre os beduinos, as qualidades guerreiras, ou seja, o “afiamento” dos homens das tribos, sempre foram de relevância. Para ser um inmouchar, assim como a faca que é afiada dos dois lados, deve ser afiado como guerreiro dentro e fora de si mesmo. Um inmochar nasce como guerreiro é depois é formado para fazer florecer todo o seu potencial. Sendo esses guerreiros o modelo do dirigente, lembram as tradições onde os dirigentes eram simbolizados por machados de duplo fio, onde o machado “abria caminho” tanto dentro como fora do dirigente.
Imohag: textualmente, “grupo sentado ao redor do fogo celebrando uma aliança”. Designa um aliança entre tribos que se unem contra um inimigo comum. Também são conhecidos como imouhag porque somente os guerreiros dirigentes podiam fazer essas alianças.

2) Imrad: Os “Homens Livres”, são a maioria e se dizem descendentes de Takama. Imrad significa “povo das cabras”. Os imrad, por sua vez, cuidavam do pastoreio e da condução das caravanas, confiavam os trabalhos mais pesados à casta dos servidores, os iklan, que geralmente eram escravos.
Junto aos imrad encontramos os majarrero: homens que fazem ou comerciam jóias. São considerados pelos tuaregs como um raça inferior, no entanto, o consideram a classe mais culta de todo o sistema social, uma vez que muitos deles sabiam ler e escrever e alguns tinham viajado para além da fronteira do deserto.

3) Iklan ou akli: Aos escravos, chamados de Iklan, ficam os trabalhos mais pesados. São compostos por descendentes dos antigos cativos. Desde a dominação francesa em finais do século XIX não é permitida a escravidão. Mesmo assim eles permanecem numa quantidade considerável e têm as suas subcastas. Algumas tribos eram escravizadas por outras, pois por muito tempo prevaleceu no deserto a lei do mais forte. Até hoje as tribos usufruem de maior ou menor destaque social em virtude de sua maior ou menor capacidade de lutar.
Subcastas:

- Iderfen, já estabelecidos e libertos há várias gerações
- Iborroliten, nascidos dos casamento entre lmrad e lklan. São libertos por seus pais.
- Iklan-n-Eguef (cativos das dunas), pastores;
- Tent Iklan, servos que vivem com seus mestres.

4) Harratin: Agricultores.

5) Inaden: são os artesãos que trabalhavam o ferro e o couro. Estes não são nômades, mas vão de um acampamento a outro para oferecer seus serviços. São considerados os “fora de casta”. Os ferreiros (Ineden) são ancestrais Sudaneses e pertencem a uma casta separada. Não casam com membros de outras castas e têm uma linguagem secreta (Ténet). Dizem que possuem poderes místicos ocultos (negros).

Tradicionalmente, as tribos tuaregues formavam uma confederação sob o comando de um chefe supremo, o amenokal, que tinha poder de vida e morte sobre seus súditos. As decisões mais importantes eram discutidas por um conselho dos chefes, o arrollan.
A insígnia do poder é o tobol, o grande tambor real de 80 centímetros de diâmetro.

4.3. RELIGIÃO

A religião fica a cargo dos Ineselmen, que significa os Muçulmanos, cuidando da observação das leis do Corão. Desde o século 16 os Tuaregs tem sido Muçulmanos. Combinam a tradição Sunita (Maliki madhhab) com algumas crenças pré-islâmicas animísticas, como a presença dos espíritos Kel Asuf e a divinização do Qur’an.
Devido ao nomadismo não seguem as atritas regras do Corão, nem mesmo os jejuns e peregrinações. Por isso não são muito considerados pelo povo árabe. Misturam suas crenças mágicas ancestrais com a doutrina do Islã, usando o Corão nas curas juntamente com as adivinhações feitas com lagartos, espelhos e conchas. Contam com a presença de vários espíritos que chamam de Djinns. Conhecem as influências do demônio (Saitan) e possuem técnicas para expulsar espíritos malígnos (gri-gri).
Os rapazes raspam a cabeça, deixando apenas uma espécie de crista no centro. Segundo acreditam, isso servirá para que Alá os “arraste” ao paraíso.

4.4. TRADIÇÃO E CULTURA GUERREIRA DOS FILHOS DO VENTO

Usam a linhagem materna, são matriarcais. As mulheres não sofrem dos rigores do islamismo, não usam os véus e podem até solicitar o divórcio. Atacar uma mulher é considerado algo totalmente indigno para um tuareg. São os homens que não dispensam um véu azul índigo característico, o Tagelmust, que começam a usar à partir dos 25 anos, ocultam todo o seu rosto salvo seus olhos. Este véu nunca o quitam, inclusive diante dos membros familiares. Dizem que os protege dos maus espíritos, e tem a função prática de proteger contra a inclemência do sol do deserto, das rajadas de areia e dos harmatan, vento forte do deserto, durante suas viagens em caravana.
Usavam tendas conhecidas como jaima ou imahan, feitas de lã de camelo ou cabras trançada, onde se abrigavam. Era feito um retângulo que era fortemente esticado nos cantos formava uma estrutura curvada para resistir aos vento e areia de forma a diminuir os danos. Atualmente têm sido substituídas por lonas de plástico, mais leves. Mas há também diversos tipos de casas fixas, feitas com blocos de terra e palha misturadas, os tub. A zeriba é uma habitação provisória de folhagens. O dahamus, uma casa fresca para o verão, é parcialmente escavado no terreno. Também usam a guelta, são cavidades na rocha que servem de habitação para algumas tribos no deserto, que preferem viver nessas cavernas por uma questão de clima. Trata-se de tribos de natureza mais sedentária.
Sua escrita original, o tifinarh, de origem fenícia, tem sido objeto de intensos estudos. Ainda hoje encontramos seus caracteres gravados nas figuras rupestres tão abundantes no Saara.
No passado, só as mulheres tuaregs sabiam escrever. Existe também uma “linguagem muda”, usada para transmitir mensagens secretas. Os Tuaregues a empregam tanto em transações comerciais quanto nas relações amorosas. Nela, o dedo indicador traça complexos ideogramas na palma da mão daquele a quem se dirige a mensagem.
As mulheres têm longas cabeleiras presas em tranças. Em ocasiões especiais, pintam o rosto de vermelho ou amarelo e os lábios de azul, formando uma espécie de más

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28 set 2008 5. SIOUX

5. SIOUX

“Óh! Grande Espírito cuja voz ouço nos ventos,
cujo hálito, da vida ao mundo,
ouça-me sou pequeno e fraco,
preciso de tua força e de tua sabedoria,
faça com que meus pés andem em beleza,
e que minhas mãos protejam as coisas que fizestes.
Faça-me sábio para que eu possa aprender as lições
que escondestes em cada folha e em cada pedra.
Faça-me forte, não para ser superior aos meus
irmãos,
mas para que eu possa enfrentar meu maior inimigo,
“Eu Mesmo”.
Faças com que eu esteja sempre pronto a te
encontrar, olhando nos olhos.
Para que quando a minha vida se for, assim como o
sol se põem,
meu espírito não tenha vergonha de fazê-lo.”
Oração Sioux

5.1. A MAGIA DE WAKAN TANKA

A palavra Sioux é o termo coletivo para designar sete grupos tribais cujos quais se organizavam em três principais grupos políticos, os Tetons, os Yonktons e os Sontus. O povo que veio a ser conhecidos como “Sioux” eram as pessoas que estavam, no século XVI, assentadas na nascente do rio Mississippi, nas regiões de Planície dos Estados Unidos. Denominavam a si mesmos Lakota ou Dakota, que significa “aliados”, “serpente” ou “inimigo”.
De acordo à Bernard Dubant, o “indio” é extremamente culto por ser descendente de culturas imemoriais, apontantando para Atlântida como berço civilizatório. A própria palavra indio designa uma origem sumamente longinqua. “O indio é o homem vermelho(sa wicasa), que também se atribui ao nome de Adão (o vermelho). Os toltecas dizem proceder de Aztlán, e os sioux, de um ilha voltada para o sol nascente, onde todas as tribos eram uma- afirma Dubant em sua obra “Cavalo Doido”.
Mitologicamente sua tradição surgiu de uma grande inundação que se deu nas grandes pradarias do oeste. Muitas tribus chegaram às colinas da pradaria escapando da subida das águas. A água continuou subindo até que inundou todo o mundo. “A carne e o sangue se converteram em pedra. A terra sioux é a carne e o sangue de seus antepassados.” Enquanto as pessoas se afogavam, uma águia calva (ou de cabeça branca) se aproximou voando e uma bela mulher se agarrou à suas garras, a levou a uma grande árvore, onde as águas não alcançavam. Nessa árvore a mulher deu luz à gêmeos. Os gêmeos, guiados por seu pai-águia, fundaram uma tribu forte e valorosa.
Sua cultura descende de uma figura santa conhecida como a Mulher Filhote de Búfalo Branco. Ela é uma heroína cultural. Foi ela quem trouxe aos sioux o cachimbo sagrado. Hoje, o cachimbo do Filhote de Búfalo Branco está em um lugar sagrado (Green Grass) em uma Reserva Indígena do Rio Cheyenne na Dakota do Sul mantido por um homem que é conhecido como o Guardador do Cachimbo do Novilho de Búfalo Branco, Arvol Looking Horse. Ele diz que está escrito que na próxima vez em que houver caos e disparidade, a Mulher Filhote Búfalo Branco retornará.
Fonte de profundo conhecimento espiritual, a Mulher Filhote de Búfalo Branco é uma poderosa mensageira de “Wakan-Tanka”, o Grande Espírito ou Grande Mistério. Ela mesma é chamada de “wakan”, que pode significar “sagrada” e “poderosa”, além de “antiga”, “velha” e “resistente”. Esta personagem lendária tem a beleza da juventude e a sabedoria da eternidade.
Conta a tradição que essa deusa exigiu para a sua aparição, a construção de uma grande tenda no centro da nação. Entrou na tenda, muito bonita, cantando, e enquanto cantava, de sua boca saía uma nuvem branca de “cheiro bom”. Então ela deu algo ao chefe: um cachimbo.
“Olhem”-disse ela- “Com isto vocês se multiplicarão e serão uma boa nação. Nada que não seja bom sairá disto. Somente as mãos dos bons deverão cuidar dele e os maus não poderão sequer olhar para ele.”
A mulher colocou uma lasca de búfalo seco no fogo e acendeu o cachimbo com ela. Este era peta-owihankeshni, o fogo sem fim, a chama do ideal a ser passada de geração a geração. E então falou:
“Todo amanhecer é um acontecimento sagrado, e todo dia é sagrado, pois a luz vem de seu Pai “Wakan-Tanka”; e também vocês devem sempre se lembrar de que os de duas pernas(seres humanos) e todos os outros povos que habitam esta terra são sagrados e devem ser tratados como tais”.
Ela ensinou também, a eles as sete cerimônias sagradas. Uma delas foi a Tenda do Suor, ou Cerimônia da Purificação. A outra foi a Cerimônia de Nomeação, dando nomes às crianças. A terceira foi a Cerimônia de cura. A quarta foi a criação de parentesco ou Cerimônia de adoção. A quinta foi a Cerimônia de casamento. A sexta foi a Busca de Visão e a sétima foi a Cerimônia da Dança do Sol, a Cerimônia do povo de todas as nações.
“Mulher Filhote de Búfalo Branco” é uma figura que dá vida a seu povo e está identificada com o búfalo porque representa toda a criação. Este é o animal mais importante para este povo, pois dá-lhes comida, roupas e até mesmo casas, que são feitas de peles curtidas. Para um índio sioux o búfalo contém todas estas coisas em si e, por muitas outras razões, ele é um símbolo natural do universo, onde representa a totalidade e unidade em todas as formas manifestas.
Os sioux viam o Universo como essencialmente incompreensível. A essa incompreensibilidade do universo denominaram “Wakan” que em conjunto com sua força criadora se totaliza no denominado “Wakan Tanka” que incorpora a soma do poder personificado que traz todas as coisas à existência.
Para os sioux tudo tem o seu espírito, mas tudo compartilha da mesma essência que é Wakan Tanka. Essa visão das coisas deixa claro a ligação existente em toda a manifestação, o que leva o Sioux a buscar uma integração cada vez maior de si mesmo com a natureza e o universo, gerando um espírito de unidade que se refletia primeiramente na sociedade e em maior escala o levava de encontro com Wakan Tanka.
Diziam que o universo foi criado por uma canção e que somente nas Montanhas Rochosas essa canção pode ser encontrada completa, por isso se fixavam a sua base e as consideravam sagradas como sendo o “coração de tudo o que existe”.
Wakan Tanka é o aspecto mágico dos sioux que quando incorporado pelo coração do guerreiro, este se transforma em ponte entre o céu e a terra, trazendo magia e bondade para todos os seres vivos. Diversos índios idosos, consultados sobre o significado da palavra wakan, deram a seguinte resposta : “Um homem comum possui os meios naturais de fazer as coisas. Eventualmente surge um homem que tem o dom de fazer coisas extraordinárias, e esse homem é chamado Wakan.”

5.2. A RELAÇÃO COM A NATUREZA
Os sioux não tem nenhum termo para designar a “religião” nem a “arte”, posto que a vida natural é essencialmente artística e religiosa. O termo que corresponde mais aproximadamente à religião é wocekiye (prece, oração). Para um índio sioux, a natureza é a face de Deus. Diziam que respeitar todos os seres era uma forma de respeitar a si mesmo. A mãe terra provê tudo, por isso, deve ser objeto de devoção e amor.
Criticavam o fato do homem branco dormir em camas sendo que o solo, por natureza é tranqüilizante, revigorador, purificador e medicinal. Por isso é que os velhos índios ainda se sentam diretamente na terra, fonte de suas forças vitais. Para eles, sentar-se ou deitar-se no chão permite pensar com mais profundidade e sentir com mais acuidade; podem penetrar nos mistérios da vida e descobrir o parentesco com outras formas de vida ao seu redor.
De acordo à Chefe Falcão Voador, um índio sioux oglala, era sobrinho de Touro Sentado. “Nossos tipis (tendas) são muito melhores de se viver; sempre limpas, quentes no inverno, frescas no verão, fáceis de transportar. O homem branco constrói casas imensas, parecidas com grandes gaiolas; custam muito dinheiro, vedam a entrada do sol e não podem se mover; estão sempre doentes. Os índios e os animais sabem como viver melhor do que o homem branco; ninguém pode ter boa saúde se não dispõe o tempo todo de sol, ar fresco e água pura. Se o Grande Espírito quisesse que os homens permanecessem num único lugar, teria feito o mundo imóvel. Mas Ele quer a mudança, de modo que os pássaros e os animais possam se mover e sempre encontrar grama verde e frutos maduros, sol para trabalhar e brincar, noite para descansar; verão para as flores se abrirem e inverno para dormirem; sempre a mudança; tudo com algum benefício; nada por nada.
O homem branco não obedece ao Grande Espírito; por isso os índios jamais se entenderão com ele.”
Diziam que seus corpos estavam acostumados à constante exposição ao sol, ao ar e à chuva, e a função dos poros da pele – na verdade um sistema respiratório altamente desenvolvido – era bloqueada pelas calças de material pesado e absorvente.
Acreditavam em pedras sagradas, grandes pedras ou rochas no campo eram ‘objetos de devoção’ entre os índios sioux. Stephen Riggs observou que ‘grandes blocos de pedra arredondada eram escolhidos e adornados com tinta verde e vermelha, onde os Dakota pudessem rezar e oferecer seus sacrifícios. Para eles, falar dessas pedras é “conversa sagrada”.
Consideravam que o Vento é o arauto de todas as lições, pois os espíritos sempre chegam junto com o Vento. Se ele vier do Sul, estará lhe oferecendo um ensinamento sobre fé, confiança, inocência e humildade. Se o vento soprar do Oeste, estará oferecendo lições de conhecimento interno. Quando o Vento sopra do Norte, ele lhe aconselha a ser grato e reconhecer a sabedoria que está a seu alcance. O Vento Leste traz progresso, novas idéias e liberdade que é obtida através da iluminação. O Vento Leste lhe ajudará a afastar as dúvidas e pensamentos sombrios, abrindo a Porta Dourada que conduz a novos níveis de entendimento.
Podemos ver a representação disso na oração sioux que segue:

“Ó nosso Pai Céu, ouça-nos e faça-nos fortes.
Ó nossa Mãe Terra, ouça-nos e dê-nos apoio.
Ó Espírito do Leste, envie-nos sua sabedoria,
Ó Espírito do Sul, que possamos trilhar seu caminho de vida,
Ó Espírito do Oeste, que estejamos preparados para a longa jornada,
Ó Espírito do Norte, limpe-nos com seus ventos purificadores”.

Os Índios Sioux da América do Norte sempre utilizaram as formas da natureza como referência para verdades inerentes ao ser humano, a utilização do sistema de analogias com a pedagogia baseada no exemplo formatou uma das mais ricas culturas indígenas que fascinam as pessoas até os dias de hoje.
Uma lenda Sioux diz que um guerreiro e uma bela mulher se aproximaram de um feiticieiro e pediram um feitiço, um conselho, um talisã, qualquer coisa que assegurasse o amor que um nutria pelo outro e queriam se casar mantendo esse amor mesmo para além da morte. O feiticeiro solicitou para o guerreiro uma águia que poderia encontrar num montanha específica e para a bela dama um falcão que deveria trazir de uma outra montanha. Deveriam trazer a águia e o falcão vivos até o terceiro dia da lua cheia.
E agora o que faremos? - perguntou o jovem - as matamos e depois bebemos a honra de seu sangue?
- Ou cozinhamos e depois comemos o valor da sua carne? - propôs a jovem.
- Não! - disse o feiticeiro, apanhem as aves, e amarrem-nas entre si pelas patas com essas fitas de couro… quando as tiverem amarradas, soltem-nas, para que voem livres…
O guerreiro e a jovem fizeram o que lhes foi ordenado, e soltaram os pássaros… a águia e o falcão, tentaram voar mas apenas conseguiram saltar pelo terreno. Minutos depois, irritadas pela incapacidade do vôo, as aves arremessavam-se entre si, bicando-se até se machucar.
E o velho disse: Jamais esqueçam o que estão vendo… este é o meu conselho. Vocês são como a águia e o falcão… se estiverem amarrados um ao outro, ainda que por amor, não só viverão arrastando-se, como também, cedo ou tarde, começarão a machucar-se um ao outro…
Se quiserem que o amor entre vocês perdure…
“Voem juntos… mas jamais amarrados”.

5.3. OS CINCO ELEMENTOS E OS DEZESSEIS ASPECTOS

Os cinco elementos foi amplamente demonstrado por inúmeras tradições. Pelos astecas através dos cinco sois e pelos mulçulmanos simbolizada pela mão de fátima. Vemos também representado pelo conhecimento dos cinco anéis da tradição japonesa e em roma através dos manípulos. A tradição sioux representava o conhecimento dos cinco elementos através do símbolo do Manitú, onde carimbavam o dorso do cavalo com o desenho de uma mão. Diziam que somente poderiam falar sobre quatro elementos, pois o quinto, por ser sagrado, era de caráter interno e só era compreendido por aquele que tinha obtido a “ visão”. Representavam quatro dos elementos através de quatro cores( vermelho, branco, preto e amarelo), quatro direções, quatro aspectos da personalidade e dos quatro ventos que vinham dos quatro cantos do universo e traziam inserindo dentro de si quatro tipos de poder, que naciam de um poder único.
Outro símbolo usado era o da uma cruz inscrita num círculo, onde o centro representa o quinto elemento, o elemento sagrado que nunca deve ser profanado. Os quatro elementos era de domínio público e o quinto de domínio dos chamans. O h-men(“chaman” na lingua quechua) “ é o que conhece os segredos de seus antepassados”. É o iniciado nos mistérios.
Do quinto elemento nasciam os quatro elementos, e dos quatro nasciam outros quatro, totalizando dezesseis expressões do quinto elemento.
O quinto elemento espiritual, Wakan Tanka, o Grande Poder, está representado, portanto, por dezesseis aspectos. Os chamans o chamam Tobtob Kin, o quatro vezes quatro, conhecido em outras tradições como as dezesseis pétalas.
Os “wakan superiores” (wakan akanta):
O primeiro é o Deus superior, Wi ( o sol), o chefe dos deuses; Skan (o céu), o espírito poderoso; Maka (a Terra), o ancestral de todo o mundo e provedor de tudo; e Inyan (a pedra), a matéria prima de todas as coisas.
Em segundo nas categorias da hierarquia estão os deuses associados aos superiores que é Hanwi (a lua), criado por Wi para ser sua companheira; Tate (o vento), criado por Skan para ser sua companheira; Wohpe (estrela poente), criado por Maka para ser sua companheira; e Wakinyan (o alado), o ser trovão, criado por Inyan para ser seu companheiro.
Essas são as duas categorias wakan kin, as “sagradas” ou “ poderes”.
As duas categorias inferiores são as dos wakan kuya, ou “ wakan menores” e a dos wakanlapi “os semelhantes ao wakan
A terceira categoria: Tatanka (o deus Búfalo), o padrão das cerimônias, a saúde, e a provisão; Hu Nonp (o deus urso), o patrono da sabedoria; Tatetobi ( os quatro ventos), o que dá vida e tempo; e Yumni (o redemoinho de vento), o deus da chance, dos jogos e do amor.
A quarta categoria: Nagi ( o espírito); Niya ( o fantasma); Sicun (potência, o poder que reside nas coisas animadas e inanimadas); e Nagila (o ser imaterial das coisas irracionais).
Para um sioux o universo é mágico e natural. Não falam de Deus propriamente, consideram que falar de Deus seria uma forma de profanar a divindade. Falam do poder de Deus manifestado por Wakan Tanka, e esse poder por sua vez, se manifestando em quatro elementos e finalmente se desdobrando em dezesseis expressões, conformando o que chamamos de universo visível. O verdadeiro poder, permanece invisível e oculto, no entanto, é o que gera, nutre e põe em marcha todas as forças universais.

5.4. A BUSCA DA VISÃO ( HANBLECEYA)
Dentro do clã guerreiro o aspecto místico era sempre levado em conta e direcionava os passos da tribo, todo guerreiro deveria em sua trajetória de vida alcançar a sua visão, ponto em que entendia e participava dos aspectos da natureza. A busca da visão era a meta de todo guerreiro .
A Busca da Visão é um dos instrumentos mais antigos usados pelo povo das Tribos ao buscar a sua direção na vida. A visão ( hanble) determinava a vocação do guerreiro sioux. Se esses dons forem usados de forma adequada, podem permitir a obtenção de um potencial de crescimento que acompanhará o discípulo pelo resto da vida.
Diferente aos povos “ocidentais” atuais, onde impera a democracia e a igualdade, para os sioux a visão determinava seu destino e vocação como caminho de expressão da alma.
“Não é com os olhos com que se vê”- Afirmava Carlos Casteneda. O princípio da visão está no descortinamento do mundo através da energia do coração, fundindo no espírito do guerreiro a verdade da unidade.
A visão não é algo que pode ser descrito intelectualmente. Quando vivido pelo guerreiro, as fronteiras de vida e morte se diluem. Comenta Héhaka Sapa, um importante wicasa wakan( homem de poder): “Quando me ocorre, vejo mais do que posso explicar e compreendo mais do que vejo, porque vejo de forma sagrada(wakan) as formas de todas as coisas no espírito e a forma de todas as formas tal como devem viver juntas como um ser” – “A razão mais importante na busca da visão, é sem dúvida, é o fato de dar-nos conta de nossa unidade com todas as coisas.”
O conceito da unidade, ainda que só fosse possível vivê-lo plenamente uma vez obtida a “ visão”, era culturalmente transmitida de geração a geração através de muitas idéias, por exemplo, para os sioux a palavra povo, oyate, não só designa os diferentes povos humanos, mas também, todos os reinos da natureza, designando a unidade de todas as coisa
A orientação do shaman era fundamental. O shaman era quem detinha o conhecimento dos dois lados da natureza e por isso podia guiar o guerreiro tanto de um lado quanto do outro.
Sempre conduzido por um shaman, o indivíduo que Busca a Visão é enviado a um local de poder. O objetivo dessa atividade, que é chamada de “Subida da Colina” pelos sioux, é que a pessoa obtenha uma compreensão mais ampla de seu papel ou caminho no mundo.
Antes do guerreiro ir à “ Tenda da Busca da Visão”, deve se purificar na “Tenda do Suor” (Itipi). A tenda do suor era usada para purificação prévia também à “Dança do Sol”.
O termo “Tenda do Suor” é usado há muito tempo e não chega a expressar realmente o propósito dessa cerimônia. O propósito é purificar o corpo e a mente, mais precisamente, concentrar a mente e fixar o corpo.
A Tenda do Suor é construída com dezesseis varas de salgueiro e tem forma circular. A porta da tenda da purificação é bem baixa, para que se tenha que entrar de joelhos. O que arremete o discípulo instantaneamente à idéia de humildade.
Usa-se pedras vulcânicas num buraco de fogo e joga-se água para criar-se um vapor constante. É uma tenda fechada, escura, incentivando o recolhimento. Por vezes se libera o calor através de uma pequena abertura. A oração é constante e repetida nas quatro direções.
Depois de purificado na tenda do suor, o discípulo acompanhado de seu wicasa wakan sobem uma colina wakan, lugar elevado de poder, levando consigo à cavalo varas e salvia para oferendas. Se cava um buraco suficientemente grande para caber o buscador da visão. Fica no centro e ora constantemente para as quatro direções. Implorando à wakan tanka, se dirige a todas as ajudas sobrenaturais que estão a sua disposição.
Deve permanecer desperto todo o dia e evitar pensamentos que o distraiam. Logo começa a chegar os mensageiros, em forma de animais que são sábios à sua maneira. Pela noite pode adormecer sobre o leito de salvia e aí é onde frequentemente sobrevem as visões mais importantes, visões “muito mais reais e fortes que os sonhos ordinários”.
Também de noite chegam os wakinyan oyate, os seres do trovão, aterradores, que põe à prova o jovem. Deve estar de pé quando nasce o sol. Sua súplica durará três ou quatro dia.
Nessas visões, o homem pode se tornar naquilo que sonha. Já dizia Shakespeare: “Estamos feitos do tecido dos nossos sonhos”.
O sonho tinha importância determinante, e o “sonho” obtido na tenda da visão, trazia a realidade ao coração do discípulo fundindo os dois “lados da vida”em um só. A visão ditava seu destino e se colocava à serviço da sociedade fazendo uso de sua vocação. Já diziam os velhos shamans que só se pode chegar à visão quando somos capazes de sonhar as coisas por dentro. O modo como os indios conheciam alguma coisa era transformando-se temporariamente nela.

5.5. A DANÇA DO SOL ( WI WANYANG WACIPI)

O ritual Sioux guerreiro por excelência é a Dança do Sol. Permite aos Guerreiros o direito de ofertar sua dor, seu sangue, suas preces e a si mesmos, sacrificando-se pelo bem de todo o Povo. A Dança do Sol é realizada normalmente uma vez por ano( solstício) em cada Tribo. Esta cerimônia dura quatro dias e honra as Quatro direções e a sagrada Árvore da Vida. Durante a cerimônia os guerreiros têm a oportunidade de provar o seu valor como protetores do Povo. Não pode ser feita por qualquer um, somente por uma pessoa de valor e, caso seja bem sucedido, encarna depois do rito a figura do lider dirigente.
Antes de começar a dança, o guerreiro escolhe um padrinho que já realizou essa dança ao menos uma vez que será responsável pela coragem do dançarino e sua força de caráter. A disposição e coragem necessária para ficar dançando sem ingerir comida ou água durante quatro dias torna-se um verdadeiro teste de estrutura e do caráter do dançarino. Os meses de preparação que precedem a Dança do Sol incluem o jejum, a Busca da Visão, as Cerimônias de Purificação e muitas horas de oração pessoal. Uma queda durante a Dança do Sol traz desonra ao padrinho do guerreiro que caiu e pode ser o presságio de um período de infortúnio para a Tribo ou Nação. O primeiro a se sentir desonrado é o padrinho, que não preparou adequadamente o guerreiro através de métodos mais rigorosos antes do início da prova.
A preparação do local usado para a Dança do Sol segue todo um ritual. Cabe às mulheres da Tribo preparar um terreno circular. Enquanto isso, vai-se abrindo uma clareira ao seu redor do centro, ali onde a Árvore da Dança do Sol será colocada. A Pessoa-em-Pé (árvore) escolhida deve ser carregada sem tocar o solo, a partir do local onde foi cortada, até o centro do círculo para ser replantada na terra. Esta Árvore da dança do Sol representa a Árvore da Vida.
Depois de fixar a árvore em seu lugar, uma Sacola da Dança do Sol é colocada no alto do Mastro da Dança do Sol. De acordo com o ritual, esta passa a ser a nova identidade mágica da Pessoa-em-Pé.
A Sacola da Dança do Sol é uma bolsa de couro que contém a Magia Sagrada dos Totens. Estes pedaços de pêlos, dentes, penas, ossos e garras representam a magia e a capacidade de Cura destas Criaturas. Cada Dançarino do Sol está em busca de uma Visão de Sabedoria para que lhe seja revelada sua função e crescimento da Tribo, assim como a sua responsabilidade no destino do grupo.
No terceiro dia os dançarinos são trespassados através do tecido conjuntivo dos músculos peitorais, primeiro com um furador e depois com um bastão afiado de cerejeira. Depois prendem-se tiras de couro às pequenas estacas que lhe atravessavam o peito (região do ponto dois ou ponto psicológico de acordo à algumas tradições) fazendo-lhes pequenos cortes para que seu sangue alimentasse a Mãe Terra. A luz solar entrava por uma abertura e iluminava o rosto e o peito. Atado à Árvore da Dança do Sol ou à Árvore da Vida criava-se um efeito especial de guarda-chuva ou de carrossel.
Também se tocava-se um tambor, como em outros muitos ritos, o tambor chamânico. A forma redonda do tambor representa o universo, e seu centro é o coração que bate no centro do universo.
A dor, o medo, o som do tambor, os odores especiais mesclados ao giro-carrossel, colocava o discípulo num transe profundo, apto para ter sua visão, seu sonho de destino. enquanto o guerreiro não recebesse essa visão, deveria realizar a dança ano após ano. Se passava pela prova, tinha a visão necessária para um dirigente não só conduzir às pessoas, mas antes de tudo, conduzir a si mesmo. O guerreiro dançante, após a prova, se tornava um wakan, estava pleno de energia (skan), e entre outras coisas podiam impôr as mãos para curar os doentes. Diziam que isso era possível porque o guerreiro foi capaz de curar a si mesmo.

5.6. SÍMBOLOS E CERIMÔNIAS

São muitas as cerimônias e simbolos, trateremos de abordar as mais importantes:

A Tenda Lua: É onde as mulheres se reúnem durante seu período menstrual para ficarem juntas e se sentirem em sintonia com as mudanças ocorridas em seus corpos.
A Tenda da Cura: Juntamente com a Tenda da Lua são chamadas por vezes de “Tendas Negras”. Dentro da Tenda Negra das Mulheres são transmitidos ensinamentos fundamentais que permitem a cada mulher se relacionar com as energias femininas da Grande Mãe.
A cerimônia dos Irmãos de Sangue: Dá-se um pequeno corte nas mãos dos guerreiros e fazem um juramento. A base da Cerimônia dos Irmãos de Sangue é jurar eterna lealdade a uma amigo, agora transformado em Irmão.
Cerimônia da nomeação: A nomeação era um ato mágico, e o nome “secreto”correspondia a uma nova entidade. O nome guarda uma estreita relação com o “poder” e a natureza profunda. Só um wicasa wakan tem o poder para nomear um guerreiro.
Cerimônia da Contagem de Golpes: As conquistas guerreiras eram narradas e os atos de valor e coragem exaltados. O cocar, símbolo do chefe, tinha relação direta com a Contagem de Golpes pois cada pena presente no cocar simbolizava uma façanha, um ato de bravura, realizado tanto na guerra quanto na paz
Pow-Wows: Os homens se reuniam em círculos, partilhando novos métodos de rastreamento, caça e pesca, enquanto as mulheres partilhavam novas técnicas de artesanato e de tingimento de peles, trocando receitas de cozinha e de medicamentos. Os Círculos de Cura discutiam novos usos para as plantas, estudavam a necessidade do Povo e conversavam sobre suas Visões e Sonhos de Magia. Os Clãs Guerreiros comentavam os mais recentes atos de bravura e falavam da Contagem dos Golpes. As crianças se dedicavam a novas brincadeiras e contavam umas às outras as histórias que haviam aprendido com os Avós. Todos se sentiam plenamente satisfeitos, reanimados pelo sentido de Unidade do Pow-Wow. Era também durante o Pow-Wow que se realizava a Cerimônia dos Irmãos-de-Sangue e tinha como ponto alto a Cerimônia do Sol. Haviam jogos que punham em relevo os atos de bravura dos jovens Guerreiros. Promoviam-se corridas de cavalo, competições de canoagem, e corridas a pé pela floresta. Era durante as competições de caça que se conseguia a comida para os banquetes festivos especiais. Cada jovem Guerreiro esforçava-se por representar bravamente a sua Tribo, o seu grupo, ou, ainda, o seu Clã.
Cabelos Entrançados ou Contadores de Histórias: Algumas noites eram dedicadas às Histórias e às tradições. Esses Contadores de Histórias usavam uma pequena mecha com tranças e nós, que lhes caía pelo meio da testa e que os caracterizava como professores e historiadores da Tribo. Um Cabelo Trançado do sexo masculino não precisava participar das batalhas, mas deveria observar tudo e recordar-se mais tarde, passo a passo, do desenrolar da luta. Já um cabelo trançado do sexo feminino era a historiadora que mantinha viva a tradição feminina e que deveria ensinar as mulheres mais jovens a sentir orgulho de seus respectivos papéis dentro da Tribo.
Os Contadores de Histórias viajavam entre os grupos e as Tribos das diversas Nações, levando as notícias dos acontecimentos que afetavam a todos os Nativos.

“ Cantando celebrai, oh Anciãos,
A história da nossa raça.
Que me seja dado ver em minha alma
O amor em todos os rostos.
E todos os espíritos que vieram antes,
O poder mágico que eles adquiriram,
A Tradição Sagrada que me transmitiram
Para que a memória não desapareça.
Oh Contador de Histórias, sede minha ponte
Para aqueles outros tempos
Para que eu possa Caminhar em Beleza
Com o ritmo antigo e a antiga rima.”
Oração de um Contador de Histórias.

O Bastão-que-fala e a Pena da Resposta: É um instrumento usado toda vez que um Conselho é convocado. Permite que todos os Membros do Conselho apresentem seu Sagrado Ponto de Vista. O Bastão-que-fala passa de pessoa a pessoa à medida que a reunião se processa. Somente a pessoa que segura o bastão tem o direito a falar naquele momento. A Pena-da-resposta deve ser passada para quem vai responder a pergunta.
“Esse procedimento parlamentar reconhece o valor de cada orador. Cada Membro do Conselho deve ouvir com atenção as palavras que são ditas, de forma que, quando chegar sua vez, não repita informações desnecessárias nem faça perguntas impertinentes. As crianças indígenas aprendem a escutar desde os três anos de idade. Aprendem também a respeitar o ponto de vista dos outros. Isso não quer dizer que não podem discordar, mas estão obrigadas por sua honra pessoal a permitir que cada um expresse seu Sagrado Ponto de Vista”- comenta Jamie Sans.
Cachimbo: Simboliza a paz e a união entre as nações. O fornilho do Cachimbo representa o aspecto feminino de todas as coisas vivas e o tubo é o símbolo do aspecto masculino em todas as formas de vida. A fumaça que sai do Cachimbo representa prece visualizada e faz referência ao espírito presente em todas as coisas. Os Portadores de Cachimbo são os guardiões da Tradição Sagrada.
A Pintura de Guerra e a Pintura Cerimonial: A Cara Pintada usada nas ocasiões de guerra tinha por intenção assustar o inimigo e ressaltar a expressão de bravura de cada Guerreiro. Costumavam pintar seus cavalos como extensão da sua pintura. Quanto mais assustadora era a Pintura de Guerra, mais conseguia provocar medo ao inimigo. Na hora de surpreender o inimigo, pulando sobre ele, o Guerreiro soltava um grito de guerra, revelando a sua assustadora Cara Pintada. Através deste ato de coragem, ele tentava provocar uma paralisia temporária no inimigo e conseguir uma vantagem na batalha. Já a Cara Pintada das Festas e dos Cerimoniais possuíam outra função; ela servia para revelar a beleza do espírito individual aos olhos de todos os membros da Tribo, não era uma forma de máscara para os Guerreiros, ou de esconder a sua identidade; pelo contrário, servia para expressá-la da forma mais pessoal possível. As máscaras só eram utilizadas, nas danças ou nos rituais, quando havia necessidade de representar outro Ser, diferente do Ser de determinado indivíduo.
O Cabelo: Acreditavam que o cabelo era a extensão da alma, por isso para cada ocasião havia um determinado penteado ou corte. Os Sioux ultilizavam seus cabelos longos sempre enfeitados para representar a paz entre as tribos. Quando algum Sioux querido vinha a falecer, os demais desfiavam os cabelos
a fim de demonstrar a tristeza causada pela morte.

5.7. FORMAÇÃO GUERREIRA

Toda a formação e doutrina Sioux permitiu que esse povo, como acontece com todos os povos guerreiros, desenvolvesse um profundo senso de unidade entre si e com a natureza traçando uma conduta moral naturalmente sem a necessidade de imposição, o que os permitia serem talentosos guerreiros que colocavam na coragem e na honra o maior dos ideais
As histórias e os frutos dessa tradição, hoje quase que totalmente perdidas, nos mostram esses indígenas como figuras notórias, dignas e de uma nobreza exemplar.
Sua base moral era sedimentada já desde criança. Acreditavam profundamente no silêncio – signo de um perfeito equilíbrio. O silêncio é o absoluto repouso ou equilíbrio de corpo, mente e espírito. O homem que preserva a sua individualidade está sempre calmo ante as tempestades da existência. A um índio lhe foi perguntado o que é o silêncio? E este respondeu: “É o Grande Mistério! O Sagrado silêncio é a Sua voz! O silêncio nos traz autocontrole, coragem, perseverança, paciência, dignidade e reverência. O silêncio é a pedra angular do caráter”.
Todo o menino nascido na tribo durante os primeiros meses era amamentado por todos os guerreiros da tribo, dessa forma esse menino ao tornar-se um guerreiro, considerava todas as mulheres da tribo como suas mães, todos os velhos como seus avôs e todos os outros guerreiros, seus irmãos, e estando em batalha, cada um cuidaria de sua vida e da vida de seus irmãos, sendo esse um sentimento tão forte que jamais um irmão seria abandonado no campo de batalha, se tivesses que morrer morreriam juntos, irmãos na vida e na morte.
De criança, tanto os meninos quanto as meninas brincam separadamente e com jogos diferentes. “Creio que essa é uma das razões pelas quais quando as meninas crescem se tornam pessoas tão amáveis.”- comenta Urso em Pé.
O Rito de Passagem usado para meninos Nativos costumava ser o recebimento e o cuidado de seu primeiro cavalo. Isto representava o primeiro passo para a masculinidade e dentro de sua formação de caráter, a possibilidade de desenvolver a responsabilidade. O segundo passo consistia em desenvolver a humildade, respeito e admiração. Acompanhavam os caçadores mais experientes para aprender a rastrear, até tornar-se, ele próprio, um provedor de sua Tribo. Nesse caso, a função do jovem era carregar mocassins, Quando nevava ou chovia, esses calçados precisavam ser constantemente trocados. O jovem devia ter sempre mocassins secos à mão para o caso de qualquer membro do grupo precisar fazer uma rápida mudança de calçado.
À medida que o jovem assimilava a conduta adequada de um Guerreiro, ia recebendo maiores responsabilidades até ser escolhido para tornar-se responsável por um grupo de caça ou uma equipe de ataque. Se acontecesse de um cavalo ou um homem se perder sob sua chefia, o nome de sua família ficava desonrado e ele ficava desmoralizado. Conseguir liderar com sucesso um grupo de caça ou um ataque marcava a transição entre o final da adolescência e o início da vida adulta.
Aprendiam com os garotos mais velhos canções de bravura, para enfrentar a morte conforme o código dos Lakota: sem medo… O canto de bravura ajudava a enfrentar com coragem as provações e animava os espíritos vacilantes.
O espírito do Clã dos Guerreiros é representado pela Flecha. A Flecha é direita, certeira, e torna-se mortal quando é apontada para matar. Os Bravos Guerreiros só adquiriram o direito de serem chamados por esse nome depois de passarem por muitos testes de liderança e agilidade. A coragem era o ingrediente principal na formação de um Guerreiro, porém deveria ser temperada pela verdade, pelo senso comum, pela destreza física, integridade e ligação com os níveis espirituais antes que se merecesse o direito de pertencer ao Clã dos Guerreiros. Uma vez concluídos os Ritos de Passagem para os rapazes de 13 anos, iniciava-se o lento e árduo processo de aprendizagem para tornar-se um Homem. As lições eram aprendidas com o pai, um tio, com outro membro do Clã do Guerreiro ou com um Chefe. Estas lições consistiam em aprender a caçar, rastrear, a participar de um ataque, e a colaborar na Contagem de Golpes. Havia ainda a Busca de Visão, a Dança do Sol, e a liderança de um grupo de caça. Durante a dança noturna as atividades eram reencenadas para o resto da Tribo, celebrando assim cada uma destas conquistas.
Cada jovem que honrava seu Clã com atos de bravura era coberto de honrarias. Cada passo que conduzia ao caminho extenuante, já que a liderança da Tribo, e por vezes da própria Nação, recairia nos ombros da próxima geração do Clã dos Guerreiros. A habilidade de um homem fabricar flechas pretendia demonstrar a exata medida de seu cuidado com a liderança do Povo. O melhor dos melhores acabaria sendo escolhido como Chefe, após ter as suas capacidades comprovadas. Nesta ocasião, ele já teria, pelo menos, cinqüenta anos de idade. Um Guerreiro jamais seria considerado um Ancião, nem um sábio o suficiente para tornar-se o Chefe principal da Tribo, enquanto a sua vida não estivesse plena de experiência. O indivíduo só era considerado adulto e maduro o suficiente para tornar-se Chefe aos cinqüenta anos de idade.
De acordo com a Tradição Sioux, logo após a puberdade o jovem tornava-se um Soldado-Cão da Tribo, aprendendo a servir e a ser leal para com o seu povo, de acordo aos códigos, para além da coragem e valentia, era necessário a generosidade para se tornar um líder.
Enquanto agia como sentinela e protetor do acampamento. Depois que estas lições estivessem bem assimiladas, alguns destes jovens eram chamados para participar da Sociedade do Coração Forte, considerado um agrupamento de elite. A sociedade era constituída pelos membros que haviam se distinguido na batalha e que já possuíam muitas Penas de golpe. O Clã dos Guerreiros sentia-se muito honrado quando algum de seus membros era escolhido para entrar na Sociedade.
Alguns jovens casavam-se cedo e não conseguiam entrar para o agrupamento do Soldado-Cão porque tinham que sustentar a família. Estes homens passavam a ser tratados com um pouco de escárnio e eram chamados de “Os Toma-Conta das Barracas”. Muitos jovens queriam fazer parte do Abrigo-do-Soldado-Cão mas não eram admitidos. Todos os membros do grupo viviam num mesmo Abrigo, no qual as mulheres não tinham permissão para entrar. As mães dos Bravos costumavam preparar as suas refeições. Mas quando levavam a comida de seu filho, só podiam colocar uma das mãos na tenda, no máximo até o pulso.
Os melhores caçadores e rastreadores provinham do Clã dos Guerreiros. Nem sempre estes homens se tornavam Chefes, ma podiam chegar a ocupar lugares de honra no Conselho dos Homens, que incluía todos os líderes dos diversos Clãs. Uma vez completado o treinamento de Soldado-Cão, os Guerreiros ficavam livres para casar-se, tornando-se membros muito respeitados por todos em função do serviço que prestavam a seu Povo.
Dependendo de sua atuação, os membros do Clã dos Guerreiros podiam pertencer também a outros Clãs. A partir dos sete anos a criança já demonstrava os seus dons e talentos. A esta altura os avós já haviam merecido um descanso do trabalho cotidiano mais pesado. Eles se incumbiam de observar os talentos naturais que cada criança possuía para oferecer à Tribo. Os dons naturais determinavam a que professores cada criança deveria ser encaminhada, após realizar o seu Rito de Passagem. As meninas aprendiam suas funções junto às outras mulheres, e os meninos aprendiam, junto aos homens dos diversos Clãs, as tarefas para as quais demonstrassem maior aptidão. Desta maneira, cada criança tinha os melhores modelos possíveis, podendo desenvolver seus próprios dons e talentos para continuar honrando a sua Tribo.
Depois de ser honrado com o título de Chefe, um homem jamais deveria levantar a voz contra uma mulher ou uma criança. A primeira obrigação de um guerreiro siox era proteger as mulheres, as crianças e os anciãos. Esta regra era comum a todos os Clãs dos Guerreiros. Estes Bravos asseguravam a proteção das futuras gerações e sabiam honrar os tesouros vivos simbolizados pelas mulheres, como Mães e Provedoras da Tribo. O sentido de bravura e lealdade destes Guerreiros mantinha-os acima das discussões tolas, No entanto, eles eram, muitas vezes, submetidos a verdadeiras provas, por causa das brigas entre os membros da Tribo que ainda não haviam desenvolvido estas mesmas qualidades. Um verdadeiro Chefe tinha que ser equilibrado e compreensivo, colocando os interesses do seu Povo acima de seus próprios sentimentos. O caráter do Guerreiro era forjado por anos de silêncio, durante os quais ele assimilava a experiência dos Anciões da Tribo. Cada Guerreiro deveria passar por este aprendizado até reconhecer o valor da Flecha em sua essência mais verdadeira.
A Flecha era rápida para proteger e rápida para agir, nos momentos de necessidade. Um Chefe sempre sabia prever todas as possibilidades, era certeiro e corajoso, mirava para alcançar o melhor e o mais alto, e se sentia totalmente responsável pelas decisões que tomasse. O Arco da Beleza expressava a alegria de sua missão de liderança. Mesmo em momentos de grande tristeza a capacidade de se curvar sem quebrar-se é sugerida através do Arco da Beleza, o Arco da força interior – aquele que faz voar a flecha. Dizia-se que o Arco da Beleza era feito do mais puro ouro, manifestando a luz dourada do amor do Avô Sol, e era incrustado de pérolas, que representavam essência do carinho da Avó Lua. Um dos princípios básicos do Clã dos Guerreiros era o de manter o equilibro interno entre o masculino e o feminino dentro de cada lutador. Este equilíbrio simbolizava a síntese entre a vontade de se curvar – como o Arco da Beleza – e de disparar para o alto a Flecha da Verdade, para que o resto do Mundo pudesse travar conhecimento com ela.
A perda de prestígio era a pior coisa que poderia acontecer a um guerreiro. No caso de uma crise de honra, um Guerreiro podia até mesmo ser expulso de sua Tribo. Quando a infração era muito séria, a Nação inteira nunca mais receberia aquele indivíduo junto às suas fogueiras.
A dança de guerra costumava realizar-se à noite. Era mostrada em público apenas em ocasiões especiais ou em reuniões domésticas de raro interesse. Na dança, o grito de guerra e a resposta sempre precediam cada canto. Ele era emitido pelo líder e respondido pelo grupo. Nenhum dos presentes tinha a liberdade de falar durante a dança. Os discursos consistiam frequentemente em gracejos trocados entre indivíduos, ou críticas feitas às fraquezas do outro, ou ainda apelo aos sentimento patriótico.
Antes dos guerreiros saírem para a guerra, o profeta ou pajé erguia uma tenda e sentava-se ali sozinho, sondando o futuro e tendo as visões do que aconteceria. Os homens traziam-lhe oferendas, e ele preparava sortilégios e amuletos para os proteger na guerra. Então, antes de partirem os batedores, todos se reuniam no centro do acampamento e sentavam-se em círculo aguardando o profeta. Ele vinha, entoava uma canção sagrada e entregava aos guerreiros os amuletos que fizera, revelando a cada um o seu destino.
Uma formação guerreira como a dos sioux, não facultava para que um ou dois se tornassem grandes guerreiros, mas todos à sua medida, eram inspirados pelos seus irmãos heróis promovendo um clã poderosíssimo, tanto em valentia e honra, quanto em generosidade e humildade.
Toda a formação, educação e meios de vida dos Sioux levam seus integrantes a participarem de uma forma consciente dos aspectos invisíveis da natureza, sendo o ancião aquele que enxerga tão bem de um lado quanto do outro, essa mentalidade de domínio pessoal e de comunhão com a natureza os levaram a um ponto de vista bastante peculiar da morte. Para um guerreiro Sioux a morte não passa de um portal. Consideravam que a vida e a morte são uma mesma forma de energia, uma visivel e outra invisivel. A energia tem dois aspectos: tun, o aspecto visível e wakan, o invisivel; também se chama wakan a transformação do visivel em invisivel, e tun à metamorfose inversa. O nascimento se chama tunpi, pasagem de um estado invisivel a um estado visivel, a morte é wakan, pois é o processo inverso. O nascimento e a morte são mágicos, são as transformações das energias eternas. O sopro de vida se chama ni, sopro, vapor, vida, que vai em direção à morte.
Conta-se que ao nascer a criança recebe o sopro da vida(ni) de Takuskanskan, um espírito guardião que vem das estrelas e que quando morre, esse sopro volta para o espírito do Mundo, por um caminho invisível que simboliza a via-láctea.
Essa mentalidade perante a morte era o maior legado da educação guerreira que, não temendo o desconhecido, os Sioux poderiam caminhar em direção à morte, “ também conhecido como deixar cair o manto”, com a alegria própria dos grandes guerreiros que permanecem ainda hoje vivos dentro da história e do coração dos guerreiros atuais.
Cabe destacar dois grandes sioux, que magicamente se tornaram, pela forma de como viveram e morreram, símbolos de seu povo: Touro Sentado e Cavalo Doido.
Touro sentado era membro e chefe de uma poderosa sociedade de guerreiros, os Corações Fortes, sendo na realidade um “núcleo esotérico” . Touro sentado recebeu poderes do “Búfalo” e da Águia o canto que lhe transmitiu sua missão, por essa visão afirmava ser um enviado de Wakan Tanka para cuidar da nação sioux. Tinha a faculdade de compreender “a voz dos animais” (wama kas kan), de comunicar-se com eles, com os pássaros que lhe previam os perigos e também com a águia, um animal-poder. Touro sentado era um homem de constituição forte, com fortes mandíbulas, um verdadeiro touro que dirigia o povo sioux, pelo qual lutou, viveu e morreu. Grande líder, respeitado por todos, dirigiu inúmeras vezes a Cerimônia do Sol.
Cavalo Doido tinha a pele muito escura e cabelos castanhos, diferente aos cabelos negros dos índios. Era pequeno e magro. Tinha 13 anos quando buscou sua primeira visão, mas não pediu auxilio a nenhum wicasa wakan, o que não era comum. Recebeu seus poderes do “ Cavalo” e da Águia do oeste, trazendo o conhecimento da “mão esquerda”, por isso era conhecido também como guerreiro-esquerdo. Era um espreitador por natureza, fazia tudo ao contrário para através das reações analisar e descobrir as falhas de cada um. Num jantar quando todos se sentavam ele se levantava. As vezes montava o cavalo ao revés. Quando todos iam para a direita ele ia para a esquerda. Não participava das festas onde eram contados os feitos guerreiros e nunca participou da dança do sol. Suas ações eram bizarras, mas totalmente conscientes. Com essa conduta definiu, através das reações de Custer, a estratégia da vitória contra a 7a cavalaria em Litlle Big Horn.
Era além de um chefe guerreiro um grande chamãn. Ao contrário de outros famosos chefes índios, nenhuma fotografia foi tirada de Cavalo Louco, que costumava responder aos fotógrafos que o procuravam: “Meu amigo, porque você quer me encurtar a vida levando minha sombra?”.
Conta que com vinte e dois anos ganhou um feitiço onde nunca levaria um tiro.
General Crook, excelente atirador, disse que havia disparado 20 vezes, sem alcançá-lo.
Desses dois grandes líderes, temos mostras históricas de impecabilidade e magia: Touro Sentado pegou o seu cachimbo e se sentou a cem metros das filas índias , ao alcance das balas dos soldados. Começou a fumar tranquilamente. Voltou a cabeça para seus atônitos companheiros e lhes disse: “Os que queiram fumar comigo, que venham”. Dois sioux e dois cheyenes aceitaram o desafio. Um dos sioux, Touro Branco, relata: “Porém não perdemos tempo, fumamos o mais depressa que podemos. Ao nosso redor as balas levantavam o pó, e as ouvíamos sobre nossas cabeças. No entanto, Touro Sentado não tinha medo, estava sentado tranquilamente, como se estivesse em sua casa e fumava com parsimonia. Quando terminou seu cachimbo, se levantou e voltou para as linhas indias.
Cavalo Doido aproveitou o momento e deu uma impetuosa volta ao redor dos soldados, e nenhuma das 400 winchesters, com tiros ininterruptos, sequer tocaram a Cavalo Doido.
Cavalo Doido chamou a seus homens: “Hoka hey! É um bom dia para combater, é um bom dia para morrer. Adiante, corações forte e valentes! Atrás, corações fracos e covardes! Com esse espírito venceu Custer na batalha de Little Big Horn.
Com esse espírito, Touro Sentado e Cavalo Doido, marcaram de forma profunda a cultura marcial dos grandes guerreiros sioux.