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	<title>Instituto Internacional de Artes Marciais Filosóficas Bodhidharma</title>
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	<description>Canal de interação com os visitantes do site do Instituto de Artes Marciais Filosóficas Bodhidharma</description>
	<pubDate>Mon, 20 Oct 2008 14:32:31 +0000</pubDate>
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		<title>5. TEMPLÁRIOS</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Sep 2008 17:58:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Talal</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Cultura Marcial - Tema II]]></category>

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		<description><![CDATA[5. TEMPLÁRIOS
5.1. HISTÓRIA
Os Pobres Cavalheiros de Cristo e do Templo de Salomão — Pauperes Commilitiones Christi Templique Salomonis, ou simplesmente Templários, ou ainda o Templo, como ficaram conhecidos, conformam uma ordem militar monástica que existiu entre os anos de 1119 e 1312. Sua fundação se deu por iniciativa de um nobre francês chamado Hugo de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>5. TEMPLÁRIOS</p>
<p>5.1. HISTÓRIA</p>
<p>Os Pobres Cavalheiros de Cristo e do Templo de Salomão — Pauperes Commilitiones Christi Templique Salomonis, ou simplesmente Templários, ou ainda o Templo, como ficaram conhecidos, conformam uma ordem militar monástica que existiu entre os anos de 1119 e 1312. Sua fundação se deu por iniciativa de um nobre francês chamado Hugo de Payns, que juntamente com outros oito cavalheiros formou uma unidade militar que observava os votos de pobreza, obediência e castidade, com o objetivo aparente de dar segurança às rotas de peregrinos cristãos na Terra Santa, devido a numerosos ataques que estes sofriam de bandidos, em suas viagens ao Médio Oriente, principalmente a Jerusalém.<br />
O fato de o Templo ter-se tornado muito poderoso em poucas décadas, bem como o seu desaparecimento misterioso, após uma perseguição encabeçada por Felipe IV, o Belo, Rei da França, ensejou e enseja até hoje muitas especulações sobre os verdadeiros objetivos dessa ordem de cavalaria.<br />
Ao se analisar a história dos Templários dentro do contexto da Cultura Marcial, verifica-se que foram nada mais nada menos do que a mais formidável força de combate do seu tempo. Não simples máquinas de guerra, mas verdadeiros cavalheiros e guerreiros com um senso de transcendência do ato de lutar, ciosos de que a verdadeira batalha se trava no interior de cada um.<br />
O nome da ordem se deve a ter, quando da sua fundação, recebido como doação do patriarca de Jerusalém, para sua sede, o local em que existira o Templo de Salomão, destruído no ano 70 d.C. pelas legiões de Tito, após a retomada de Jerusalém pelos romanos depois de um levante dos judeus que durara cerca de três anos. Muito depois, foi construída a mesquita Al-Aqsa, no mesmo local, conhecido como a Cúpula da Rocha, pois ali os muçulmanos antes da conquista de Jerusalém pelos cruzados reverenciavam a “rocha negra” da qual o profeta Maomé teria feito sua subida aos céus, descrita no Alcorão como “o mais distante local da última viagem do profeta”. Com a fundação da Ordem, em 1119, o local que já fora sagrado para judeus e muçulmanos se tornava sede de uma ordem cristã.<br />
Além de grandes guerreiros, os Templários foram também magníficos construtores. Dentro das muitas propriedades que conquistaram como prêmios de batalha ou por doação de nobres simpatizantes que abraçavam a sua causa, construíram numerosos castelos, fortalezas, portos, estradas e catedrais. Conheciam as proporções mágicas, ou áureas, conseguindo reunir e harmonizar os três mundos, o inferior da matéria, com o domínio da arquitetura, em formas quadradas, o intermediário da alma, com o domínio da geometria com formas predominantemente triangulares, e o superior do espírito, com o domínio dos números, em formas circulares, a representar a perfeição.<br />
Todas as fortalezas construídas pelos Templários também tinham forma semelhante, atendendo a um padrão arquitetônico e funcional. A particularidade fica para a capela, sempre em formato octogonal, que é a forma, segundo eles, que congrega a dualidade do quadrado representando a matéria e a unidade do círculo representando o espírito.<br />
A forma simples como viviam os Templários, dentro dos seus votos monásticos, aliada à extrema confiabilidade que transmitiam e efetivamente exercitavam no seu dia-a-dia, trouxe ao Templo muitas doações e contribuições, como já foi dito. Isso tornou muito rica a ordem formada por cavaleiros pobres, a ponto de, além de auto-financiar suas campanhas militares, manter criações de animais, inclusive cavalos utilizados em combate e aparelhar suas tropas com os melhores equipamentos militares, poder emprestar dinheiro para muitos reis.<br />
A Ordem dos Cavaleiros Templários não estava subordinada às autoridades seculares, pois com o esfacelamento do Império Romano e a divisão feudal das terras, não havia um sentido de Estado com poder centralizado que pudesse fazer frente à organização da igreja católica. A estrutura de poder do reis medievais era precária, calcada mais na propriedade privada do que num sentido de poder público, e tendo-se em conta que o poder dos reis baseado na força dependia muito de alianças com nobres de menor envergadura, cuja fidelidade era volúvel, acompanhando seus interesses imediatos, dificilmente um nobre, ainda que fosse rei, conseguiria reunir soldados que pudessem se equivaler em eficiência bélica aos Templários.<br />
Tampouco dentro da estrutura da Igreja Católica Romana, que transcendia as fronteiras dos reinos, a Ordem do Templo se subordinava às autoridades eclesiásticas, estando inclusive isenta do pagamento do dízimo. O Grão-Mestre da Ordem reportava-se diretamente ao Papa e somente a ele. Deve-se, entretanto, ter em conta que essa subordinação a Roma era mais formal do que material. Difícil conceber que na prática o Papa tivesse meios para controlar ou se imiscuir nas atividades de uma organização imensa e acima de tudo poderosa.</p>
<p>5.2. HIERARQUIA</p>
<p>A estrutura militar de impressionante envergadura demonstra que os Templários eram um corpo disciplinado e coeso de monges-guerreiros que renunciaram ao seu alvedrio para obedecer, esperando-se tal comportamento até dos de mais baixa classe social quando em campanha ou durante a batalha. Assim era a sua hierarquia:</p>
<p>CAPÍTULO: assembléia de todos os cavaleiros, que elegia o Grão-mestre, admitia novos membros e participava na tomada de decisões importantes.<br />
GRÃO-MESTRE: controlava a estratégia, mas precisava da aprovação do Capítulo para alguns atos, como declarar guerra ou assinar trégua, alienar terras ou assumir a defesa de um castelo, nomear comandantes provinciais ou oficiais em chefe e acolher novos membros na Ordem. Podia ter em sua unidade doze cavalos. A expressão grão-mestre passou a ser mais utilizada a partir da metade do século XIII, antes se denominava Magister Militum Templi. Só respondia ao Papa e ao Capítulo.<br />
SENESCAL: responsável pela administração de terras, casas e mantimentos, e pela elaboração e guarda dos estandartes. Oficial superior que substituía interinamente o Grão-mestre quando este morria.<br />
MARECHAL: responsável pelo recolhimento e distribuição de todo o equipamento militar, inclusive os animais, sendo proibido aos cavaleiros lhe pedir determinado animal, sob pena de receber o pior.<br />
COMANDANTE DA CIDADE DE JERUSALÉM: responsável pela missão original dos Templários: proteger as rotas de peregrinos, para o que contava com dez cavaleiros, que em tempos de guerra formavam sua guarda pessoal.<br />
COMANDANTES DE TERRAS: atribuições similares às do Comandante de Jerusalém, em outras cidades. Tinham a obrigação de equipar os castelos e fortalezas sob o seus comando, com provisões de trigo, vinho, ferro, aço, couro, etc.<br />
COMANDANTES DE CASAS: estavam abaixo dos comandantes de Terras na estrutura hierárquica, sendo responsáveis por uma determinada propriedade, fosse castelo, casa ou fazenda.<br />
COMANDANTES DE CAVALEIROS: vinham abaixo dos anteriores, atuando como oficiais no campo de batalha. Deste grau para cima, era permitido levar estandartes, para servir de pontos de reagrupamento durante a batalha.<br />
IRMÃOS CAVALEIROS: levavam mantos brancos, que depois de 1147 passaram a ser estampados com a cruz vermelha de quatro hastes. Podiam dispor de quatro cavalos: um ou dois corcéis de guerra, um animal para montar (mula ou palafrém) e um cavalo de carga; um escudeiro para cada corcel de guerra. Essa era a unidade básica de guerra Templária.<br />
SARGENTOS: de origem não nobre, por isso pode dispor de apenas uma cavalgadura. Armadura mais leve, sem os pés blindados, para poder servir como soldado de infantaria. Usavam mantos marrons ou negros.<br />
CONFANONIER (abandeirado): dirigia as atividades dos escudeiros, que desempenhavam um papel crucial na hora de cuidar das montarias da Ordem e ajudar a seus senhores em campanha e durante a batalha.<br />
TURCÓPOLO: cavaleiros nascidos no Oriente, portanto adestrados nas técnicas de combate à maneira oriental. Exímios arqueiros, inclusive sobre o cavalo a galope.<br />
TURCOPLIER: oficial superior dos turcópolos. Quatro montarias. Posição intermediária entre sargentos e cavaleiros. Os oficiais sargentos estavam sob o seu comando.</p>
<p>5.3. SÍMBOLOS E CERIMÔNIAS</p>
<p>Em 1147, o Papa Eugênio III autorizou a utilização de um símbolo sobre os mantos brancos dos cavaleiros, que era uma cruz vermelha, com as quatro hastes de mesmo tamanho, alargando-se nas extremidades. Esse símbolo, que exotericamente representava o sangue do mártir sobre o branco da pureza, era no sentido esotérico da Ordem um escudo espiritual para proteger os cavaleiros em sua luta interior, que transcendia os limites da matéria.<br />
No mundo visível, eram protegidos pelo escudo, pela armadura e pelo elmo, todos concebidos em linhas curvas, denotando a intenção de desviar os golpes e não bloqueá-los. As armaduras eram leves, protegendo apenas partes vitais do corpo, pois os Templários entendiam que a melhor defesa em combate é a boa técnica e o espírito guerreiro.<br />
As espadas eram utilizadas na cintura com guarda cruzada, para permitir o desembainhar mais eficiente, em virtude do seu tamanho. O corte era duplo. A guarda reta, formando com o corpo da espada uma cruz.<br />
Todos os cavaleiros usavam barba e os mantos brancos com a cruz vermelha. Nenhum adorno ou item em metais preciosos era permitido, salvo com a autorização expressa do mestre. Nas montarias também não era permitido nenhum adereço extraordinário, o que fazia com que os cavaleiros Templários parecessem todos iguais. Essa uniformização tanto na aparência quanto na forma de combate é um código de várias culturas guerreiras, valorizando o sentido do conjunto e do bem maior pelo qual o guerreiro vive e morre, em detrimento da personalidade do indivíduo, que nenhum valor tem quando destacada do conjunto. Para outras culturas guerreiras, essa unidade era representada pela cidade, no caso destes cavaleiros, isso foi simbolizado pelo Templo.<br />
Outro símbolo bastante conhecido dos Cavaleiros Templários é o seu selo, que traz dois cavaleiros montando um mesmo cavalo, com os dizeres: Xpist (Cristo ou o Mestre); militum (serviço, militância); e sigilum (segredo ou silêncio).</p>
<p>Muitos significados foram atribuídos pelos estudiosos a esse símbolo, como por exemplo a pobreza, cujos votos seguiam. Mas a pobreza a que se submetiam aqueles que ingressavam nas linhas Templárias — se junto a um cavaleiro Templário morto em batalha fosse encontrado algum dinheiro, ele não seria enterrado no cemitério da casa do Templo, mas sim jogado aos cães; se o fato só fosse descoberto após o enterro, o corpo seria retirado de sua tumba para ser jogado aos cães — não significava a pobreza da ordem, muitos menos no que se referia aos seus instrumentos de combate, como armas e principalmente cavalos, que podiam ser em número de quatro — dois corcéis de guerra, uma montaria e um animal de carga — para cada um dos irmãos cavaleiros menos graduados, aumentando esse número na medida em que subisse a posição hierarquia do templário na Ordem.<br />
O verdadeiro significado desse símbolo é a representação do mestre e do discípulo, encontrada em toda a cultura marcial. Evidentemente, os Templários seguiam essa configuração clássica de transmissão do conhecimento, inclusive adotando o título de “grão-mestre” para seu líder. A clara e rígida organização hierárquica do Templo também indica o respeito que dedicavam à linhagem de mestres e ao voto de obediência, cuja compreensão consciente muitas vezes foge àqueles que não conhecem os códigos marciais.<br />
Também tinha extrema importância para os Templários o seu estandarte, conhecido como Bauceant — que era também o temível grito de guerra desses cavaleiros —, segundo alguns autores derivação da expressão vau cent (“vale cem”, isto é, cada Templário valia por cem inimigos).<br />
Certa feita, em uma campanha cristã no norte da África, um conde francês que chefiava a expedição solicitou auxílio aos Templários, que prontamente lhe enviaram reforços: vinte cavaleiros. O nobre mostrou-se irritado com o pequeno número de Templários, ao que o líder da unidade templária lhe respondeu: “Vocês têm que profissão? Ferreiros, agricultores, camponeses? Quantos são guerreiros, talvez dois ou três? Nós somos vinte guerreiros! Portanto, estamos em maior número do que vocês! Nos combates que se seguiram, o nobre cristão pôde efetivamente observar o que dissera o Templário. A confiança em sua capacidade de combate, aliada ao poder de viver por um Ideal maior, e à honra de morrer por esse Ideal, davam aos Templários uma força e uma coragem impressionantes.<br />
O Bauceant era dividido em duas metades, uma branca, uma negra, reforçando a idéia de dualidade. Exotericamente, o negro era “terror e morte ao inimigo” enquanto o branco representava “fé e caridade para os cristãos”. Esotericamente, as cores opostas representavam a eterna luta entre o bem e o mal, entre os demônios da personalidade e a elevação do espírito. No centro do estandarte, aparecia a cruz vermelha. E como moldura a máxima “Non nobis, Domine, non nobis, sed nomini Tuo da gloriam”.<br />
Essa máxima, que quer dizer “Nada para nós, Senhor, nada para nós, mas pela glória do Teu nome”, outro símbolo importante — talvez o mais importante — da Ordem dos Templários, traduzia e resumia o ideal do Templo: a entrega total! A devoção e a luta por um Ideal maior do que eles mesmos, representando toda a humildade do guerreiro perante os mestres e perante esse ideal, que lhes outorga o orgulho necessário para não temer inimigo algum em combate, seja ele físico ou não!<br />
Os estandartes, além da extrema importância estratégica em batalha, tinham significado muito profundo para o Templo, a ponto de uma das nove penitências punidas com a exclusão da Ordem — pena máxima — ser soltar ou abaixar um estandarte no campo de batalha, fosse por medo do inimigo, o que seria indesculpável, fosse mesmo para golpear um inimigo, o que seria desculpável segundo o discernimento dos irmãos caso nenhum dano tivesse daí decorrido.<br />
Dentre muitas cerimônias que faziam parte das liturgias do Templo, destaca-se a de recebimento de um novo membro na Ordem, que tinha um ritual um tanto extenso, que não vem ao caso aqui repetir, mas um ponto se destaca por traduzir o espírito desses notáveis combatentes. Depois de advertido de todas as agruras que representava o ingresso nas linhas templárias, pois todos os desejos da personalidade seriam quebrados: “se desejas estar deste lado do mar, te enviaremos ao outro; (&#8230;) se desejas dormir, serás despertado; se desejas estar desperto, se te ordenará que descanses em tua cama&#8230;”, depois de pedir, diante de Deus, do seu mestre e dos seus irmãos, acolhida naquela companhia, da qual desejaria ser um servo e escravo para sempre, de ser sabatinado com perguntas e repetir uma série de promessas, o mestre oficiante lhe respondia: “E nós (&#8230;) te prometemos pão e água e as modestas roupas desta casa, e muita dor e sofrimento”.<br />
A aceitação de um novo irmão não era ato isolado do Grão-Mestre. O Capítulo se reunia, e qualquer um dos cavaleiros presentes que tivesse uma objeção ao ingresso do novo pretendente poderia dizê-lo, vetando sua entrada.</p>
<p>5.4. TRADIÇÃO E CULTURA GUERREIRA</p>
<p>Dentro dos códigos marciais, sempre há um lutador ou guerreiro com uma superioridade técnica e grandeza interior tão distintas, que o tornam muito difícil de ser batido, mesmo por maior número de oponentes. Um guerreiro como esse dentro de uma armadura de quota de malha que o torna invulnerável nos pontos mais sensíveis, com a cabeça também protegida por um elmo de aço, um sólido escudo sustentado em um dos braços, na outra mão uma longa espada de duplo fio, sobre um grande cavalo europeu de floresta, era ainda muito mais difícil de ser combatido. Oitenta, cem, trezentos guerreiros como esse, lado a lado em linha cerrada, todos imbuídos de uma disciplina de monge, da vontade de entregar sua vida por algo maior, e de uma ferocidade em combate, cujo código de honra expressamente proibia que deixassem o campo de batalha se estivessem em proporção contrária menor do que “um para sete, cinco para cem, e cem para dez mil”, eram praticamente imbatíveis!<br />
Essa é apenas uma vaga imagem do que era uma pequena unidade templária em batalha. Esses cavaleiros que todos os dias, ao nascer do sol, cravavam suas espadas no chão, simbolizando a união de céu e terra, e com o joelho direito em terra aguardavam o primeiro verde raio de sol para orar, pedindo a Deus que no dia que começava tivessem o que mereciam, nada mais, nada menos. Ao voltar-se diariamente para algo maior, os Templários ganhavam um poder que não era dado a outros soldados. Ao se ligar humildemente a um plano superior, os Templários promoviam a sua união horizontal, tornando-se “irmãos” — que era o tratamento dispensado entre os cavaleiros do Templo —, o que gerava a homogeneização daqueles cavaleiros que vinham de diferentes países, culturas e famílias, com formações e educações distintas.<br />
Ao se tornarem “irmãos”, todos os cavaleiros Templários se defenderiam uns aos outros como ninguém no campo de batalha. Aqui se fecha o elo que torna a corrente indestrutível: a ligação de cada um ao Ideal Superior e, ao mesmo tempo, a ligação com aquele que ao final é quem luta e morre ao seu lado na batalha.<br />
O Templo aceitava aspirantes independentemente de sua origem, nacionalidade ou raça. Porém, para aspirar à condição de cavaleiro, era necessário nobreza. No momento de ingresso, essa nobreza era aferida pela origem familiar do cavaleiro, mas no decorrer de sua permanência no Templo, o cavaleiro devia entender que nobreza não é uma característica, mas um estado, um espírito. No momento em que esse espírito da nobreza, vindo dos deuses, abandona o coração do guerreiro, ele se torna pedra, como o ouro que perde o seu espírito cósmico se torna um metal qualquer, ele deixa de ser nobre e passa a ser um homem comum. O homem nobre pensa nos outros e no Ideal antes do que em si mesmo, enquanto o homem comum só tem ações comuns e não pensa senão em si mesmo. Quando um cavaleiro Templário deixava de ter o coração nobre, devia deixar as fileiras da Ordem, pois esta não era composta por homens comuns!<br />
A mesma humildade que os Templários cultivavam perante o mestre e o ideal transformava-se em altivez e orgulho perante seus inimigos. A vitória ou a morte eram os únicos destinos possíveis para um Templário, pois nunca eram mantidos prisioneiros pelo inimigo. A regra do Templo proibia que se pagasse resgate pelos prisioneiros. Os Templários nunca davam qualquer informação sobre suas posições, estratégias ou qualquer assunto militar ou esotérico da Ordem, nem mesmo sob tortura. Essas duas características, combinadas, os tornavam prisioneiros desinteressantes, o que levava os inimigos a executá-los sempre que conseguia prendê-los, o que não era tão freqüente.<br />
Certa vez, nas primeiras décadas de existência do Templo, um cavaleiro foi feito prisioneiro. Seu captor de início não entendia por que a Ordem se negava a pagar resgate. Procurava afetar a mente do cavaleiro, dizendo-lhe que seus superiores não se importavam com ele e que o estavam condenando a uma morte horrível. Como não se manifestava, levaram-no para uma câmara de tortura a fim de extrair dele informações sobre a ordem que o traíra. Os mais terríveis castigos físicos lhe foram impostos, durante vários dias, sem que uma palavra sequer fosse extraída dos seus lábios. Os torturadores já não tinham mais imaginação para prosseguir, quando o cavaleiro começou a sussurrar alguma coisa com a pouca energia que lhe restava. O algoz se aproximou, curioso, para ouvi-lo repetir sua máxima até que a vida deixou seu corpo. Aquele episódio se alastrou, criando para os Templários a fama de guerreiros duros e de prisioneiros inúteis, duas razões para matá-los sempre que possível.<br />
Foi muito raro observar ocasiões de combate em que se apresentassem mais de trezentos Templários juntos. Suas unidades de combate geralmente eram pequenas, algumas dezenas. Os cavaleiros Templários nunca transitavam sozinhos. Suas patrulhas eram sempre de dois homens, assim como em batalhas campais, para além da formação em linha de cavalaria, após a primeira carga, em que as linhas se desfaziam em meio ao inimigo, sempre havia duplas que se protegiam mutuamente dos ataques pelas costas, haja vista que em combates a cavalo as manobras de esquiva e contra-ataque para a retaguarda nem sempre são rápidas o suficiente. Muitas culturas guerreiras ao longo da história se utilizaram desse expediente em batalha, a exemplo dos dyas espartanos, e o conceito é válido até hoje, em exércitos e unidades policiais contemporâneas.<br />
Outra semelhança dos Templários com os espartanos é que muitas vezes quando um aliado lhes pedia reforços, enviavam um único guerreiro, que além de valer por muitos no combate, ali estava para ensinar e liderar, mostrando-se de muita valia. A diferença entre um guerreiro e um simples soldado, é que enquanto este é recrutado, aquele é voluntário. O guerreiro sempre sabe por que está lutando, enquanto o soldado muitas vezes o ignora.<br />
Os Templários não faziam treinamentos técnicos, pois a destreza nas técnicas de combate era um pressuposto para o ingresso na Ordem. Todo aquele que tinha ingresso concedido na Ordem já dominava, além das técnicas com a lança e a espada longa de duplo corte, também o uso da maça, do punhal e alguns cavaleiros o machado de duplo corte. Também era necessário o domínio das técnicas em que o próprio cavalo é utilizado como ferramenta de guerra, ao realizar movimentos no campo de batalha visando a atingir os adversários com seu lombo ou com as patas — mãos e pés do animal.<br />
Havia também na Ordem cavaleiros geralmente originários do oriente, chamados turcópolos que conformavam unidades ligeiras, com cavalos de estepe, menores e mais ágeis e rápidos do que os cavalos de floresta europeus, armados com cimitarras, mas sendo especialistas arqueiros que disparavam a galope. O que se acrescentava, portanto, à técnica de cada cavaleiro eram aspectos táticos, estratégicos e mágicos, o que lhes ampliava exponencialmente a eficácia e a eficiência bélica.<br />
A Regra tinha previsões claras sobre como se devia dar uma carga de cavalaria, bem como o reagrupamento e acampamento, o que demonstra o alto grau de organização militar e disciplina para observância das ordens em batalha. Enquanto outras unidades de cavalaria, ao fazer carga, se assemelhavam a jogar sementes sobre uma janela, isto é, primeiro chega uma, depois mais algumas e em seguida de um só golpe todas as demais, os Templários mantinham a unidade de suas linhas, atingindo a frente de batalha do inimigo como um só corpo. Só iniciavam o galope quando a menos de cinqüenta metros das linhas inimigas. A punição para qualquer cavaleiro que fizesse carga sozinho, desobedecendo ao seu superior era severa: faria o resto da batalha sem montaria, como soldado de infantaria, o que era a maior humilhação possível para um cavaleiro, pior do que a própria morte. O reagrupamento dos Templários também se realizava com disciplina admirável, o que lhes outorgava uma condição muito superior à de qualquer outra força militar da época. Quando um estandarte caía, deviam reagrupar-se perto de outro estandarte templário ou, na falta deste, de outra ordem de cavalaria, preferencialmente dos Hospitalários, com quem tinham excelente e fraterno relacionamento.<br />
Não foram poucas as vezes, durante as cruzadas, em que a disciplina dos Cavaleiros do Templo, a permitir velocidade e organização na reação contra um ataque inimigo, salvou os cruzados de derrotas retumbantes para os sarracenos.<br />
A Regra dos Templários não permitia que pagassem resgate por aqueles que eram feitos prisioneiros, o que ocasionava, geralmente, sua execução, quando caíam em mãos do inimigo. Em uma das vitórias obtidas por Saladino contra os cruzados, ele resolveu libertar todos os prisioneiros, mostrando compaixão, qualidade pela qual ficou historicamente conhecido. Mas essa compaixão não se estendeu aos prisioneiros Templários, que foram prontamente executados, haja vista que o sultão, como grande estrategista que era, sabia quão renhidos em combate eram aqueles homens para se permitir ter de enfrentá-los novamente.<br />
Geralmente, quando sofriam um revés no campo de batalha, as baixas dos Templários eram enormes, uma vez que não se deixavam prender com vida, nem abandonavam a luta. Seu código de honra proibia que um cavaleiro se afastasse de sua posição mesmo que estivesse ferido e “se por acaso ocorrer dos cristãos serem derrotados, que Deus os receba!” assim dizia a Regra. Há vários relatos históricos de que o Templo, durante o século XII, era um corpo compacto e muito coeso, caracterizado por uma disciplina férrea. Em 1188, quando Saladino sitiava a cidade de Darbsák, o historiador sarraceno escreveu impressionado seu relato de como os Templários da guarnição que defendia a cidade fecharam uma brecha que se abriu na muralha usando o próprio corpo “imóveis como uma muralha”, tão logo caía um cavaleiro entrava outro em seu lugar.</p>
<p>No final do século XIII, o Rei da França tomara emprestadas da Ordem vultosas quantias. O Tesouro Real ficava na fortaleza do Templo em Paris, o que tornava a França muito dependente dos Templários. O rei Felipe IV inicia então uma forte campanha contra o Templo, imputando-lhe crimes e condutas vis que jamais se comprovaram e conseguindo que o Papa iniciasse um processo de investigação.<br />
Em 1307, o Grão-mestre do Templo, Jacques de Molay, estava em Paris para o enterro de Catarina de Courtenay, cunhada de Felipe IV — tendo sido inclusive um dos que carregou seu caixão. No dia seguinte ao funeral, 13 de outubro de 1307, foi preso a mando do rei da França. Um dia depois, foi emanada ordem de prisão contra todos os Templários e seus bens foram seqüestrados.<br />
Até mesmo o Papa, subserviente a Felipe IV, indignou-se com a forma das prisões e escreveu-lhe indignado, mas os interesses do rei eram outros, pouco lhe importavam as objeções do Papa. O processo passou para as mãos da Inquisição, cujo líder era o confessor do Rei Felipe IV. A Inquisição se caracterizou pela possibilidade de prisão e seqüestro de bens antes mesmo de qualquer acusação formal, valendo-se os acusadores de quaisquer meios para provar as acusações iniciais que levaram à prisão, inclusive a tortura.<br />
Pouco mais de um mês depois das prisões, o Papa Clemente V voltou atrás em sua postura inicial e ordenou a prisão de todos os Templários, na Europa e no Oriente. Felipe tornou público o processo, com o fim de denegrir a imagem da Ordem. As acusações eram: negação de Cristo, idolatria, recusa dos sacramentos, absolvição por leigos, enriquecimento da ordem por todos os meios, prática de magia, costumes obscenos e sodomia.<br />
Mesmo com o expediente da tortura, nenhuma confissão foi extraída, baseando-se então as acusações em depoimentos de alguns sargentos e serventes, sem qualquer coerência, em que afirmavam terem visto “alguma coisa estranha” em cerimônias às quais não tinham acesso.<br />
Era de se pressupor que, como em qualquer outra organização, no Templo também houvesse círculos de acesso, sendo os mais internos reservados a membros mais afeitos às práticas da ordem e de consciência mais desenvolvida. Se a magia foi efetivamente trabalhada em um núcleo dentro da organização templária, adquirida a partir de conhecimentos secretos, ou não conhecidos fora da ordem ou nos seus círculos mais externos, não foi fruto senão de uma constante e inflexível disciplina interior, como parte de um processo de evolução espiritual.<br />
Os Templários de fato não adoravam a imagem do Cristo crucificado em que este aparecia com expressão triste e sofredora, por entenderem que não refletia a conduta do fundador da sua religião. É fácil entender tal comportamento. Se para simples cavaleiros a dor, a prisão pelo inimigo, com torturas cruéis, não levava a renegar a sua fé, a fornecer informações militares relevantes para o inimigo, seria inconcebível que o filho de Deus, o enviado do céu para guiar os homens, sucumbisse e fraquejasse diante da dor física. Preferiam então o Cristo Rei dos Reis.<br />
Alguns meses após a prisão de Jacques de Molay, noticiou-se sua confissão de todas as acusações que lhe eram imputadas e à Ordem. Se foi uma confissão legítima, obtida mediante tortura — lembrando que soldados desse nível não sucumbiriam facilmente a esse expediente — ou totalmente forjadas pelos acusadores, é difícil precisar. O que é fato é que quando diante da fogueira se solicitou ao Grão-Mestre que confirmasse sua confissão ele a negou, preferindo as chamas, tendo inclusive praguejado contra seus captores e acusadores: “A vida me foi oferecida, mas pelo preço da infâmia. Por esse preço, a vida não vale a pena ser vivida”. Tal conduta não condiz com quem confessa, espontaneamente ou por tortura.<br />
Já nos dias atuais, foi encontrado nos arquivos secretos do Vaticano um pergaminho até então desconhecido, nomeado pelos historiadores “Pergaminho de Chinon” que demonstra que o Papa os havia inocentado de todas as acusações, proibindo sua prisão, interrogatório e execução.<br />
Tal pergaminho jamais chegou a público na época, e, em 10 de maio de 1310, foram levados à fogueira cinqüenta e quatro Templários, incluindo o Grão-Mestre.<br />
Em 1312, o Papa lançou a bula Vox in excelso, que extinguia oficialmente a Ordem dos Templários, transferindo todos os seus bens para a Ordem dos Hospitalários.<br />
Por que morrer por um punhado de idéias, poderiam perguntar-se alguns. Os Templários não morreram por dinheiro ou por uma ideologia, mas sim por princípios muito claros para o valente e muito distantes e ininteligíveis para o covarde. Morreram pelo ideal guerreiro, guardado no mais interno de sua alma, e que não pode ser mudado ou extraído nem com a mais pérfida tortura ou com a morte mais dolorosa, morreram pela honra, morreram para que hoje, quase sete séculos depois, esta possa ser resgatada como valor primordial para a construção de um mundo novo e melhor!<br />
Mesmo depois da extinção formal da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, muitos ainda continuaram a acreditar na sua continuidade secreta. Não há nada que corrobore cientificamente essa tese. Mas o simples fato de os Templários ainda despertarem tanto interesse, de seus ideais ainda se prorrogarem no tempo, de ainda se querer imitar sua conduta moral, já atesta a sua imortalidade. O código pelo qual viveram e pelo qual morreram é um código conhecido, é um código marcial de honra e disciplina. Mudam as armas, mudam os trajes, mudam as palavras, mas não muda o ideal: travar uma constante luta interior, para o crescimento na vida espiritual. Transcender os limites da matéria, do corpo físico, e voltar-se para dentro, para aquilo que há de divino dentro de cada um. Encontrar o ouro alquímico da transmutação que se passa no coração do guerreiro. É isso que buscavam os cavaleiros do Templo. É isso que buscaram os guerreiros de diferentes lugares e de diferentes tempos e templos. É isso que busca o guerreiro de hoje!</p>
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		<title>6. OS SIKHS</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Sep 2008 17:57:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Talal</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Cultura Marcial - Tema II]]></category>

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		<description><![CDATA[6. OS SIKHS
“A realização da verdade é mais elevada do que qualquer outra coisa. Mais elevado ainda é levar uma vida veraz”
“Deus é único
Seu nome é a Verdade
Ele é o Criador
Ele é sem medo
Ele não tem inimizade com nada
Ele nunca morre
Ele está para alem do nascimento e da morte
Mortais obtiveram seus corpos humanos como resultado [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>6. OS SIKHS</p>
<p>“A realização da verdade é mais elevada do que qualquer outra coisa. Mais elevado ainda é levar uma vida veraz”</p>
<p>“Deus é único<br />
Seu nome é a Verdade<br />
Ele é o Criador<br />
Ele é sem medo<br />
Ele não tem inimizade com nada<br />
Ele nunca morre<br />
Ele está para alem do nascimento e da morte<br />
Mortais obtiveram seus corpos humanos como resultado de boas ações, mas só conseguirão alcançar o portão da salvação com a boa Graça de Deus”<br />
(Guru Nanak)</p>
<p>6.1 INTRODUÇÃO</p>
<p>Por volta do século XV d.C., do encontro de hindus e muçulmanos, surgiu no Punjab, região no noroeste da Índia, o Sikhismo, que abrange aspectos religiosos e guerreiros, o que apesar de aparentemente incongruente, também aparece em outras culturas marciais. Religião e formação guerreira não são dissociados.<br />
Entretanto, não se sabe ao certo se sua origem verdadeira foi a de uma comunidade guerreira (chatrya) que adotou nuances religiosas ou a de uma religião que adotou contornos guerreiros para operar num meio hostil.<br />
O nome Sikh provém de Sishya que significa “discípulo”. Existem pequenas comunidades Sikhs em praticamente todos os continentes, mas sua maior concentração é na Índia, onde excedem os 10 milhões.<br />
O fundador do movimento Sikh foi Guru Nanak (1469 – 1539), que pregou e viveu, assim como seus seguidores, uma vida de unidade com Deus, irmandade entre os homens, rejeitando o sistema de castas hindu e igualdade entre homens e mulheres, contrariamente ao que se adota no islamismo.<br />
Depois de Guru Nanak, outros nove mestres o sucederam na liderança dos Sikhs, sendo o último deles Gobind Singh (1666 – 1708), que desafiou o poder do imperador muçulmano Mughal, sendo derrotado. Depois de seu assassinato, a perseguição contra os Sikhs foi grande, mas lograram estabelecer um território razoavelmente grande no noroeste da Índia, sob a liderança de Ranjit Singh. Após sua morte, sem comando claro, os Sikhs se envolveram em confrontos com os invasores ingleses.<br />
Os ingleses os derrotaram, anexaram o Punjab, e com isso o Sikhismo sofreu um duro golpe, não se recuperando até o século XX, quando lhe foi concedido o controle de seus lugares sagrados (gurdwaras). Quando o subcontinente indiano foi dividido em 1947, o Punjab ocidental transformou-se território paquistanês e a porção oriental permaneceu na Índia.<br />
O início formal do Sikhismo é marcado pela era dos Dez Gurus, que começa com o Guru Nanak (1469-1538).</p>
<p>6.2 GURU NANAK</p>
<p>Guru Nanak nasceu na vila de Rai Bhoi di Talwandi, na região do Punjab. Desde tenra idade Guru Nank fez amizades entre crianças hindus e muçulmanas e sempre se mostrou muito inquisidor sobre o significado da vida. Aos seis anos ele foi mandado ao professor da vila para aprender matemática e a ler e a escrever em hindu. Ele sempre foi um aluno brilhante na literatura muçulmana e aprendeu o persa e o arábico. Era uma criança muito dotada que aprendia muito rápido e sempre questionava seus professores.<br />
Nanak demonstrou que o hinduísmo (movimento Bhakti) e o islamismo (movimento Sufista) tinham elementos em comum, que podiam permitir uma compatibilidade.<br />
Ainda jovem herdou o rebanho da família e, ao cuidá-lo, passava várias horas absorto em meditações e em discussões religiosas com muçulmanos e hindus que viviam nas florestas ao redor de seu vilarejo. Sua família pensou que se Nakak se casasse se interessaria mais pelos afazeres domésticos, deixando um pouco de lado suas divagações filosóficas. Foi então arranjado um casamento. Aos 16 anos, Nanak se casou com Sulakhani, filha de um rico mercador. Ele não apresentou objeção ao casamento, pois viu que a vida de casado não conflitava com sua busca espiritual. Amou muito sua mulher e teve com ela dois filhos, Sri Chand em 1494 e Lakshmi Chand três anos depois.<br />
Responsável agora por sua família, Guru Nanak aceitou um emprego de contador nas lojas do governador muçulmano Sultanpur Daulat Khan Lodi. Nanak juntou-se com seu amigo de infância muçulmano Mardana, que era um tocador de flauta profissional. Guru Nanak trabalhava durante o dia, mas bem cedo nas manhãs e tarde da noite ele meditava e cantava hinos acompanhado por Mardana no rabab (um instrumento de cordas). Essas seções atraíram muitas pessoas e muitos acabaram juntando-se aos dois.<br />
Certo dia, Nanak foi ao rio Bain para se banhar, mas depois de mergulhar não mais voltou à superfície. Foi dado como provavelmente morto afogado. Os moradores do vilarejo procuraram em vão por ele, vivo ou morto. Guru Nanak estava em sagrada comunhão com Deus, que o iluminou e o permitiu entender: “Não existe nenhum senão Um Deus, Seu nome é Verdade, Ele é o Criador, a nada Ele teme, Nele não permanece o ódio, Ele nunca morre, Ele está para além do círculo da vida e da morte, Ele é auto-iluminado, Ele se manifesta pela bondade do Verdadeiro Guru. Ele era verdadeiro no início, Ele era verdadeiro quando as eras começaram e sempre foi verdadeiro assim como ainda o é nos dias de hoje” (Japji)<br />
Relata-se que ele reapareceu depois de três dias, no mesmo lugar. Ele não era mais a mesma pessoa de antes, havia uma luz divina em seus olhos e seu rosto estava resplandecente. Deixou seu emprego, doou todos os seus bens para os pobres e, finalmente, proclamou: &#8220;Não existe hindu, não existe muçulmano&#8221;. Essa frase tornar-se-ia um dos pilares do Sikhismo.<br />
Depois desse episódio, Guru Nanak percorreu todo o Punjab pregando as palavras do Sikhismo durante 15 anos nos quais conseguiu muitos adeptos à sua doutrina. Quando estava com 30 anos, no ano de 1499, começou um novo estágio, realizando jornadas mais extensas para difundir sua religião e a mensagem de Deus. Durante todo esse tempo, Nanak se viu acompanhado de seu amigo tocador de rabab, Mardana, e utilizou os hinos para atingir mais profundamente as pessoas.<br />
Viajou pelo subcontinente Indiano e para além do leste, oeste, norte e sul para espalhar sua mensagem onde quer que fosse. Instalava-se em lugares públicos chamados manjis, onde seus seguidores podiam se reunir para recitar hinos e meditar.<br />
Quando Guru Nanak foi parado em Hardwar, um centro de peregrinação no rio Ganges, ele presenciou uma grande quantidade de devotos. Eles estavam tomando banhos rituais no rio sagrado e oferecendo água ao sol. Quando perguntou “por que vocês estão jogando água para cima dessa maneira?”, os peregrinos responderam que a estavam oferecendo aos seus ancestrais. Ouvindo isso, Nanak começou a jogar água para o lado oposto, para o oeste. Quando os peregrinos o indagaram o porquê de sua ação, Guru Nanak respondeu: “Eu estou mandando água para minha fazenda que é muito seca”. Eles então perguntaram como a água poderia alcançar sua plantação que estava tão afastada, e ele respondeu: “se a água consegue alcançar seus ancestrais na região do sol, por que não poderia alcançar minha plantação, que está muito mais perto?”. Os peregrinos entenderam o que Nanak disse e se jogaram aos seus pés, tornando-se seguidores do Sikhismo.<br />
Numa de suas peregrinações, Guru Nanak visitou Meca, Medina e Bagdá, vestido com a túnica azul típica dos muçulmanos. Chegando a Meca, adormeceu com seus pés voltados para o sagrado Kabba. Quando o vigia, em sua ronda, percebeu o Guru o chutou dizendo: “como se atreve a voltar seus pés para a casa de Deus?” Nesse momento o Guru acordou e disse: “Bom homem, estou cansado de uma grande jornada, por favor, me faça a gentileza de virar meus pés numa direção em que Deus não esteja”.<br />
Em seu regresso, parou em Saidpur, no oeste do Punjab, durante a invasão do primeiro Mughal, imperador Babar. Vendo o massacre realizado pelos invasores, Mardana perguntou ao Guru por que tantos inocentes morreram dentre poucos realmente culpados. Guru Nanak disse a Mardana para esperar debaixo de uma árvore, que logo lhe traria a resposta. Esperando o Guru debaixo da árvore, Mardana foi mordido por uma formiga e, em sua ira, matou quantas formigas conseguiu com seus pés. Guru Nanak lhe disse então: “Agora você sabe Mardana, por que os inocentes sofrem junto com os culpados?”<br />
Em outra oportunidade, um parente muçulmano perguntou-lhe se acreditava num só Deus. Nanak disse que sim e que era incompreensível, invisível, porém adorável. O parente, pensando que se referia a Alá, levou-o a uma mesquita para que orasse com ele, e assim fez Nanak. Ao final, o muçulmano felicitou-o por haver abraçado a nova fé dos conquistadores, mas Nanak lhe disse que não o havia feito. Seu parente, zangado, reprovou-lhe se haver prostrado sem fé, porém, Nanak lhe respondeu que não se assombrasse, pois ele mesmo, quando parecia orar, estava pensando em cavalos, e o próprio sacerdote cantor da mesquita oficiava mecanicamente enquanto pensava em seu gado enfermo. Constatados como verdadeiros esses pensamentos, Nanak passou a ser visto com grande respeito e temor.<br />
Nanak acreditava em uma sociedade sem castas, sem nenhuma distinção gerada pelo nascimento, religião ou sexo. Ele instituiu o refeitório comum chamado Langar no Sikhismo. Ali todos podem se sentar juntos e dividir uma refeição comum, sendo reis ou pedintes.<br />
Enquanto trabalhava no campo, um dia em 1532, Guru Nanak foi abordado por um novo devoto que disse: “sou Lehna”. Guru Nanak olhou para ele e disse: “Então você chegou Lehna. Eu estava esperando por você todos esses dias”. Lehna era um grande devoto do deus hindu Durga. Um dia, ouvindo falar de Guru Nanak e de seus ensinamentos, decidiu visitá-lo pessoalmente. Uma vez que Lehna encontrou Nanak, abandonou sua crença e se tornou um fiel discípulo. Com o tempo, tornou-se o discípulo mais ardente de Guru Nanak, que colocou todos os seus discípulos a duras provas e testes para ver quem seria o mais fiel. Um dia, acompanhado por Lehna e seus dois filhos, Guru Nanak passou sobre o corpo de um animal morto coberto por um pano e indagou: “quem comeria isto?” Seus filhos se recusaram pensando que seu pai tinha perdido o juízo, mas Lehna se abaixou e, ao tirar o pano, viu que o corpo era comida sagrada. Primeiro ofereceu ao Guru, repartiu entre todos e depois comeu.<br />
Guru Nanak então abençoou Lehna com sua mão e lhe deu um novo nome: Angad, dizendo “Você é parte de meu corpo”. Guru Nanak colocou 5 moedas em um coco na frente do Guru Angad e se curvou ante ele. Quando Guru Nanak reuniu todos os seus seguidores, disse para Angad ocupar o assento do Guru e lhe ordenou como seu sucessor.<br />
Sentindo que seu fim próximo, ouvindo os hindus dizerem que iam queimá-lo, e os muçulmanos que iam enterrá-lo, Nanak disse: “coloquem flores dos meus dois lados representando cada parte. O lado que tiver as flores frescas amanhã terá sua vontade realizada”. Pediu que rezassem por ele e que cobrissem seu corpo com um lençol. Então, em 22 de setembro de 1539, nas primeiras horas da manhã, Guru Nanak se fundiu com a luz do criador. Foi feito como pediu e, depois das preces, ao levantar o lençol que estava cobrindo seu corpo, havia apenas flores que estavam todas frescas.<br />
Tendo propagado suas convicções por toda a sua vida, Guru Nanak conseguiu desafiar e questionar as formas religiosas existentes na época e firmou os fundamentos do Sikhismo. Seus ensinamentos parecem basear-se fundamentalmente nos Upanishads. Eis aqui um fragmento: “Tu és Eu; Eu sou Tu&#8230;Qual é a diferença? O Uno está em Tudo e o Todo contém o Uno. Ele é Uno e Muitos. Não morre nem perece. Não vem nem vai. Nanak lhes disse que perpetuamente está contido no Todo”.</p>
<p>6.3 OS OUTROS GURUS<br />
6.3.1 GURU ANGAD<br />
O sucessor do Guru Nanak foi o Guru Angad (1539-1552), que recompilou hinos e escrituras sagradas, começando a ordenada recompilação do Adi Grantha Saheb, livro Sikh fundamental.<br />
Angad manifestou interesse na manutenção do físico e encorajava seus devotos a se engajar em esportes depois das orações matutinas.<br />
Vendo que Amar Das era o mais valoroso de seus discípulos e sentindo que seu fim estava próximo, Guru Angad anunciou Amar Das como seu sucessor. Os dois filhos de Angad não ficaram contentes com a decisão do pai, mas o Guru lhes disse que essa honra deveria ir para Amar Das, pois ele era o mais valoroso e humilde. Guru Angad se curvou diante de Amar Das, colocando cinco moedas de cobre e um coco diante dele, da mesma forma que Guru Nanak tinha feito anteriormente. Guru Angad deixou este mundo em 28 de março de 1552.</p>
<p>6.3.2 GURU AMAR DAS E GURU RAML DAS SODHI<br />
O terceiro Mestre chamou-se Amar Das (1552-1574) que chegou a ter contato direto com o próprio imperador muçulmano Akbar, o que demonstra a influência que o Sikhismo chegou a ter na época e suas tentativas de conciliar problemas religiosos e políticos entre um sistema cultural conquistador e uma velha civilização conquistada.<br />
O quarto guru foi Ram Das (1574-1581), que continuou os contatos com Akbar, que passou à História como um dos exemplos de imperador-filósofo. Ele cedeu a esse Mestre um território situado em Amritsar, onde Ram Das mandou construir uma famosa cisterna (espécie de poço de desejos e centro de peregrinação, além de suas utilidades físicas).</p>
<p>6.3.3 GURU ARJUN MAL<br />
O quinto guru foi Arjunmal (1581-1606), que erigiu um templo dourado como centro do Sikhismo. No princípio colocou-se sob a avocação de Hari Mandur, nome que encerra as chaves da Salvação, segundo o próprio Nanak, mas depois chamou-se Darbar Saheb, ou seja, a residência própria dos Sikhs. Em volta desse templo, agruparam-se famílias e detiveram-se mendicantes, e num processo parecido com o das sociedades de extramuros medievais no Ocidente, foi essa a origem do posterior estado Sikh. Este mesmo mestre publicou o Adi Grantha Saheb, com todos os agregados de seus antecessores.<br />
Arjun Mal reuniu os muitos escritos e hinos, que até sua época permaneciam separados e independentes. Esse processo de compilação continuou até ser concluído pelo décimo guru, Gobind Rai.</p>
<p>6.3.4 GURU HAR GOBIND E GURU HAR RAJ<br />
O sexto Mestre foi Har Gobind (1606-1645), que separou os Sikhs propriamente ditos de hinduístas e muçulmanos, convertendo-os em uma espécie de estado militar. Mandou empreender numerosas guerrilhas contra os muçulmanos.<br />
O sétimo Guru, chamado Har Raj, governou de 1645 até 1661. Foi de caráter mais pacífico e tratou de dulcificar os costumes adquiridos pelos Sikhs, porém, recrudesceram as guerras e teve que continuar batalhando, prevalecendo cada vez mais o militar sobre o religioso à maneira hindu. De certa forma, não se perdia o religioso, que era usado para lutar contra os muçulmanos de uma maneira mística “à muçulmana”, espécie de “Guerra Santa”.</p>
<p>6.3.5 GURU HAI RISHAM, GURU TEGH BAHADUR E GURU GOBIND RAI<br />
O oitavo Mestre foi Hai Risham (1661-1664). Morreu sendo ainda uma criança, e lhe sucedeu Tegh Bahadur (1664-1675), o nono Mestre, que morreu após grandes lutas em mãos do Imperador Aurangzib.<br />
Seu filho Gobind Rai Singh, décimo e último dos Mestres Sikhs (1675-1708), aperfeiçoou a organização militar Sikh e fechou as bases do Império do Punjab. Diz-se que, depois do assassinato de seu pai, viveu vinte anos escondido numa cova alimentando suas futuras realizações, entregue a grandes meditações. No final, decidiu que os Sikhs deviam separar-se não só dos muçulmanos, mas também de homens de qualquer outra religião, não se assemelhando mais com as outras seitas hinduístas nem de outras “confissões”. Para esse efeito, chamou cinco discípulos escolhidos e submeteu-os à cerimônia do Pahul ou Iniciação Militar.<br />
Gobind Rai concluiu a compilação dos escritos sagrados dos Sikhs que havia sido iniciada por Arjun Mal, o quinto guru. O volume resultante, que contém as doutrinas do Sikhismo, é chamado de Siri Guru Granth Sahib (também conhecido como Adi Granth), uma antologia dos escritos dos dez gurus, considerada como a bíblia Sikh. Deus, como confessado no Islamismo, é apenas um. Ele criou todas as coisas. A experiência para se chegar ao conhecimento do Todo-poderoso é alcançada através da meditação. Os Sikhs adotam o conceito hindu da samsara, karma e reencarnação. Ao nascer, o homem tem a oportunidade final de escapar da samsara.</p>
<p>6.4 TRADIÇÃO GUERREIRA<br />
6.4.1 OS KHALSA E OS CINCO K’S<br />
Os Sikhs são prontamente identificáveis por seus turbantes. Fazem votos para não cortar os cabelos e não fumar ou beber bebidas alcoólicas. Em 1699, Gobind Singh fundou uma fraternidade marcial chamada Khalsa (&#8221;puro&#8221;).<br />
Os Khalsas são os Sikhs que realizaram a sagrada cerimônia de iniciação do Amrit, iniciada pelo Guru Gobind Singh, em 30 de março de 1699, com o batizado de cinco Sikhs.<br />
Essa cerimônia consistiu numa grande prova de sacrifício para aqueles cinco guerreiros. Gobind Singh convocou os Sikhs e explicou que precisavam criar uma fraternidade de guerreiros cujo compromisso fosse ainda mais firme do que o dos sikhs em geral. Pediu que se apresentassem cinco voluntários dispostos a fazer qualquer sacrifício pelo povo Sikh.<br />
Cinco guerreiros se apresentaram, e Gobind Singh chamou-os um a um para entrar em sua tenda, que estava iluminada por dentro, de modo que todos que estavam do lado de fora apenas viam as sombras projetadas na parede da tenda. O primeiro guerreiro se aproximou do Guru Gobind e, depois de ouvir rápidas palavras, ajoelhou-se e pousou sua cabeça sobre um pedestal. Então, o Guru sacou sua espada e decepou a cabeça do guerreiro. Todos estremeceram do lado de fora, pois não imaginaram que o sacrifício solicitado fosse a própria vida.<br />
Gobind Singh saiu da tenda com a espada pingando sangue e chamou o segundo guerreiro, ressaltando novamente a necessidade de oferecer a própria vida em prol da causa. Os quatro voluntários se mantiveram fortes no seu ideal, e foram, um a um, entrando na tenda, onde a cena do primeiro se repetia.<br />
Todos entenderam a mensagem do Guru e, depois disso, centenas de homens e mulheres se apresentaram como voluntários para dar a vida ao Guru. Porém, este pediu que os cinco guerreiros aparecessem, pois a decapitação fora apenas uma encenação para extrair de cada Sikh o que havia de mais puro no seu coração e o compromisso mais profundo possível. Centenas foram batizados pelo próprio Guru, adentrando na ordem Khalsa.<br />
A Cerimônia de iniciação da ordem é tida como parte da evolução espiritual e se dá quando o iniciante está pronto para viver completamente as expectativas do Guru Gobind Singh. Espera-se que todos os Sikhs se tornem Khalsas ou que estejam trabalhando para alcançar esse objetivo.<br />
A cerimônia de batismo Khalsa consiste em beber do Amrit (água açucarada oferecida em uma adaga), na presença de cinco Sikhs membros do Khalsa, assim como na presença do Guru.<br />
Então o iniciado é requisitado a usar os símbolos físicos do Khalsa todo o tempo, assim como seguir sempre o código de conduta Khalsa.<br />
Os Khalsas são líderes guerreiros e, em conjunto com o Guru Granth Sahib, conformam o núcleo do sikhismo pós-dinástico que dura até hoje.<br />
Mais do que líderes políticos, os Khalsas são os patriarcas das famílias, as células do Estado. É de sua responsabilidade manter sua família na direção de Waheguru. Os Khalsa também são líderes guerreiros e desempenham o papel de generais e tropas de elite na sociedade Sikh.<br />
O código de ética khalsa, em cujas diretrizes o guerreiro khalsa é instruído desde o seu batismo, consiste, resumidamente, nas seguintes regras:<br />
• cultivar o Deus único e meditar diariamente em seu nome;<br />
• adorar somente a Deus, e não confeccionar ídolos de deuses ou estátuas para adoração, nem adorar o ser humano;<br />
• não acreditar em nenhum outro livro religioso a não ser o sagrado Guru Granth Sahib, ainda que seja permitido estudar qualquer livro religioso para adquirir conhecimento e para estudos comparativos;<br />
• não acreditar em castas, intocabilidade ou mágica, amuletos, astrologia, rituais, cortes de cabelo cerimoniais, máscaras, túmulos e ritos tradicionais para aos mortos;<br />
• respeito pelas pessoas de outras religiões;<br />
• guardar seus símbolos e viver de acordo com os ensinamentos dos Gurus;<br />
• não ter castas depois de agregados à irmandade e não seguir cerimoniais, ritos ou cultos não sikhs;<br />
• nunca remover nenhum pêlo de qualquer parte de seu corpo;<br />
• não usar álcool, tabaco ou qualquer outro intoxicante;<br />
• não comer a carne de nenhum animal morto da forma muçulmana;<br />
• não cometer adultério;<br />
• não cometer ofensas sociais, como erigir monumentos em túmulos, ou se embebedar;<br />
• contribuir com um décimo de sua renda para fins religiosos;<br />
• servir à comunidade no que ela necessitar;<br />
• praticar as armas e estar pronto para defender os fracos;<br />
• aprender o Punjabi e ensinar as crianças a lê-lo, ainda que possa aprender tantas línguas quantas quiser;<br />
• acrescentar Singh (Leão) depois de seu nome se homem, e Kaur se mulher;<br />
• não furar suas orelhas ou narizes e nunca devem manter afinidade com aqueles que matam suas filhas;<br />
• as mulheres Sikhs não usam véu;<br />
• viver honestamente de seu trabalho e dar generosamente aos pobres;<br />
• nunca roubar ou jogar;<br />
• vestuário simples e modesto;<br />
• saudar outro Khalsa dizendo: Waheguru Ji Ka Khalsa, Waheguru Ji Ki Fateh (O Khalsa pertence a Deus, a Vitória pertence a Deus);<br />
• manter a palavra empenhada a qualquer preço.</p>
<p>Segundo essas diretrizes, os sikhs mantinham constantemente um grupo de fiéis zeladores do Estado, expoentes no domínio da doutrina Sikh e exemplos a serem seguidos, inspirando os mais jovens e honrando os mais velhos. Um grupo de elite pronto para qualquer eventualidade.<br />
A doutrina nos cinco elementos aparece em várias tradições guerreiras, como os manípulos dos romanos representando os cinco dedos da mão, os manitous dos sioux igualmente representados pela mão, dentre outras. Dentre os Sikhs, ela aparece na forma dos cinco “K’s”, votos feitos pelo Khalsa tão logo era batizado, e símbolos que este deveria ostentar e seguir.<br />
Esses símbolos (os K’s), que foram determinados pelo último Guru, Gobind Rai Singh, têm dois sentidos, um interno e outro externo:<br />
1. kesh: o cabelo e barba longos. Externamente, servia para distinguir mais facilmente um Khalsa em meio à multidão. Internamente, era símbolo da resignação à vontade de Deus;<br />
2. khanga: uma presilha consistente num pequeno pedaço de madeira para prender os cabelos. Externamente, permite que os cabelos não atrapalhem a visão em combate. Internamente, representa a pureza e a limpeza;<br />
3. kora: um bracelete de aço usado no pulso direito, ajudando também na distinção dos khalsa entre a multidão, e representando a fé do seu portador como forma de lembrá-la sempre;<br />
4. kocha: uma bermuda de soldado usada como roupa de baixo, que permite maior mobilidade aos soldados e simboliza o compromisso interno com o ideal Sikh;<br />
5. kirpan: espada Sikh. Usada para a defesa dos fracos e necessitados e para a defesa do Estado Sikh. Internamente, representa a vontade e o compromisso do guerreiro Khalsa.</p>
<p>6.4.2 CERIMÔNIA PAHUL – O BATISMO PELA ESPADA</p>
<p>Na cerimônia Pahul, o Guru verte dentro de um grande cubo de água porções de cinco manjares especiais que sua própria esposa prepara e revolve energicamente a água com uma espada de duplo fio; unta com a mescla os cinco discípulos e depois a dá para beberem. Então, são proclamados Khalsa (puros) e lhes é ordenado agregar ao nome o epíteto de Singh (leão).<br />
É-lhes ensinado que em qualquer lugar que os Sikhs se reúnam, o Espírito descerá sobre eles e poderão conferir essa Iniciação.<br />
Para se tornar um khalsa o Sikh passa por essa cerimônia de Batismo pela Espada, cerimônia de iniciação que simboliza a implantação dos khalsa pelo Guru Gobind Rai Singh.<br />
A cerimônia se dá com cinco membros do clã recitando orações e mantendo a espada de duplo fio (Khanda) dentro de um recipiente cheio da mescla antes mencionada, chamada Amrit (néctar). Depois de recitadas as orações, o Sikh que deseja ingressar no círculo bebe a água desse recipiente. Espera-se assim que ele entenda as responsabilidades de um khalsa Sikh. Os iniciados prometem manter uma vida de pureza, em concordância com os ensinamentos dos Gurus.<br />
Os khalsa são tidos como guerreiros santos não só porque juraram seguir o caminho dos gurus, mas porque historicamente mantiveram presença na defesa de seus irmãos, famílias e Estado, defenderam sempre os indefesos e eles mesmos, usando a força se necessário.<br />
Além da figura prática representada pelos khalsa, eles eram responsáveis pelas suas famílias, representavam tanto os gurus como o próprio Waheguru, mantinham a estrutura do estado unida em sua essência e sua identidade. Devido a esse poder gregário, os Sikhs mantinham a tradição da união, tão manifestada nas tribos guerreiras. Eles faziam tudo juntos, fosse nas famílias, fosse no Estado, realizavam seus ritos e cerimônias em conjunto, mantendo essa união que se expressava nas refeições coletivas que realizavam após o culto e leitura das escrituras dos gurus.</p>
<p>6.4.3 ESTADO SIKH</p>
<p>Gobind Rai Singh, o último Guru, foi general dos exércitos Sikhs e ainda que no princípio tenham obtido boas vitórias, reforços de tropas muçulmanas vindas do norte foram desgastando suas fileiras, que apesar de bravas eram pouco numerosas. Gobind Singh é assim derrotado e posto em fuga com o resto de seus exércitos. Porém, em manobra desesperada, logra reagrupar com velocidade incrível sua desorganizada tropa e vence surpreendentemente os muçulmanos na famosa batalha “Da Fonte da Salvação”.<br />
No final de sua gloriosa vida, Gobind Singh publicou o último Livro Canônico, chamado O Livro do Décimo Rei, como complemento do Adi Grantha Saheb. Sua morte ocorrei numa passagem que a história recorda obscuramente e que parece ser mais mítica do que real, já que diz que Gobind, por haver matado um homem do povo que o ofendeu, cuidou de seus filhos, que já crescidos e a seu próprio pedido, vingaram seu pai, matando o próprio Gobind.<br />
Com a sua morte, governaram os Khalsas, com um Conselho Central, os Mestres Mata, que se regiam pelos Livros Sagrados. Cabe destacar que O Livro do Décimo Rei havia abolido, de fato, as castas, como já pregava muito antes Guru Nanak.<br />
Os sucessores de Gobind Raj Singh enfrentaram duras perseguições na região do Punjab, governada pelos muçulmanos. A tolerância desenvolveu-se gradualmente, quando os afegãos e persas invadiram a região e finalmente assumiram o poder. Em 1797, foi criado um Estado Sikh, por Raujit Singh, conhecido como o “Leão de Punjab”, que morreu em 1839.<br />
Depois de sua morte, o Império Sikh afundou-se em luta praticamente contra todos. Resistiram ao protetorado inglês em duas guerras (1843-1846 e 1848-1849), mas os britânicos conquistaram-nos em 1849. Várias facções desenvolveram-se dentro do Sikhismo no século XIX. As relações com os ingleses eram consideravelmente melhores do que haviam sido com os dominadores muçulmanos, mas o massacre de civis em Amritsar em 1919 resultou no crescimento da amargura dos Sikhs contra seus &#8220;dominadores imperialistas&#8221;. Muitos deles uniram-se ao movimento de Mahatma Gandhi contra o domínio britânico.<br />
Em 1947 ocorreram grandes mudanças culturais e demográficas, quando a Índia tornou-se independente. A terra foi repartida no que atualmente é o Paquistão, no norte e oeste e a Índia ao leste e sul. Devido ao confronto entre os grupos religiosos, 2,5 milhões de sikhs foram obrigados a abandonar o Paquistão e mudar-se para a Índia. Isso ocasionou mais violência, quando os muçulmanos, por sua vez, mudaram-se para o Paquistão. Os sikhs, por causa de seu crescimento, sempre desejaram constituir uma nação independente, o que gerou contínuas explosões de violência contra o governo, que culminou com o ataque do exército indiano, em junho de 1984, contra Harimandir, o santuário Sikh mais sagrado.<br />
Em outubro do mesmo ano, a primeira ministra Indira Gandhi foi assassinada por dois de seus guarda-costas. Isso intensificou a tensão entre sikhs e hindus e precipitou mais violência. A tensão diminuiu em 1989, quando o primeiro ministro Rajiv Gandhi anunciou que todos os militantes sikhs presos depois do ataque de 1984 seriam soltos. Os sikhs ainda lutam pela formação de um estado independente.</p>
<p>6.4.4 DOUTRINA SIKH</p>
<p>A doutrina Sikh está profundamente ligada à formação de uma identidade tanto formal quanto ideológica de seu povo, tendo como meta gerar uma condição de defesa imediata a qualquer conflito iminente.<br />
Internamente, o Sikhismo consiste na concepção de um único Deus anterior e criador de tudo e todo poderoso. Todas as coisas existentes partem desse espírito primeiro, que se denomina Waheguru. Tudo o que acontece no universo parte da vontade de Waheguru, e a existência de todas as coisas é o testemunho de sua própria existência.<br />
Tudo que existe no universo tem duas partes: uma é a sua manifestação, seu corpo, e outra é a sua essência, o sopro que Waheguru inspira em tudo. Portanto, em essência, tudo e todos somos um só e esse ponto se encontra em Waheguru.<br />
Externamente, o referencial da doutrina Sikh leva a uma forma muito prática de vida e ao desenvolvimento de uma unidade muito concreta e viva entre o povo, além de uma moral muito restrita, como se pode observar em quase todos os povos guerreiros.<br />
O fato de Deus estar em todas as coisas leva os sikhs a se tornarem muito amáveis e bondosos, segundo os ensinamentos de seus Gurus. Os sikhs são incentivados a prestar auxilio a todo e qualquer ser necessitado e a fazer isso por amor a Waheguru, que se manifesta pelo ser necessitado.<br />
Por esse mesmo fato, todo e qualquer ato que leve ao sofrimento de alguém é condenado pelos sikhs; o furto, o adultério e os meios ilícitos são estritamente proibidos e, durante toda a vida, desde a infância, um Sikh é encorajado a ganhar a vida de forma honesta, sendo merecedor de tudo aquilo que pode conquistar pela vontade de Deus.<br />
Isso se observa nos relatos das vidas dos Gurus que, em batalha, curavam não só seus soldados, mas também seus inimigos. Demonstravam falta de interesse para com as pessoas com fraca disposição de caráter, que levavam uma vida sem honra e sem dignidade.<br />
Também eram muito devotos e meditativos sendo absorvidos na contemplação e oração por várias horas do dia, recitando hinos legados pelos Gurus para sempre manter seu referencial e não se esquecerem do caminho a ser trilhado.<br />
Por mais que os Sikhs fossem benevolentes, sempre foram um povo guerreiro e sempre tomaram as armas para defender sua religião, suas famílias e seus meios de vida. Os Sikhs nunca foram expansivos, mas tampouco foram coniventes com nações que buscassem subjugá-los.</p>
<p>6.4.5 FORMAÇÃO GUERREIRA</p>
<p>As crianças Sikhs eram educadas pelas palavras dos Gurus e pelo Guru Granth Sihib, seu livro sagrado. Desde tenra idade, participavam das funções do estado, realizando trabalhos menores, como manutenção de criações e pastoreio, gerando um compromisso com a sociedade e um senso de responsabilidade.<br />
Conforme seu desenvolvimento, o infante assumia funções mais expressivas, sempre sendo educado a seguir os retos meios de vida pregados pela religião sikh, até ser intimamente ligado aos negócios da família. Durante sua formação pessoal, as lutas em arenas e a prática da guerra eram matérias obrigatórias a todos os jovens.<br />
Já na idade adulta, aqueles que decidem seguir o caminho dos Gurus, podem se tornar khalsa, os guerreiros santos que assumem o lugar de corpo na dinastia dos Gurus.<br />
A arte marcial praticada pelos Sikhs é chamada de Gakta, mesmo nome de um bastão usado para os treinamentos de lutas com espada. Esses treinamentos marciais são diários, começando já na infância. As crianças começam a aprender desenvolvendo a observação, através do acompanhamento das práticas ministradas pelo Guru. As demonstrações públicas dessas habilidades marciais também são freqüentes e começam já na infância.<br />
Na educação Sikh referente aos valores guerreiros, desde cedo lhes é ensinada a importância da higiene, que se reflete no cuidado que dedicam aos cabelos, sempre limpos e arrumados de forma a não ficar um único fio solto. Essa também é uma forma de vivenciarem a impecabilidade do guerreiro, que deve estar presente em todo e cada um de seus atos, inclusive nas palavras que profere. Um Sikh tem sempre que manter a qualquer custo a palavra dada. Por isso, jamais proferem comentários negativos ou inúteis.</p>
<p>6.4.6 ARMAS MÁGICAS</p>
<p>O Sikhsmo é simbolizado pelo Khanda, no qual constam suas quatro armas mágicas: a espada de duplo fio, khanda, de onde o símbolo tira seu nome, que representa o conhecimento do divino e o poder criador de Deus; cercando o khanda está a Chakkar, uma arma circular medieval que simboliza a unidade de Deus; dos lados, estão duas adagas cruzadas, os kirpans, simbolizando os poderes temporais e atemporais.<br />
Esse símbolo se encontra na entrada de todos os templos, Guradwaras, dos Sikhs.</p>
<p>6.4.7 ESTÁGIOS DE DESENVOLVIMENTO ESPIRITUAL SIKH</p>
<p>Os níveis de evolução espiritual dentro da tradição Sikh eram os seguintes:<br />
1. Manmukh: uma pessoa que é egoísta e só pensa em si mesma e no mundo material que a cerca e está completamente apático a Deus;<br />
2. Sikh: qualquer um que determina para si o caminho de aprendizado com o ponto de destino final especificado pelos Gurus, que aparece no Reht Maryada (código de conduta oficial);<br />
3. Khalsa: total dedicação ao Sikhismo. Aquele que abdicou de sua personalidade para viver as verdades em honra da memória do Guru Gobind Singh através de suas ações e feitos;<br />
4. Gurmukh: quem atingiu mukhti (salvação) e está totalmente centrado em Deus.</p>
<p>6.5 CONCLUSÃO</p>
<p>Através da sua vida simples, intimamente religiosa, de sua união conquistada pela devoção, fervor religioso e do sangue derramado em várias batalhas e ainda de uma conduta moral bem restrita, sem espaço para os ditames da personalidade, os Sikhs conquistaram seu lugar na história e desfrutam internamente de sua paz guerreira, conquistada diariamente na luta interior por seus ideais.<br />
Esse povo guerreiro é mais um referencial e exemplo de coragem, força, perseverança, sacrifício e bondade para todos os povos e gerações.</p>
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		<title>7. OS ESPARTANOS</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Sep 2008 17:54:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Talal</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Cultura Marcial - Tema II]]></category>

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		<description><![CDATA[7. OS ESPARTANOS
“Este é o meu escudo.
Em combate, eu o levo à minha frente,
mas ele não é só meu.
Protege o meu irmão à minha esquerda.
Protege minha cidade.
Nunca deixarei meu irmão
fora de sua proteção
nem minha cidade sem o seu resguardo.
Morrerei com o meu escudo em minha frente
enfrentando o inimigo.”
E Tan E Epi Tas – “Com o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>7. OS ESPARTANOS</p>
<p>“Este é o meu escudo.<br />
Em combate, eu o levo à minha frente,<br />
mas ele não é só meu.<br />
Protege o meu irmão à minha esquerda.<br />
Protege minha cidade.<br />
Nunca deixarei meu irmão<br />
fora de sua proteção<br />
nem minha cidade sem o seu resguardo.<br />
Morrerei com o meu escudo em minha frente<br />
enfrentando o inimigo.”</p>
<p>E Tan E Epi Tas – “Com o meu escudo ou sobre ele”</p>
<p>7.1 INTRODUÇÃO</p>
<p>Ao se tratar do tema Cultura Marcial, é impossível prescindir de falar de Esparta e dos espartanos. Homens valentes que nunca perguntavam quantos eram o inimigo, mas somente, onde estavam. O termo espartano se tornou ao longo do tempo sinônimo de bravura, de disciplina e de guerreiro.<br />
Esparta foi uma cidade-estado situada no Peloponeso, Grécia. Ao contrário de suas irmãs helenas, que ostentavam grandes edifícios, monumentos, estátuas, escritos e filósofos, Esparta tinha para oferecer apenas espartanos e o seu ideal de vida, um ideal de bravura, de honra e de valor.<br />
Mesmo nunca tendo ultrapassado os 50.000 habitantes, dos quais apenas 8.000 considerados verdadeiros espartanos, essa cidade conseguiu sustentar durante séculos a hegemonia na Hélade, graças à determinação de seus homens e mulheres. Dizia-se que o seu sucesso bélico se devia menos ao fato de serem melhores guerreiros do que os demais gregos do que a estarem mais acostumados a suportar os dissabores da guerra. Onde a psiquê de outros homens se desmantelava a dos espartanos se regozijava.<br />
Grande parte do que chega aos dias atuais da história sobre os guerreiros espartanos é por meio de contos sobre seu estilo de vida e seus feitos heróicos, que muitas vezes chegam a parecer sobre-humanos, quando analisados pelo prisma da civilização atual. O que muitas vezes escapa nas narrativas dos historiadores antigos e modernos são os motores que permitiram aos espartanos levar essa forma de vida.<br />
Os reis de Esparta diziam-se descendentes diretos de Herácles e sempre governavam aos pares. Havia um rei para a paz, que cuidava dos assuntos políticos e administrativos do Estado, e um rei para a guerra, que liderava as constantes campanhas militares da cidade.<br />
A atividade dos reis era controlada por cinco magistrados, denominados “Éforos”, a respeito dos quais as informações são parcas, sabendo-se apenas que eram iniciados e que conduziram o processo de formação de Esparta.<br />
No processo de transição entre a Esparta que era uma cidade grega como outra qualquer, que se observa nos relatos sobre a guerra de Tróia e seu rei espartano Menelau, marido de Helena, e a Esparta de Leônidas, que ficou conhecida, dentre outros episódios, pelo dos Trezentos e as Termópilas, houve um rei que teve papel preponderante: Licurgo (Likurgus).</p>
<p>7.2 LICURGO (O ESPANTA LOBOS)</p>
<p>A característica bélica e disciplinada de Esparta não surgiu aleatoriamente. Até chegar a toda a sua potência, os povos da Lacônia — região da península do Peloponeso — eram organizados em tribos e coligações e começaram a adquirir as características de um povo coeso depois das migrações Dóricas do séc. IX a.C.<br />
Nesse contexto, os reinados e as sucessões eram muito conturbados, e a luta pelo poder era constante. Foi nesse momento histórico que nasceu Licurgo, figura-chave da história espartana. Conta-se que Licurgo era um líder nato que se tornou dirigente na figura de regente no reinado de seu sobrinho, que não tinha idade suficiente para assumir o trono.<br />
Segundo Plutarco, depois que seu sobrinho adquiriu idade para reinar, o povo clamou por Licurgo, pedindo que este não deixasse o poder. Incomodado com a situação que entendia ser pouco ética, deixou o poder para seu sobrinho e foi para Delphos consultar o deus Apolo. Pediu ao deus permissão para formar uma constituição digna de seu povo, tendo obtido resposta favorável. Licurgo então viajou por várias partes do mundo, coletando informação sobre os diversos povos da época e, depois de muitos anos, retornou a Delphos pronto para implantar novas medidas junto a seu povo.<br />
Pediu novamente conselhos ao Deus, que lhe deu as indicações necessárias para cumprir seu intento. Retornou a Esparta e lá foi aclamado por seu povo. Em conjunto com alguns ilustres cidadãos, formulou as famosas “leis de Licurgo”, colocando-as em vigência e se preocupando mais com a aplicação da mentalidade de união e vivência das virtudes do que com as leis propriamente ditas, o que, segundo Plutarco e outros cronistas, foi o grande segredo de seu sucesso.<br />
Foi então reformulada a cúpula do Estado, criando-se então o senado (gerusia), composto por 28 membros ilustres acima de 60 anos e os dois reis, e a assembléia do povo (apella). Na assembléia, somente os reis e os senadores podiam propor medidas. Para regular esse poder havia um colegiado de cinco éforos, com a função de observar e manter o poder dos reis e senadores dentro da mentalidade espartana. A palavra éforo vem do vocábulo “ephoriuo” que significa “supervisionar”.<br />
A segunda reforma de Licurgo foi a partilha de terras. O país era um patrimônio comum, e as terras eram divididas igualmente sendo a luta pelas posses banida, e a busca da virtude o único objetivo restante.<br />
Em seguida, aboliu as moedas de ouro e prata e instituiu as de ferro, atribuindo-lhes um valor insignificante em relação ao peso, de tal maneira que uma quantia considerável significava um peso absurdo de se carregar. O aço das moedas deveria ser de tal maneira isento de valor real que, assim que rubro, Licurgo mandava que fosse temperado no vinagre, tornando-o quebradiço e impossível de ser trabalhado.<br />
Como a moeda não tinha valor entre os outros gregos, aos poucos o interesse dos estrangeiros nos negócios de Esparta e dos espartanos foi desaparecendo, da mesma forma que o dos espartanos em adquirir objetos no estrangeiro. Ninguém que visasse a dinheiro, a enriquecimento pessoal ou a vantagem para si passava perto da Lacedemônia.<br />
Na época, os espartanos eram fechados mesmo para os outros gregos, o que gera a dificuldade de se conhecer sua cultura nos dias de hoje.<br />
O luxo e as frouxidões da alma, que advinham da corrente alimentada pelos fatos comuns, acabaram banidos de Esparta, qual o fogo que sem material que o alimente acaba por se extinguir.<br />
Para acabar de vez com o luxo, Licurgo fez a terceira reforma. Estipulou que os cidadãos deveriam se reunir para compartilhar o pão e o bocado que lhes foi instituído por lei e assim estipulou as refeições em comum (Syssitias). Foi-lhes proibido comer em casa, o que descaracterizou a necessidade de acumular bens, já que ninguém iria vê-los. Também com essa reforma, comer de menos ou demais passou a ser notado por todos, que acabariam censurando o cidadão que estivesse cedendo aos ditames do corpo.<br />
Para finalizar suas reformas, Licurgo se recusou a escrever suas leis, argumentando que só teriam valor se estivessem bem incorporadas no costume do povo pelo exercício continuado, devendo ser consideradas mais como uma tradição do que como uma legislação. As pessoas deveriam buscar suas leis, não estas determinar o que as pessoas são. Essas leis, segundo Licurgo, seriam despertadas no jovem através da educação.<br />
A educação, segundo Licurgo, é a mais bela e importante tarefa do legislador. Dentro do Estado espartano, a formação guerreira sempre teve papel de destaque. Pensando no bem do Estado, estipulou que os filhos dos espartanos não lhes pertenciam, mas sim ao Estado, essa mentalidade, por mais que aos olhos modernos possa parecer um tanto estranha, gerou uma mentalidade de união tão grande, que um espartano se considerava ao mesmo tempo pai, filho e irmão de todos.<br />
Tal mentalidade deu à formação espartana uma conotação bem peculiar, pois cada indivíduo não visando à sua sobrevivência, mas sim à sobrevivência do Estado, deixava o melhor de si para o futuro, o que era o ideal de todo o cidadão espartano.</p>
<p>7.3 PHOBOLOGIA</p>
<p>Os espartanos talvez tenham sido os maiores, dentre todos os povos guerreiros, no estudo, na compreensão e no domínio do medo. Faziam disso uma ciência, denominada phobologia e desenvolviam técnicas e treinamentos específicos para trabalhar com o medo, tanto no que se refere a dominar o seu medo e não ser por ele dominado, quanto a infundir o terror no inimigo.</p>
<p>7.3.1 A Ciência do Medo</p>
<p>Em qualquer conflito físico, especialmente dentro de uma batalha, é indiscutível a presença de Phobos, o medo, Sabe-se hoje, pelos estudos da psicologia moderna, que o medo é um mecanismo de defesa do ser humano que permite, através da liberação de hormônios como a adrenalina, uma melhor resposta do corpo ante qualquer ação que atente contra a sua integridade. É, portanto, um mecanismo de preservação da vida.<br />
Porém, também é a porta de entrada para o pânico, que paralisa as funções do corpo, levando-o à morte. O pânico é o contrário do medo e aparece quando este não é dominado, da mesma forma que uma simples gripe evolui para uma pneumonia se não tratada adequadamente.<br />
Já possuindo esses conhecimentos em sua época, os espartanos eram especialistas no estudo do medo, a Phobologia, segundo eles. O quotidiano de Esparta já trabalhava constantemente com o controle do medo, havendo inclusive leis nesse sentido, por exemplo, dentre tantas outras: proibição de lamparinas e tochas durante a noite para iluminar os caminhos. Os espartanos deviam retornar a suas casas no escuro desde pequenos, ao sair de suas aulas nas syssitias. Ou a determinação de se enterrar os mortos perto dos templos para que a visão da morte fosse algo natural para os jovens.<br />
Um dos pontos principais da phobologia espartana era o constante contato com o medo para que quando ele aparecesse, não fosse algo estranho e desconhecido. Por isso, os treinamentos e punições na formação de Esparta eram de uma rigidez impressionante.<br />
Contavam que o medo podia ser um poderoso aliado, já que os inimigos também o sentiam. Por isso, a estrutura cerrada da falange espartana, a panoplia — denominação de seu equipamento de guerra — e a organização espartana tinham a função de infundir o medo no oponente.<br />
Um dos princípios da phobologia era o de retirar de si o medo. Para isso, eram incentivados dois aspectos importantes da formação espartana: os cantos, que incitando a coragem e os grandes feitos enchiam o coração dos guerreiros de glória pela busca da honra; e o bom humor, cultivado em todos os momentos da vida espartana sendo o melhor método para combater o medo. Por isso a prática da mortificação era tão importante na formação dos jovens, já que estes só passavam na prova quando mostravam que o humor podia vencer as tendências instintivas. A arte dos cantos, do humor e o conhecimento de técnicas de respirações eram os pilares da Tetrathesis, os ensinamentos da aphobia.<br />
Dentro da phobologia existem três formas de atuar apesar do medo, sendo estas a porta de entrada, em seus devidos graus, para andreia, a coragem guerreira, que nada mais é que o caminho para a extinção do medo, que só é possível com a presença de seu contrário, ponto culminante da filosofia guerreira espartana.<br />
O primeiro patamar da luta contra o medo é o “agir apesar do medo”. Contam algumas crônicas de guerra que, quando um guerreiro se vê obrigado a lutar pela própria vida em meio à visão constante da morte ao seu redor e das atrocidades da batalha, entra num estado de amortecimento mental chamado pelos espartanos de katalepsis ou possessão. Nesse estado, o guerreiro age unicamente por instinto ou por pânico, sem inteligência ou prudência, simplesmente luta sem recear qualquer conseqüência, é a conhecida “loucura da guerra” a que se referem os cronistas das guerras modernas. No estado de katalepsis, o guerreiro podia realizar grandes feitos, mas nunca eram reconhecidos por coragem e valentia, pois aquele estado é próprio dos animais encurralados que, sem ter qualquer alternativa, se lançam ao combate por mero instinto de sobrevivência. Em Esparta esse estado era criticado e não louvado.<br />
O segundo patamar da phobologia é o “vencer o medo”. Devido à forma de vida dos espartanos e da eterna busca pela virtude de que Licurgo incumbiu seus cidadãos, o medo de desonrar seus pais, seus familiares, seus amigos, e a si mesmos e sua cidade era mais incisivo do que o medo da morte na guerra. Por isso, há muitos relatos de guerreiros que preferiam morrer em combate ao invés de retornar à pátria subjugados pelo adversário. Por mais que esse agir seja mais nobre do que a katalepsis, já que nele se encontra uma racionalização e não um mero instinto, ainda assim é agir por medo e não pode ser confundido com andreia, a virtude guerreira por excelência, que gera condições para suprimir o medo.<br />
O terceiro patamar da phobologia, diferente do agir por medo da desonra é o “agir por cobiça de glória”. Por ser uma atitude mais nobre e mais adequada aos padrões de comportamento humano, era muito louvada em Esparta por estar muito mais perto de andreia do que as anteriores, manifestando-se em atos de bravura incomuns, nos indivíduos que conseguiam desenvolver esse patamar. Segundo os relatos históricos, era esse o espírito presente nos ganhadores olímpicos, que tinham como recompensa o privilégio de lutar ao lado do rei como seu protetor. Plutarco conta que um comerciante quis oferecer riquezas a um espartano que ganhara o concurso olímpico, e este recusou sua oferta; indignado, o comerciante lhe perguntou o porquê de tanto esforço, já que não haveria recompensa, e o espartano respondeu que sua única recompensa seria lutar ao lado do rei!<br />
Por mais que essa mentalidade coloque os guerreiros num grau de bravura sobre-humano e lhes possibilite desenvolver feitos memoráveis, a cobiça por glória ainda é um ato egoísta e não pode ser própria dos Deuses. Já que phobos — o medo — sendo próprio do mundo da matéria nasce da carne, tendo o corpo como sua fábrica, a aphobia — o destemor — é própria do divino e tem na virtude seu nascimento. O guerreiro que desenvolvesse essa mentalidade era coberto de honras, pois desenvolvia no mundo concreto uma característica divina, sendo esse o principio para se denominar uma pessoa como semi-Deus.<br />
As tradições indicam que a essência da virtude guerreira está no feminino, sendo justamente o feminino que impulsiona os atos nobres, em todas as tradições. Isso pode ser claramente observado nos contos antigos, medievais e contemporâneos, assim como no próprio gênero das palavras utilizadas pelos espartanos para denominar a coragem guerreira: andreia, e o destemor: aphobia, enquanto denominavam de forma masculina o medo: phobos, e o temor: tromos.<br />
Para um espartano o exemplo dessa bravura superior estava justamente na figura feminina de suas mães e esposas, pois nada mais natural ao feminino que proteger sua prole. Era muito marcante para os guerreiros espartanos verem suas mães, esposas e filhas os observarem a caminho da morte e permanecerem impassíveis, subjugando seus instintos e doando o que tinham de mais precioso para algo maior, o Estado.<br />
É justamente nesse ponto que surge o quarto e último patamar que leva à aphobia: “o domínio”. É justamente quando se consegue calar os instintos e tendências que se expressa o que existe de melhor em cada um. Esse domínio, projetado no combate, coloca o guerreiro num patamar superior ao comum. Nesse estado, ele domina todas as reações de seu corpo de forma inteligente e não sofre com as influências do combate, entrando em contato com andreia, pois nada há de egoísta em seus atos já que nada do que faz se reflete em si mesmo. Esse estado só pode ser alcançado quando as ações são direcionadas a algo maior, a um ideal que, por ser transcendente e arquetípico, é próprio do divino, sendo o ponto de contato do guerreiro com os Deuses.<br />
Esse é o ponto máximo do guerreiro, quando ele age não por si, mas por algo maior, sem se preocupar consigo mesmo. Esse estado só pode ser vivenciado quando está presente no íntimo do guerreiro um amor profundo por seu ideal, e é justamente o amor, para os espartanos, o contrário do medo, o ponto mais alto e mais cheio de glória a que um ser humano pode chegar através da doutrina da guerra, simbolizado na mitologia pela união íntima de Afrodite, o amor, com Ares, a guerra. Somente o amor pode vencer o medo. Portanto, aquele que luta, ao mesmo tempo, nutre grande amor por todos que estão ao seu lado, inclusive por seu inimigo.<br />
Talvez seja por esse amor que os espartanos tenham realizado os feitos heróicos que realizaram. Talvez seja por isso que quanto mais se conhece desses nobres guerreiros, mais eles fascínio exercem. E, certamente, é por esse amor ao seu ideal de coragem e de virtude que a civilização Grega foi protegida veementemente tantas vezes por seus cidadãos, proporcionando que o mundo moderno seja como é hoje.</p>
<p>7.3.2 Treinamentos e técnicas</p>
<p>Dentro da phobologia dos espartanos, várias técnicas eram treinadas para controlar o seu medo e empregadas para infundir medo nos adversários. Uma delas era polir à exaustão seus escudos, elmos e as pontas das lanças, que mediam trinta centímetros. Ao longe, as armas dos espartanos, polidas como espelhos, refletiam o sol de maneira cintilante, dando a impressão ao inimigo que sua formação era composta mais de bronze e ferro do que de homens.<br />
Era visível a diferença entre a formação de outros exércitos e a dos espartanos. Enquanto aquelas pareciam ouriços, com as lanças trêmulas chegando a tocar-se, reproduzindo de forma amplificada o som dos próprios dentes dos soldados, que batiam de medo, o tremor das plumas dos elmos encarregava-se de conferir um aspecto visual ao medo. Dentre os espartanos, viam-se lanças perfeitamente alinhadas na posição vertical, imóveis, denotando a segurança de quem iria destruir o inimigo, o que só fazia causar neste medo profundo. Inclusive a posição das lanças espartanas guardava um significado: quando estavam em guerra, deixavam as lanças para cima, ao passo em que quando estavam em paz, as lanças apontavam para baixo.<br />
Sobre os elmos dos espartanos, havia uma altiva crista de crina de cavalo, que tinha por objetivo dar a impressão de uma estatura mais elevada e intimidadora do que a que tinham e ainda lhes conferia um aspecto de terror difícil de ser transmitido em palavras.<br />
Também o desenho dos seus elmos fazia parte desse teatro de horror. As fendas para os olhos, que não permitiam que estes fossem vistos, com a proteção nasal de bronze da largura de um dedo e as largas maçãs do rosto, lhes davam o aspecto de uma falange de autômatos, de criaturas desalmadas, vindas diretamente do inferno, do Hades, para disseminar a morte de forma impiedosa. Seres indestrutíveis e impávidos que cairiam sobre o inimigo para dizimá-lo cruelmente.<br />
Para o controle do seu próprio medo, os espartanos desenvolveram técnicas de treinamento, compreendendo vinte e oito exercícios, cada um deles focando um nexo do sistema nervoso. Os cinco nexos primários são os joelhos e jarretes, pulmões e coração, a genitália e intestinos, a parte inferior das costas, e a área dos ombros, sobretudo os músculos trapézios, que unem a articulação do ombro ao pescoço.<br />
O rosto compunha um nexo secundário, para havia mais doze exercícios, especificamente para os músculos do queixo, do pescoço e os quatro constritores oculares ao redor da cavidade dos olhos. Os espartanos deram a esses nexos o nome de “acumuladores de medo” (phobosynakteres).<br />
Segundo a disciplina espartana, é no corpo que o medo nasce e é aí que deve ser combatido. Se o corpo é tomado, cria-se um “circuito de medo” (phobokyklos), que se autoalimenta criando uma incontrolável corrente de pânico. Portanto, se com o treinamento se lograsse colocar o corpo em estado de destemor, a mente o acompanharia.<br />
Um treinamento específico para isso era bater com um ramo de oliveira no rosto do soldado, até que seus músculos da face, dos ombros e trapézios não mais se contraíssem involuntariamente. Também se tocavam os pontos ao redor dos olhos, região que concentra mais medo em todo o corpo humano, tendo o reflexo defensivo mais alerta para proteger a visão. Esses reflexos deviam ser descondicionados, para que, numa atitude consciente, o soldado espartano não mais reagisse e nem sequer piscasse diante de um golpe.<br />
Outra técnica bastante utilizada na Lacedemônia para o domínio do medo era o canto, pois que diretamente relacionado ao coração (onde reside a coragem) e aos pulmões (que vão permitir o controle da respiração). Os guerreiros lacedemônios sempre cantavam ao avançar para o combate, pois assim abriam a garganta e engoliam o ar, de modo a ativar os pulmões até os acumuladores cederem e romperem a constrição do medo. Além disso, a tranqüilidade que transpareciam ao cantar diante da morte também servia para atemorizar o inimigo.<br />
Com todo o treinamento de phobologia, o guerreiro espartano buscava atingir um estado de “harmonia interna” (esoterike harmonia), uma serenidade atingida por quem abriu mão de tudo que é supérfluo em seu espírito, até vibrar no timbre exclusivo que o seu daimon determina. Essa era a suprema personificação da virtude andreia, mais valorizada que a própria bravura em combate.<br />
Também havia a busca de uma harmonia externa (exoterike harmonia), que era um estado de união com os companheiros, como um coro de vozes, no seu musical. Na batalha, essa harmonia guiava a falange em seus movimentos e ataques como se fosse um único organismo, com uma única mente e vontade. Na política, a exoterike harmonia cria uma cidade de concórdia e unidade, em que cada indivíduo garante sua expressão de caráter mais nobre, doando-a aos outros, todos obedientes às leis.<br />
Os espartanos eram instruídos a considerar o adversário como sem nome e sem rosto. Em sua mente, era sinal má preparação e amadorismo utilizar nos momentos que antecedem uma batalha o que chamavam de pseudoandreia, “falsa coragem”, isto é, o frenesi marcial inflado artificialmente, produzido por uma arenga, na última hora, de um general ou alguma bravata alardeada, batendo no escudo, ou algo parecido.<br />
O bom humor também era considerado um aspecto muito importante no domínio do medo. Por isso, havia um treinamento denominado “mortificação” (arosis), que consistia em um dos Pares, nas cantinas, escolher um dos jovens e insultá-lo oralmente da maneira mais severa e impiedosa, ou mesmo impor-lhe surras físicas, com o propósito de disciplinar os sentidos para fortalecer a vontade contra a reação com raiva e medo, as forças gêmeas desvirilizadoras, que compreendem o estado chamado katalepsis, “possessão”. A resposta buscada é o humor. O jovem em treinamento tinha que conseguir chegar a rir na cara do seu ofensor, pois uma mente que consegue manter sua leveza não se desintegrará na guerra.<br />
Tanto a mortificação quanto as surras poderiam parar no momento em que o jovem quisesse. No primeiro caso, havia o limite do próprio ofendido contra as ofensas que lhe eram dirigidas, enquanto nas surras o limite era físico. Neste caso, era bastante comum que o jovem desfalecesse antes de pedir para cessar e treinamento.<br />
Além do treinamento específico para controle do medo, desde muito cedo, os espartanos eram educados segundo a tradição, para uma formação guerreira. A educação marcial é outro ponto de contato entre este impressionante povo e outras culturas guerreiras. Sobre isso se falará a seguir.</p>
<p>7.4 TRADIÇÃO E FORMAÇÃO GUERREIRA</p>
<p>A formação espartana nas artes da guerra permeava todo o seu sistema de educação, começando muito cedo. Esse trabalho era centrado mais na mentalidade do que em técnicas de combate, pois para eles “na guerra, a prática das armas conta pouco, a coragem é quem manda”. Por mais que as práticas de guerra fossem executadas incontáveis vezes durante a formação guerreira do cidadão e ainda depois disso e que, indiscutivelmente, os espartanos tenham sido mestres na técnica, na tática e na estratégia, todo esse treinamento tinha um objetivo maior: desenvolver uma mentalidade comum, gerar ao longo do tempo uma filosofia guerreira que ia para além da prática da guerra, que se estendia para a vida de cada membro do Estado.<br />
Ninguém em Esparta ficava de fora dessa mentalidade, incluindo crianças e mulheres. Estas, afirmam os historiadores, além de serem as mais belas de toda a Grécia, também eram as mais fortes. Há um episódio que fala de uma mãe que, ao ser informada de que seus cinco filhos haviam morrido em combate, perguntou se a nação saiu vitoriosa, ao ouvir a resposta afirmativa disse: “Então estou feliz!” e saiu sem derramar uma lágrima. Em outra passagem, Gorgo, mulher de Leônidas, dialoga com uma estrangeira que lhe diz: “parece, que as espartanas são as únicas mulheres a mandar nos maridos” e ela responde: “é porque somos as únicas que parimos homens”.<br />
O treinamento militar das crianças começava aos sete anos. Os meninos eram repartidos em grupos denominados (agelai), que a partir de então viviam e comiam juntos, com todos os trabalhos e brincadeiras em comum. À testa de cada grupo se colocava o mais astuto e ágil, e era sua responsabilidade comandar o grupo.<br />
Porém, já ao nascer, os meninos espartanos eram mergulhados na água gelada do rio Eurotas. Esse choque térmico fazia ativar várias relações no corpo da criança e ao mesmo tempo já a fazia perceber, ainda que inconscientemente, a agrura do mundo em que acabava de entrar.<br />
Os anciãos observavam de perto os grupos, para verificar a conduta de todos. Os eventuais desvios e abusos de poder eram severamente castigados. O estudo das letras limitava-se ao estritamente necessário, o restante da instrução consistia em aprender a obedecer, suportar pacientemente a fadiga e vencer no combate. Por isso mesmo, à medida que cresciam, mais duros iam ficando os treinamentos — raspava-se-lhes a cabeça, caminhavam descalços, etc.<br />
Aos 12 anos, deixavam a túnica e recebiam um único manto para o ano todo. Durante a fase do treinamento andavam sujos, ignoravam banhos e massagens, exceto em raras ocasiões especiais. Dormiam juntos em esteiras fabricadas por eles mesmos sem o auxílio de ferramentas. Nessa idade, os velhos os vigiavam ainda mais e compareciam freqüentemente aos ginásios para assistir às lutas e disputas. Além de todos os adultos já as ensinando, às crianças era designado um professor de crianças (pedômono), que era um jovem recém saído da idade infantil, com cerca de 20 anos (eirene).<br />
Os eirenes comandavam as crianças de seu grupo em exercícios de combate e em casa utilizavam-nos para a preparação dos repastos: os mais jovens traziam legumes, e os mais velhos e fortes lenha. Nada lhes era dado e para conseguirem o que comer, era necessário roubar as mercadorias, o que incentivava a esperteza e a astúcia, além de incutir uma mentalidade de aproveitamento das oportunidades e de percepção do quão nocivo podia ser não permanecer atento. Entretanto, caso alguma criança fosse apanhada roubando, a punição era o chicote e o jejum.<br />
Há uma passagem em que um menino havia roubado uma pequena raposa, escondendo-a dentro do seu manto. Quando caminhava para o seu alojamento, se deparou com dois sentinelas, que o pararam. Os dois não se haviam apercebido do que o menino carregava, estavam apenas conversando. A conversa já durava algum tempo, quando o menino caiu. Estava morto. A raposa lhe havia mordido o ventre e comido suas entranhas até que o garoto não suportou e desfaleceu. Foi só então que os soldados perceberam do que se tratava, pois o menino não soltara sequer um gemido e dissimulara a dor que estava sentindo.<br />
Depois do jantar, o eirene propunha que alguma criança cantasse, ou propunha questões que exigissem uma resposta ponderada como “qual o melhor guerreiro da cidade”, ou a sua opinião sobre o ato de alguma pessoa. A resposta deveria ser bem formulada, com razões e justificativas, em termos claros e incisivos. Os que davam respostas pouco dignas eram castigados.<br />
Os castigos distribuídos pelos eirenes eram geralmente realizados na presença dos anciãos que assim podiam avaliar se havia justiça nos critérios. Os anciãos não se opunham às punições, mas caso verificassem falta de critério, quando as crianças fossem embora, o eirene deveria prestar conta do rigor excessivo ou da demasiada indulgência.<br />
Dentro do sistema de punição espartano, era comum colocar a criança segurando uma barra de ferro cravada na terra ao lado do templo de Ártemis (Órthia). Nessa posição, o eirene açoitava a criança com uma vara de vidoeiro da largura de um polegar humano, enquanto uma sacerdotisa de Ártemis segurava imóvel uma estátua que seria receptora do sangue derramado. O garoto podia encerrar a punição a qualquer momento largando a barra e caindo no chão. Algumas crônicas contam que freqüentemente as crianças só largavam a barra depois de desmaiadas.<br />
Outra forma de insensibilizar os garotos contra a dor eram treinamentos de oito noites (Oktonyktia) no verão em que se simulava uma campanha de guerra. Durante esse treinamento, era distribuída apenas meia porção de vinho nos quatro primeiros dias, só água nos dois próximos e nada para beber nos dois últimos, sendo sua alimentação à base de pedaços de pão duro de linhaça e figos. Esse treinamento tinha como objetivo principal minar os jovens ao extremo, pois se dizia que “o verdadeiro teste acontece quando toda a força se esvai, e os homens têm de conquistar a vitória sozinhos”.<br />
Os eirenes também ensinavam os garotos a serem breves e concisos em seus discursos, e seu ambiente de treinamento os incentivava a professar grandes idéias de maneira espirituosa, cheias de malícia e graça. Para se atingir a agilidade da palavra nas respostas, era imposto às crianças um longo período de silêncio enquanto se lhes ensinava o valor da palavra.<br />
Nas crônicas sobre o modo de vida dos espartanos, há vários exemplos da perícia que tinham com o discurso. A linguagem costumeiramente empregada pelos espartanos era bastante concisa e objetiva, dizendo em poucas palavras apenas o que precisava ser dito, afinal numa batalha não há tempo para grandes discursos, e os comandos devem ser precisos e objetivos. Essa linguagem “lacônica” — assim denominada em virtude da região em que viviam, a Lacônia — passou a ser sinônimo, nos idiomas modernos de brevidade e concisão, mas jamais de vagueza ou imprecisão, como às vezes o termo é erroneamente empregado.<br />
Certa feita, Carilau, sobrinho de Licurgo, foi indagado sobre por que seu tio fizera tão poucas leis, ao que respondeu: “quem fala pouco não precisa de muitas”. Como em outra oportunidade, ao ser importunado constantemente por um poeta sobre quem era o melhor entre os espartanos, Demarato respondeu: “aquele que parece menos com você”. Ou Agis, ouvindo os Eleus se gabarem da honestidade com que conduziam os jogos olímpicos: “que maravilha! Ser justos um dia a cada quatro anos!”. Um egípcio perguntou aos espartanos certa feita por que usavam cabelos tão longos, Olympieus respondeu, citando o legislador Lykurgus: “Porque nenhum outro adorno torna um homem belo mais atraente, e um outro feio mais aterrador. E de graça.” Por exemplos como esses, ser “lacônico” passou a ser empregado por alguns como adjetivo às pessoas consideradas “ásperas”, mas, como diz Plutarco: “laconizar é antes amar a sabedoria do que desenvolver músculos”.<br />
Como parte de sua educação, as crianças eram levadas para assistir aos repastos coletivos, o que servia como uma escola de temperança. Lá podiam ouvir sobre política, atos heróicos, além de aprenderem a manter o centro e a calma perante os escárnios dos mais velhos, na prática já mencionada da “mortificação”. Nessas ocasiões, as crianças não podiam demonstrar aborrecimento, e a resposta desejada era o humor. O objetivo do exercício era o de, assim como os exercícios físicos, doutrinar os sentidos para fortalecer a vontade contra as reações de raiva e medo, que compreendem o estado de Katalepsis.<br />
Analisando essa forma de educar, Plutarco comenta que “tolerar ironias era uma qualidade específica dos Lacedemônios”. Por mais que para os olhos modernos isso possa parecer estranho, se alguém se sentisse ofendido durante uma dessas instruções, simplesmente pedia ao interlocutor que parasse, o que este imediatamente fazia, estando definido assim o limite daquele indivíduo.<br />
As pessoas se moldam pelos exemplos que têm, seguindo-os como modelos ou arquétipos. Portanto, toda essa convivência guerreira, desde a mais tenra infância, tornava impossível para um espartano não ser grande, já que todos os modelos que tinha eram de grandes homens e grandes guerreiros.<br />
Tudo o que acontecia nos banquetes tinha caráter formativo e por isso essa instituição era muito bem regulada pelas leis de Licurgo, sendo seu porta-voz direto o mais velho entre os convivas. Antes de começar o banquete sempre dizia a todos o que estava escrito nas placas esculpidas nas entradas dos refeitórios: “Exo tes thyras oudem”, ou seja, nada do que acontecesse naquele recinto poderia ser comentado fora dali. Era um voto tácito de segredo e sigilo das conversas e práticas realizadas entre guerreiros.<br />
Para entrar no grupo de convivas, o jovem se candidatava e sua escolha era examinada pelos já aceitos da seguinte maneira: cada um apanhava uma bolinha de pão e a arremessava silenciosamente, como um voto, num vaso. Aqueles que aprovassem o novato mantinham suas bolinhas intactas, aqueles que não, as achatavam com os dedos. Se houvesse uma única bola achatada, ele não era aceito. Para manter o espírito de união, todos deveriam estar contentes por estarem juntos.<br />
Entre os espartanos, o ato da guerra era desmitificado e despersonalizado através do seu vocabulário. A mesma palavra que significa penetração (no sentido sexual) também tem a conotação de “triturar”, como uma pedra de moleiro. As três fileiras da frente “penetram” ou “trituram” o inimigo. O verbo “matar”, theros em dórico, significa o mesmo que “ceifar”. Os guerreiros da quarta à sexta fileira às vezes eram chamados de “ceifadores”, tanto pelo trabalho que faziam no inimigo pisoteado com os “perfuradores de lagartos”, as pontas de suas lanças de dois metros, quanto pelo golpe inclemente desferido com a curta espada xiphos, muitas vezes chamada de “segadora”. Decapitar um homem era “concluí-lo” ou “fazer-lhe um corte de cabelo”. Amputar um braço ou mão era chamado de “desmembrar”.<br />
Já na idade madura, o espartano encarnava ainda mais a mentalidade de que não pertencia a si mesmo, mas sim ao Estado. Uma constatação disso é a forma de sua cidade, que se parecia, propositadamente, com um acampamento militar, o que além de cortar todos os luxos, os mantinha sempre na mentalidade de guardiões do Estado, como colocado na República por Platão, sempre prontos a defender seu ideal guerreiro.<br />
Tanto assim que o símbolo que os espartanos adotavam era uma abelha. Orgulhavam-se de dizer que no campo de batalha queriam estar tão perto do inimigo que este pudesse ver claramente esse símbolo, que estava gravado em seus escudos em tamanho natural.<br />
Essa mentalidade era tão presente que um espartano adulto considerava falta de compromisso com a cidade qualquer ofício que não estivesse ligado com a guerra e com a educação para a guerra. Diz Plutarco que “quando não deviam fazer outra coisa, supervisionavam os jovens e davam-lhes lições úteis, ou então eles próprios procuravam os anciãos para se instruir”.<br />
Devido à criação que tiveram de infância, os espartanos maduros desenvolviam a busca pela virtude como uma constante em sua vida, já que sabiam que sempre serviam de exemplo para os mais jovens e que deveriam sempre honrar os heróis de batalhas que se sentavam ao seu lado nas syssitias. Essa mentalidade se estendia para todas as questões de que um espartano participava, da vida particular à vida pública.<br />
A constante busca da virtude e a abundância de oportunidade para demonstrá-la na sociedade favoreciam o florescimento não de pessoas, mas sim de heróis.<br />
Isso se traduzia em questões práticas bastante simples, como por exemplo usar pouca roupa durante o ano todo. Os espartanos não se agasalhavam quando tinham frio, desenvolvendo então uma resistência impressionante às baixas temperaturas. Ou então, de forma mais genérica, obedecer ordens, resistir a fadigas e vencer em combate. Simples assim eram as pretensões dos espartanos. Porém, para executá-las bem, quanta disciplina e treinamento eram necessários.<br />
Para um guerreiro espartano, havia alguns códigos que eram tidos como leis sagradas:<br />
• Preservar a liberdade mais que a vida.<br />
• Abster-se do prazer em nome da virtude.<br />
• Suportar dor e sofrimento em silêncio.<br />
• Obedecer ordens irrestritamente.<br />
• Buscar os inimigos da Grécia onde quer que estivessem e combatê-los destemidamente até a vitória, ou a morte.<br />
• Nunca faltar com a palavra.</p>
<p>Há dois episódios que ilustram bem a importância da obediência e da necessidade de manter a coragem do início ao fim de uma batalha. Certa feita, durante uma luta assaz renhida, quando todas as armas já haviam sido postas de lado e um espartano estava em luta corporal com seu inimigo, passou a morder a perna deste. O inimigo se revoltou: “Espartano! O que você está fazendo mordendo minha perna?! Parece uma mulherzinha! O espartano respondeu, sem perder a pose: “Mulherzinha não! Leão!”. Pouco importava a condição em que já estivesse, a coragem e a postura de guerreiro tinham de ser mantidas. Em outra oportunidade, um espartano já havia dominado seu oponente e se preparava para concluí-lo com o último golpe de espada, quando soou o toque de cessar e reagrupar. O espartano conteve o golpe e não matou aquele inimigo, que estranhou: “Espartano, você não vai me matar?”, a que o espartano respondeu: “Só há uma coisa melhor do que matar um inimigo: é obedecer ao meu strategos”. Esse sentido de obediência irrestrita e de controle de suas próprias ações mesmo em condição extremas foi uma das mais importantes chaves do sucesso bélico de Esparta.<br />
Na cerimônia em que um guerreiro espartano recebia seu escudo, muitas vezes das mãos de sua própria esposa, ouvia as cinco palavras que estão na epígrafe deste texto e devia lembrá-las sempre: “E Tan E Epi Tas” (volte vitorioso com este escudo, ou morto sobre ele). Dentre todas as armas de um guerreiro espartano, o escudo era considerado a mais importante e sagrada, porque tinha por objetivo não defender aquele que o portava, mas sim o companheiro que estava ao seu lado, a linha espartana, e assim, simbolicamente, toda a cidade. O espartano podia, em meio a uma batalha, deixar cair sua lança, sua espada, seu elmo ou mesmo seu peitoral, mas jamais o seu escudo, o que era punido com a morte.<br />
O escudo devia ficar sempre levantado, com a manga do antebraço e o punho preparados. Se um guerreiro ficasse em pé em descanso, seu escudo devia ficar escorado em seus joelhos. Se ele se sentasse ou se deitasse, devia deixar o escudo erguido na base de tripé, um tripé leve que todos levavam na concavidade do seu manto.<br />
Esse sentido de unidade das linhas espartanas e de todo o seu exército tinha grande importância para o seu sucesso na guerra. Compreendiam que ser corajoso quando isolado era uma dádiva apenas dos deuses e heróis. Para os homens mortais, havia apenas um modo de reunir coragem: nas fileiras, com seus irmãos de armas, como parte de sua cidade. Um homem só, sem cidade, era digno apenas de dó, sem os deuses de sua terra e sem a sua polis. Um homem sem uma cidade não é um homem, é um fantasma sem identidade, a vagar perdido sobre a terra.<br />
Dentro desses códigos de guerra, também era proibido ao espartano, sob qualquer circunstância, voltar as costas para seu inimigo. Há relatos sobre uma mãe espartana que matou o filho quando viu que este voltara com um ferimento nas costas.<br />
À parte a formação da mentalidade guerreira cultivada pelos espartanos, também havia treinamentos específicos para diversas situações. No exercício chamado “carvalho”, alguns defensores se posicionavam ao longo de uma série de carvalhos, com escudos de vime da extensão do corpo firmados sobre a terra, e as tropas de choque faziam carga. Os defensores tinham a sensação de ser atingidos por uma parede de pedra, os joelhos dobravam-se como árvores novas, toda a coragem os abandonava; era uma sensação de morte por esmagamento. Em compensação, numa batalha real, ninguém suportava melhor do que os espartanos uma carga de infantaria.<br />
Havia outro exercício que tinha por objetivo uma antecipação da ação noturna, feito na escuridão total, com o propósito primordial de treinamento para pisar firme, para orientação pelo tato no interior da falange e para a ação sem visão, particularmente sobre um solo irregular. Os espartanos acreditavam que um exército devia ser capaz de alinhar as tropas e manobrar tão habilmente não enxergando quanto com visão, pois, na poeira e terror do embate inicial da batalha, e a conseqüente desordem terrível, nenhum homem conseguia ver além de um metro e meio em qualquer direção, nem ouvir sua própria voz, quanto mais a de seu comandante. Assim sendo, era primordial para vencer uma batalha manter a unidade e a organização em meio ao caos, o que poucos exércitos logravam fazer, dando-lhes grande vantagem no primeiro choque das fileiras de infantaria.<br />
Para muitas pessoas, inclusive outros povos helenos da mesma época, havia a idéia equivocada de que o treinamento militar lacedemônio era extremamente brutal. Deve-se ter em conta que aquela disciplina fazia parte da sua cultura, e estavam habituados a isso desde o berço. Ademais, todo o seu rigoroso treinamento era temperado de muito humor, chegando a uma hilaridade implacável durante os exercícios, que de outra forma seriam estafantes. Os homens faziam piadas desde o toque da alvorada até a hora do encerramento. Mesmo já deitados para descansar, podiam-se ouvir, por minutos, bate-papos em sussurro e risadas vigorosas pelos cantos do campo, até que o sono chegasse para livrá-los da estafa de um dia de treinamento ou de batalha.<br />
Esse humor peculiar dos soldados era gerado pela experiência da penúria compartilhada. Se se perguntasse para um soldado espartano num acampamento de campanha qual a diferença entre ele e um rei espartano, ele certamente responderia que era que o Rei dormia naquela fossa ali adiante, enquanto ele soldado dormia nesta aqui.<br />
Havia, no entanto, situações de treinamento que tinham por objetivo levar o soldado para além do ponto de humor, como no já citado treinamento das oito noites. É quando as piadas cessam, que as verdadeiras lições são aprendidas e que cada homem e o regimento como um todo faz aqueles avanços mágicos, que culminam na provação definitiva. O rigor dos exercícios objetivava mais endurecer a mente do que fortalecer o corpo. Os espartanos diziam que qualquer exército pode vencer enquanto ainda tiver suas pernas no lugar; o verdadeiro teste acontece quando toda a força se esvaiu, e os homens têm de conquistar a vitória sem o corpo.<br />
Os espartanos viam a guerra como trabalho e não mistério. Por isso, ao contrário de outros generais, os strategos espartanos não faziam discursos inflamados antes das batalhas, com o intuito de provocar um estado mental de falsa coragem, que sabiam desapareceria tão logo perdessem o contato visual com o rei e sua energia revigorante. O Rei dava aos generais instruções práticas, prescrevendo atitudes que poderiam ser tomadas fisicamente, com efeitos concretos e imediatos.<br />
Que sempre cuidassem da aparência, mantendo o cabelo, mãos e pés limpos. Que comessem, se houvesse algo para comer, dormissem ou fingissem dormir. E jamais deixassem seus homens os verem inquietos. Se chegassem más notícias, deviam ser transmitidas primeiro àqueles de patente superior, nunca diretamente aos homens. Que instruíssem os escudeiros a polir o escudo (aspis) de cada homem até brilhar o máximo possível, pois a visão dos escudos cintilando como espelhos infundiria terror no inimigo. Que deixassem tempo para os homens afiarem suas lanças, pois aquele que afia seu aço, afia sua coragem.</p>
<p>7.5 TERMÓPILAS</p>
<p>Um capítulo importante e emblemático da história dos espartanos foi a batalha das Termópilas, que teve lugar quando o rei Xerxes da Pérsia invadiu a Hélade (Grécia) com um exército de mais de um milhão de homens. A marcha veio do norte pela Tessália e teria que necessariamente passar pelo estreito desfiladeiro das Termópilas para ganhar a península do Peloponeso e destruir as principais cidades gregas.<br />
As cidades, principalmente Esparta e Atenas, que rivalizavam pela hegemonia entre os povos gregos, se uniram contra o inimigo comum. Coube aos espartanos, juntamente com alguns aliados de outras cidades, a defesa desse local, com o intuito de reter o máximo possível o avanço do gigantesco exército persa, dando tempo aos gregos de se organizar para uma defesa mais eficiente.<br />
Os gregos aliados reuniram cerca de cinco mil homens e aguardavam ansiosamente a chegada dos reforços espartanos, a quem caberia o comando dessa campanha. Surpreenderam-se quando o rei Leônidas chegou acompanhado de apenas trezentos soldados. Alguns questionaram, afirmando que eram poucos, ao que Leônidas respondeu que eram trezentos guerreiros, ao passo que aqueles aliados que estavam diante dele eram camponeses, alfaiates ou arquitetos, estando portanto, em termos de guerreiros, os espartanos em maioria.<br />
Na verdade, Leônidas havia prometido reforços aos aliados em Atenas, mas o senado de Esparta recusava-se a deliberar a aprovação de um contingente antes do término das festas cívicas na Lacedemônia, período em que o senado não deliberava. Ciente da urgência da situação e da palavra empenhada, Leônidas reuniu sua guarda pessoal, dos trezentos melhores homens de Esparta, para dirigir-se às Termópilas. Quando saía, um dos senadores lhe perguntou se trezentos não eram poucos homens para vencer uma batalha. Leônidas respondeu: “Para a vitória somos poucos, mas para a morte somos muitos!”<br />
Leônidas e os seus trezentos estavam plenamente cientes do funesto destino que os aguardava. Não havia vitória possível sobre o exército persa. A única vitória seria morrer com honra e permitir que a Hélade se reerguesse contra o inimigo oriental, para rechaçá-lo de volta às suas terras.<br />
O rei espartano era querido por seus oficiais, soldados de sua guarda e soldados rasos, que o viam, com quase sessenta anos, sofrer cada fração da penúria por que passavam. E sabiam que, quando chegasse a hora do combate, ele assumiria o seu lugar, não em segurança, na retaguarda, mas na linha de frente, no local mais violento e arriscado do campo.<br />
Termópilas era um balneário. A palavra em grego significa “portões quentes”, por causa das fontes termais e dos desfiladeiros estreitos e escarpados que formam as únicas passagens pelas quais é possível se chegar ao local. O Muro Phokiano, em torno do qual tantos dos combates foram travados, não foi construído pelos espartanos e seus aliados no evento, mas já existia antes da batalha, tendo sido erigido no tempo antigo pelos habitantes de Phokis e Lokris como defesa contra as incursões de seus vizinhos do norte, os tessálios e macedônios. O muro, quando os espartanos chegaram para tomar posse do estreito, estava em ruínas. Eles o reconstruíram.<br />
Nessa ocasião, os relatos dizem que Leônidas simplesmente apanhou uma pedra grande e caminhou até um determinado lugar. Ali, pôs a pedra. Ergueu uma segunda e a pôs do lado da primeira. Os homens observavam atônitos seu comandante-em-chefe, curvar-se para pegar uma terceira pedra. Alguém berrou: “Quanto tempo pretendem, imbecis, ficar olhando boquiabertos, enquanto o rei constrói o muro sozinho?”<br />
Com animação, os soldados começaram então a ajudar na construção, mas o rei não interrompeu seus esforços quando viu outras mãos participarem do trabalho, mas prosseguiu junto com eles enquanto a pilha de pedras começou a se erguer e formar uma legítima fortaleza. Mas dizia aos homens para não terem a ilusão de que um muro de pedras preservaria a Hélade, pois esse era o trabalho para um muro de homens.<br />
Essa tônica de comportamento de Leônidas se manteve durante toda a batalha, o rei trabalhava diretamente com seus guerreiros, não se esquivando de nada, fazendo uma pausa para se dirigir a eles individualmente, chamando-os pelo nome se os conhecia, memorizando os nomes de outros que até então lhe eram desconhecidos, tratando-os como camaradas e amigos. Tais palavras, ditas a dois ou três homens, rapidamente se alastravam por todo o acampamento, retransmitidas de guerreiro a guerreiro por toda a linha, enchendo de coragem o coração de todos eles.<br />
O exército dos Persas era realmente imenso, concordando a maior parte dos historiadores que tinha cerca de um milhão de homens — embora alguns pensem que chegava aos dois milhões. Dizia-se que quando os soldados persas passavam secavam os rios, quando acendiam fogueiras de acampamento eram mais numerosas que as estrelas no céu. Questionado sobre isso por um dos comandantes aliados, Leônidas responde: “Ótimo, quando garoto, eu sempre quis tocar as estrelas com a minha lança”. Da mesma forma, quando recebeu o anúncio de que os inimigos estavam avançando, respondeu: “Ótimo, isso significa que estamos nos aproximando.”<br />
Várias outras frases foram eternizadas pelos historiadores, inclusive historiadores persas. No primeiro contato entre Leônidas e Xerxes, como era de praxe ocorrer, a fim de verificar se era possível evitar o combate, o persa lhe disse: “Vocês não têm qualquer chance, somos tantos que quando atacarmos nossas flechas eclipsarão o sol!”. Sem alterar a expressão em seu rosto, Dieneks respondeu: “Então combateremos à sombra.” Xerxes deu então o ultimato: “Entreguem suas armas.” Leônidas(significa Leão) redargüiu com tranqüilidade: “Molon Lave!” (Venha pegá-las!).<br />
Aquele local nas Termópilas fora estrategicamente escolhido por ser estreito, de forma a anular a grande superioridade numérica dos persas. As linhas de batalha que colidiam eram limitadas. A única questão era que a reposição dos persas era interminável, enquanto os espartanos sofreriam praticamente não teriam reposição nas linhas. Mas, dois ou três dias que retivessem o inimigo naquele ponto já seriam essenciais para a sorte da Grécia.<br />
Quando os persas se agruparam para o embate, e suas trombetas ressoaram de além do Estreito, cobrindo toda a planície, Leônidas disse a seus homens, com um largo sorriso: “Comam um bom desjejum, homens, pois hoje jantaremos no Hades.”<br />
Antes do primeiro embate, nas fileiras do inimigo, os soldados começaram a bater as hastes de suas lanças sobre o bojo de seus escudos de bronze, gerando um tumulto que os espartanos chamavam de pseudoandreia. Outros reforçaram a barulheira impelindo, como na guerra, as pontas de suas lanças para o céu e emitindo súplicas aos deuses, e gritos de ameaça e raiva. A gritaria triplicou, aumentou cinco, dez vezes, enquanto a retaguarda e o flanco captavam o clamor e contribuíam com os seus próprios brados e batidas no bronze. Em breve, todo o destacamento estava bradando o grito de guerra. Seu comandante impeliu sua lança à frente e a massa surgiu atrás dele, no movimento de avançar.<br />
Os espartanos não se moviam nem emitiam qualquer som. Aguardavam pacientemente em suas posições, com seus mantos escarlate — que tinham por objetivo evitar que o inimigo visse que estavam sangrando —, nem sombrios nem rígidos, apenas trocando, calmamente, palavras de encorajamento e estímulo, nos preparativos finais para a ação que haviam ensaiado centenas de vezes em treinamento e realizado muitas vezes mais em combate.<br />
Era comum que nesse momento se entoassem canções, o que além de dar tranqüilidade aos homens, dava ainda mais medo ao inimigo, que teria de enfrentar um exército que cantava antes de uma batalha de morte.<br />
Quando iam para cada batalha, os espartanos traçavam seus nomes ou sinais sobre os braceletes improvisados de galhos que chamavam de “etiquetas”, que distinguiriam seus corpos caso, mortos, fossem mutilados de modo medonho demais para serem identificados. Metade, a “metade sangue”, era amarrada no pulso, enquanto a outra metade, “metade vinho”, era deixada num cesto. Usavam galhos porque não tinham valor como saque para o inimigo. Ao voltar, coletavam as “etiquetas”, as que não fossem procuradas na cesta, identificavam os mortos.<br />
Esse talvez fosse o pior de todos os momentos na guerra. Mesmo aqueles que se haviam mantido em total controle durante o combate agora podiam se soltar e até chorar, tanto em reverência aos camaradas perdidos, quanto como uma forma de purgação do medo (hesma phobou, ou “extravasando o medo”).<br />
Em nenhum momento, aqueles duros soldados perdiam o carinho e a ternura, o que nada tinha de efeminado, ao contrário, era considerado uma qualidade essencial de um guerreiro, como sinal de bondade, que sempre deve estar junto com a força. Nos momentos finais, antes da batalha, trocavam escudos com os aliados Téspios, como sinal de respeito de quem lutou lado a lado e iria morrer lado a lado.<br />
Nas Termópilas lutaram apenas os lacedemônios da classe superior, totalmente espartanos, Pares ou Iguais (homoioi), não havia ninguém da classe dos Cavalheiros Comissionados (perioikoi), espartanos subordinados que não gozavam de total cidadania, ou aqueles recrutados nas cidades lacedemônias próximas. Porém, quando o final da batalha se aproximava, e os oficiais espartanos sobreviventes se tornaram tão poucos que já não compunham uma frente de luta, um certo “elemento de fermentação”, de escravos libertos, carregadores de armaduras e escudeiros, tiveram permissão para ocupar os espaços vagos e lutar.<br />
Os oficiais tinham como obrigação, além do comando, socorrer e cuidar de seus homens, impedir que aqueles sob o seu comando, em todos os estágios da batalha — antes, durante e depois —, fossem possuídos pela katalepsis. Tinham que atiçar sua bravura quando esmorecia e refrear sua fúria quando ela ameaçava tirar-lhes o controle. Esses homens usavam o elmo de crista cruzada de um oficial, para distingui-los no campo de batalha.<br />
Esse trabalho poderia ser resumido numa frase: “realizar o comum sob condições incomuns”.<br />
Os Trezentos resistiram seis dias nas Termópilas, impondo aos persas baixas impressionantemente grandes, em proporção ao seu número. Foram finalmente dizimados porque um grego chamado Efialtes os traiu, mostrando aos persas uma trilha secreta usada pelos pastores de cabras, que circundava o desfiladeiro, permitindo aos persas surpreender os espartanos pela retaguarda. Já combalidos, em pequeno número e com duas frentes de batalha, todos que estavam nas Termópilas foram mortos.<br />
O próprio rei Xerxes reconheceu o valor de seus oponentes ao afimar: “Até as rochas são testemunha da coragem humana, glória e resistência desses espartanos.”<br />
Essa batalha permitiu aos atenienses que evacuassem a cidade, em seus navios, deixando para Xerxes, quando lá chegou, apenas uma cidade fantasma. Os gregos se reagruparam e, na batalha marítima de Salamina, que impediu a chegada de víveres e reforços para os contingentes de Xerxes, e na batalha terrestre de Platéia, em que os persas tiveram de se defrontar com uma verdadeira falange de espartanos, da qual tinham recebido apenas uma pequena amostra nas Termópilas, conquistaram a vitória sobre o poderoso inimigo persa.<br />
Um rei espartano se perdeu em batalha, o que não ocorria havia mais de seiscentos anos, mas o oráculo se cumpriu: “Ou Esparta perderia um rei em combate, calamidade que não acontecia há seiscentos anos, ou a cidade cairia.”<br />
Esse episódio da história ainda hoje é guardado e contado como um exemplo comovente para os povos livres do mundo do que alguns homens podem conquistar quando se recusam a se submeter à tirania.<br />
Quem hoje visitar o local das Termópilas, encontrará uma estela de pedra, já quase apagada pelo tempo, esculpida com a frase:</p>
<p>“O xein angellein Lakedaimoniois hoti tede<br />
keimetha tois keinon rhemasi peithomenoi”.</p>
<p>“Digam aos espartanos, estranhos que passam,<br />
Que aqui, obedientes às suas leis, jazemos.” (tradução livre)</p>
<p>“A guerra, não a paz, produz a virtude. A guerra, não a paz, purga o vício. A guerra, e a preparação para a guerra, suscita tudo que é nobre e digno em um homem. Une-o a seus irmãos e os liga em um amor altruísta, erradicando no cadinho da necessidade tudo que é vil e ignóbil. Ali, no moinho sagrado do assassínio, o homem mais vil pode buscar e encontrar essa parte de si mesmo, oculta sob a corrupção, que reluz intensa e virtuosa, digna de honra diante dos deuses. Não despreze a guerra, efebo, nem imagine que a misericórdia e a compaixão sejam virtudes superiores a andréia, à bravura viril”. (Steven Presfield – Portões de Fogo, 1998)</p>
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		<title>8. OS EFE</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Sep 2008 17:52:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Talal</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Cultura Marcial - Tema II]]></category>

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		<description><![CDATA[8. OS EFE
“Não venha, não venha
Morra, mas não mude sua decisão
Compartilhe a dor de quem sofre
Não abandone a verdade
Não coma nada imprório
Seja gentil, não magoe o coração de um amigo
Caminhe seguro e fale certo
Fique do lado dos mais fracos, não aceite o cruel
Espere ter boa sorte,
uma espada afiada e um rosto honesto no Universo
Espere ter [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>8. OS EFE</p>
<p>“Não venha, não venha<br />
Morra, mas não mude sua decisão<br />
Compartilhe a dor de quem sofre<br />
Não abandone a verdade<br />
Não coma nada imprório<br />
Seja gentil, não magoe o coração de um amigo<br />
Caminhe seguro e fale certo<br />
Fique do lado dos mais fracos, não aceite o cruel<br />
Espere ter boa sorte,<br />
uma espada afiada e um rosto honesto no Universo<br />
Espere ter Şah ı Merdan Ali como um ajudante,<br />
Bozatlı Hızır como ajudante, observador e guardião”<br />
(Prece de Zeybek)</p>
<p>8.1 INTRODUÇÃO</p>
<p>No Século XVI, quando o povo Turco se encontrava sob o poder do Império Otomano, as condições históricas, econômicas e sociais da época impunham um sistema de posse da terra absolutamente desfavorável para a maioria da população. Nesse sistema, a terra era dada às pessoas de acordo com suas posses, a maior parte dessa terra ficava próxima ao castelo. A população, sem meios para lutar por seus direitos e por melhores condições, se via subjugada pelos seus senhores.<br />
Foi então que primeiro se ouviu o termo Efe, líder guerreiro do povo Zeybek. Eles encabeçaram as Revoltas Jalili, contra o poder do Império Otomano, que tiveram lugar na região oeste da península da Anatólia, especialmente dentre os Egeus, para buscar justiça, virtudes e direitos. Esse povo não se conformava com as condições que lhe eram impostas e decidiu lutar, ainda que fosse com o sacrifício da própria vida.<br />
Segundo o Efe İslamoğlu, seu povo, que vivia próximo ao castelo, não suportava mais aquela situação, em que todo o país estava nas mãos de poucos proprietários de terras, que lhes cobravam tributos e taxas, e que não iam para a guerra porque eram ricos, mandando sempre o povo para morrer: “Eles comem com fartura, mas para o povo pão velho&#8230;&#8221;. Liderou então os Zeybek para as montanhas, onde ficavam protegidos contra as autoridades e podiam iniciar sua luta por justiça.<br />
O Efe Islamoğlu dizia que a injustiça e a falsidade são lacunas na sociedade, mas a lei da Natureza não permite essas lacunas. Quando o povo não pode respirar por causa dos roubos e está deprimido, algumas pessoas naturalmente irão buscar preencher essas lacunas e semear justiça. Essa difícil tarefa incumbiu aos Zeybek, na medida em que não se entregaram à injustiça, ao domínio e à falta de direção, resistindo quando não havia mais nada a perder, a não ser a vida.<br />
Os Zeybek desciam de seus esconderijos nas montanhas para resistir à administração local e impor a ordem. Depois, novamente subiam as montanhas, onde ficavam protegidos. As montanhas tinham um significado especial para os Zeybek. As forças locais não podiam acessá-las facilmente e quando o faziam não conseguiam ficar lá por muito tempo. Os que habitavam as montanhas não falavam sobre como viviam e nem o que viam. As montanhas eram um símbolo da revolta.<br />
Os Efe diziam que quando alguém se revolta é considerado culpado pelo poder e pela lei oficiais, mas na verdade, aos olhos do povo, é um herói, guerreiro e defensor dos injustiçados. A revolta contra a injustiça é a defesa do direito e da liberdade. Diziam ainda que a revolta tem dois lados: um de bravura e coragem, outro de inquietação, suspeita e medo. O guerreiro deve levar esses dois lados no seu coração. A inquietação e o medo levam à precaução, enquanto a bravura e a coragem levam ao otimismo amoroso e à caridade, que essas são as principais características do guerreiro.<br />
Embora as raízes dos Zeybek não sejam claras — há muitas hipóteses a respeito — é certo que eles são líderes turcos com seus nomes, crenças, danças, cerimônias e tradições. Ser um Zeybek é um modo de vida com regras rígidas. É obrigatório cuidar e proteger aqueles que sofrem. Um Zeybek é aquele que participa dessa estrutura tradicional. Aquele que se responsabiliza e lidera é chamado de Efe, sendo denominados kizan os membros novos e mais jovens.<br />
O Efe é escolhido pelos Zeybek por sua virtude, sendo ele quem toma as decisões, que não podem ser contrariadas. O kizan é escolhido numa cerimônia específica. O Efe escolhe o Zeybek mais talentoso, maduro e experiente como um chefe para ajudá-lo, e este se torna responsável pelo Efe, auxiliando-o em tudo que este necessite.</p>
<p>8.1 CERIMÔNIA PARA SE TORNAR UM EFE</p>
<p>Quando um Efe morre, os Zeybek fazem uma cerimônia especial. Eles deitam o Efe morto numa grande rocha na montanha. No alto da cabeça e nos pés, eles queimam junípero, pinho e carvalho. Num certo momento, toca-se num instrumento de corda uma triste canção de luto, e a perda é lamentada. Há uma dança zeybek especial para essa cerimônia, durante a qual os kizans não dançam, apenas assistem.<br />
Após a cerimônia, o Efe é enterrado num local secreto (próximo a uma grande rocha ou no topo das montanhas). Para não perder esse local, planta-se uma árvore de junípero ou de amora na cabeça do túmulo. Depois que o Efe morre, os Zeybek ficam liberados para deixar o grupo e formar outro. Os que permanecem devem escolher um novo líder.<br />
A escolha de um novo Efe é um período difícil, pois para ser um Efe é necessária muita responsabilidade. Somente quem é bravo, confiável, destemido, disciplinado, caridoso, maduro e bondoso pode ser escolhido. Se o Efe que morreu tiver um filho com todas essas características, ele poderá ser escolhido, caso contrário, outro membro do grupo que tenha essas qualidades.<br />
A selecão é feita no topo da montanha, próximo a uma grande rocha, em frente a uma caverna, num abrigo. Após a escolha, os Zeybek colocam suas armas em frente ao escolhido, beijam suas mãos e as colocam em suas testas, depois recuam. Isso significa que aceitaram sua liderança e fizeram seu voto de obediência a ele.</p>
<p>8.2 O CHEFE DE RECRUTAS E A CERIMÔNIA DE KIZAN</p>
<p>O Chefe Zeybek é um seguidor armado que está sob o comando direto do Efe, protegendo, alimentando, criando, educando, ensinando todas as regras e tradições aos kizans (recrutas).<br />
Os Zeybek dedicam especial atenção aos seus recrutas. Nem todos podem ser aceitos como recrutas. Os guerreiros se relacionam com as famílias e amigos dos recrutas, investigam e elaboram o ambiente e as circunstâncias para os que querem ser recrutas. Eles passam então por um período de experiência, após o qual, durante uma cerimônia, são aprovados ou não como recrutas.<br />
A expectativa mais importante dos guerreiros em relação aos recrutas é a obediência às regras: sua lealdade e adaptação ao grupo.<br />
Ser um Zeybek não significa apenas bravura e cavalheirismo. Para ser um guerreiro valente, bom e ativo são necessárias algumas qualificações como experiência, maturidade, compreensão, deteminação e bondade.<br />
A cerimônia para se tornar um recruta acontece sob um loureiro, no topo de uma montanha, ao amanhecer. O loureiro é uma árvore considerada sagrada para os Zeybek, por isso a utilizam em suas cerimônias. Dizem que embaixo dessa árvore jaz uma pessoa sagrada (hizir), uma espécie de totem que os proibiu de queimar e cortar essas árvores. Acreditam que os locais onde ela é plantada tornam-se férteis.<br />
Iniciada a cerimônia, o Efe se ajoelha. Os Zeybek e os recrutas formam um círculo e se ajoelham. O candidato a recruta levanta. O Efe olha para as montanhas, para as pedras, para os vales e para o seu novo recruta, que tira sua faca, curva-se e beija três vezes a testa do Efe, deixando sua faca no chão, ficando com a cabeça abaixada e as mãos juntas. Então, o Efe começa a lhe fazer perguntas sobre o que é ser um Zeybek e suas regras. Ele também pergunta se o recruta é capaz ou não de arcar com essa responsabilidade. O recruta afirma que o objetivo do Efe também é o seu e que nunca revelará um segredo do grupo. Colocando sua mão no braço do recruta, o Efe o exorta a fazer um juramento de sigilo:<br />
&#8220;Eu juro neste pico e na frente desses corajosos que nunca revelarei nada, nunca apontarei para um pobre inocente e nunca desistirei de seguir meu Efe, sabendo que seu amigo é meu amigo e que seu inimigo é meu inimigo.&#8221;<br />
O candidato a recruta passa sete vezes pelo loureiro onde está sua faca. Os outros recrutas também passam sete vezes pela árvore. O Efe começa uma prece Zeybek de juramento segurando a faca. Após o término da prece, o Efe dá a faca ao recruta, que a beija três vezes, toca sua testa e guarda-a na bainha em sua calça.<br />
Depois da cerimônia, o Efe retira sua faca da árvore e guarda-a. Todos se levantam ao mesmo tempo. Agora, o candidato tornou-se um recruta, um membro dos Zeybek.</p>
<p>8.3 ORGANIZAÇÃO HIERÁRQUICA DOS ZEYBEK</p>
<p>Há disciplina e organização entre os Zeybek, e cada um tem seus deveres nessa estrutura organizacional:</p>
<p>1. EFE (Valente): é o executivo da organização. Administra sozinho, sendo o administrador chefe. Os Zeybek e os recrutas não podem fazer nada sem a sua permissão, não podem fazer nenhuma atividade sem sua informação e consentimento. O Efe suporta fortemente toda dor, tristeza, pressão e catástrofe. Ele tem de ser forte em todos os momentos e não pode demonstrar suas emoções.<br />
2. CHEFE ZEYBEK: é o principal assistente do Efe, governando e liderando na sua ausência. Estabelece a comunicação entre os recrutas e o Efe.<br />
3. ZEYBEK: os guerreiros Zeybek carregam o cura (instrumento musical tradicional) em suas costas, é uma tradição tocar cura ou bulrush. São os componentes do grupo depois de passar pelas provas como recrutas.<br />
4. RECRUTAS: o recruta é o novo membro do grupo, então ele vem após o Zeybek Chefe e os outros Zeybek. Realiza trabalhos diários e solicitações do grupo, comunica-se com o vilarejo e a cidade.<br />
5. ASSISTENTES: são encarregados de proteger e ajudar o grupo principal. Uma de suas tarefas é o suporte logístico. São comandados pelo valente (Efe) e viajam sozinhos.<br />
6. REDE DE INTELIGÊNCIA E LOGÍSTICA E ACOMODAÇÃO: a rede de inteligência realiza a tarefa de obter informações, observando, pré-investigando. O pessoal de logística e acomodação fornece comida, bebida, equipamentos e esconderijos.</p>
<p>É obrigatório que todos estejam seguros. O grupo zeybek não perdoa enganos nesses assuntos. Eles sabem que pagarão por um erro dessa natureza com a própria vida. De acordo com a tradição Zeybek, não haverá danos a uma casa onde eles comem e bebem. Eles são respeitosos para com as mulheres, sendo os protetores de sua paz e honra. Ninguém sabe onde e como os Zeybek irão se acomodar. Eles conhecem ricos e pobres, sabem em quais vilarejos podem encontrar armas, em quais montanhas estão determinados nômades, sabem encontrar água, cavernas e transitar muito bem pelas montanhas. Os recrutas trazem as informações e notícias dos assistentes, que contribuem para a elaboração cuidadosa dos planos. Perseguições e ataques são feitos no escuro, seguindo o método de não deixar pegadas, enganando o inimigo.<br />
Eles têm que ser cuidadosos o tempo todo, então se especializaram em reconstituir o som de passos. Como complemento, são muito ágeis, aprendem e evoluem rápido, com habilidades para aplicar o aprendizado. Esses são alguns fatores que os tornam diferentes dos seus inimigos. Eles não se movem à toa e aplicam com discerimento todos os recursos de que dispõem.<br />
Os Zeybek não agem conforme sua raiva e fúria. Não tratam de seus assuntos em público, e jamais discutem qualquer assunto quando ainda estão sob o domínio da ira: &#8220;quando a raiva surge, os olhos ficam vermelhos, quando ela se vai, o rosto fica vermelho.&#8221;</p>
<p>8.4 TRADIÇÃO ZEYBEK</p>
<p>Os Zeybek optaram por viver nas montanhas e segundo as regras das montanhas. Todos os guerreiros, recrutas e até as crianças têm o Efe como exemplo de vida e de conduta, por seu heroísmo, coragem, generosidade, e bondade. Isso os leva a ser destemidos, pacientes, gentis, maduros e a ter o discernimento para avaliar a situação e a necessidade de utilização de uma arma num dado momento.<br />
Os Zeybek e mesmo as suas crianças são enfrentam com naturalidade a idéia da morte, pois isso faz parte da sua educação e da sua formação guerreira. Aquele que ultrapassa a porta do medo não se importa com a morte em si. Eles acreditam que os heróis não contam os dias que viverão bravamente. De acordo com a moral dos Zeybek, os guerreiros têm a obrigação de proteger o povo que sofre com a corrupção e as injustiças. Eles lutam contra os ladrões, usurpadores e tiranos, em favor do povo e da justiça.<br />
A população dos vilarejos próximos aos locais onde os Zeybek atuam os vêem como amigos da justiça e inimigos do mal. Reconhecem que são justos e honestos. O verdadeiro guerreiro se esforça para viver dignamente e intensamente, para poder morrer como uma pessoa perfeita e digna.<br />
Os Zeybek são muito rígidos no que se refere à sua forma de vida, não tolerando o desrespeito e a desobediência às regras. Também não gostam de ostentação e egoísmo, pois cada um deve entender que a o poder nunca está no indivíduo, mas sim no grupo ao qual ele pertence. Nenhum guerreiro, por mais virtuoso e habilidoso que seja, é mais importante do que a coletividade. Os Zeybek também outorgam grande importância à palavra dada, sempre cumprem o tudo o que prometem e a mentira não é tolerada, sendo punida com a morte.<br />
Os Zeybek são reconhecidos facilmente por sua forma de se portar e de se vestir, seguindo determinadas tradições.</p>
<p>8.4.1 VESTUÁRIO</p>
<p>As roupas dos Zeybek demonstram sua posição dentro do grupo e também são concebidas de forma a aumentar sua eficiência em combate. O vestuário que adotam simboliza para eles ser uma pessoa extraordinária e pertencer a um grupo que é diferente do comum, da sociedade em geral.<br />
O processo de produção das roupas dos Zeybek é longo e delicado, exigindo uma habilidade especial daqueles que as fabricam. As cores utilizadas procuram retratar a natureza, e ao mesmo tempo refletir a auto-confiança do guerreiro e sua união com o grupo. Essas roupas, seguindo um padrão uniforme, mostram que não há mérito algum em ser isolado, que para o guerreiro viver longe do seu clã é inconcebível e humilhante. As cores e a forma das vestimentas enfatizam que os guerreiros Zeybek não são pessoas comuns e não vivem como pessoas comuns, mas sim como homens e mulheres extraordinários.<br />
Também são retratadao na dimensão visual e simbólica a liberdade e o respeito próprio, representando que viverão junto à natureza.<br />
Os Efes vestem o melhor, mais bonito e mais atraente, de modo a demonstrar claramente sua condição de líderes dirigentes.</p>
<p>CABEÇA: tanto os Efe quanto os Zeybek usam solidéu (takke) embaixo do turbante. O Efe usa o fez (chapéu turco) vermelho e brilhante, que é confeccionado com muito tecido. Os Zeybek usam kabalak onde prendem o poşu que é envolto por oya.</p>
<p>DENTRO: vestem bürümcük creme, feito de seda pura, que possui agulha oya no pescoço e nos punhos, no bürümcük eles vestem camisa (mintan) vermelha ou roxa com branco.</p>
<p>LADO SUPERIOR: na camisa, eles usam cepken com botões cruzados, que parecem as asas de uma águia.</p>
<p>EMBAIXO: há uma roupa de baixo tradicional chamada caksirmenevrek, que vai sendo enrolada desde o quadril, com 3 metros de comprimento, com barra de seda e linho vermelho próximo da cintura. A razão de usar tanta seda é para diminuir a agudeza das facas.</p>
<p>PÉS: perneira de tecido ou de couro grosso feito à mão. O Efe usa botas feitas à mão chamadas Kayalik, os Zeybek usam sapatos vermelhos baixos, sandálias de couro cru e botas pretas.</p>
<p>CINTURA: cinto por trás e acima do xale de seda colorido. No topo, há um suporte que vai de cima até embaixo com as pontas caindo ao lado da mão esquerda.</p>
<p>ACIMA: o Efe usa uma bainha de couro feita à mão com sete camadas. Entre essas camadas, coloca duas facas Yatagan e uma arma chamada Kubur, que é um item obrigatório para um Efe, utilizada para afiar a cimitarra e embotar a adaga.</p>
<p>GRANDE LENÇO: são quadrados e ficam na parte superior esquerda da bainha, feitos à mão, em seda, nas cores violeta, vermelha ou vinho.</p>
<p>NO BRAÇO: faixa (Pazıbent) usada pelos Zeybek no braço direito, que nunca retirada até a sua morte. Os amuletos reais, chamados Hamayl são colocados desde o pescoço e caem até a axila.</p>
<p>8.4.2 DANÇAS ZEYBEK</p>
<p>As danças consistem basicamente em andar, ajoelhar, dar voltas, reverenciar, saltar e gritar. Pode-se dançar tanto em lugares fechados quanto abertos, nestes utilizam-se tambores e chifres, nos fechados usa-se o tradicional instrumento turco de cordas chamado Baglama ou Cura.<br />
As danças dos kizans mais jovens são mais frívolas e violentas, eles dançam em grupo. Durante a dança grita-se “Haydi Efem” e “Esteee”. A dança Zeybek é uma combinação de bravura, coragem, generosidade, amor, vitória e rebeldia. A primeira coisa que se destaca é o orgulho e a atitude de grandeza.<br />
A dança fica muito mais animada quando o Efe participa. Ele pode dançar sozinho, apesar da dança Zeybek ser feita com pelo menos duas ou quatro pessoas. O Efe não participa da dança sem ser convidado. Depois que é convidado, ele se levanta e começa a dançar com confiança. Primeiro, pára em frente aos mais velhos. Sua dança caracteriza-se por andar, ajoelhar, cair, tocar o chão, abaixar e gritar. Ele finaliza com um agradecimento.<br />
Tocar o chão significa coletar o poder do solo e ser o dono desse solo. Caminhar significa a formação de uma fronteira e a posse da terra. A dança Zeybek demonstra a transição da águia. Ela pode ser interpretada desde a pose imóvel até o vôo, o deslizar e o pouso.</p>
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		<title>8.5 CONCLUSÃO</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Sep 2008 17:50:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Talal</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Cultura Marcial - Tema II]]></category>

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		<description><![CDATA[8.5 CONCLUSÃO
Na história e na mitologia, são muitos os relatos de heroísmo. Houve cavaleiros na Idade Média, samurais no Oriente, os Espartanos na Grécia, os Sioux na América do Norte, Maori na Oceania, dentre muitos outros povos e grupos de guerreiros. Na mitologia também são sempre cativantes os relatos sobre Hércules, Teseu, Arjuna, Gilgamesh, dentre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>8.5 CONCLUSÃO</p>
<p>Na história e na mitologia, são muitos os relatos de heroísmo. Houve cavaleiros na Idade Média, samurais no Oriente, os Espartanos na Grécia, os Sioux na América do Norte, Maori na Oceania, dentre muitos outros povos e grupos de guerreiros. Na mitologia também são sempre cativantes os relatos sobre Hércules, Teseu, Arjuna, Gilgamesh, dentre outros tantos.</p>
<p>Tais relatos míticos se concretizam em atos de bravura e heroísmo presentes em tantos momentos e em tantos povos, e isso acontece porque o Homem carrega dentro si a chama do herói. Cada ser humano que habita e que já habitou a Terra, por mais vil que possa ser, se emociona e é tocado em alguma medida quando ouve as estórias de heróis, quando percebe que existiram homens que acreditaram e que viveram pelos propósitos cavalheirescos.</p>
<p>Essa chama de heroísmo não desapareceu, mesmo nos dias de hoje, mesmo num mundo tão preocupado com valores supérfluos e materialistas, há pessoas que procuram viver a idéia do heroísmo.</p>
<p>E é em meio a um mundo aparentemente tão desprovido de honra e coragem, que o herói (Efelik, Zeybek e Kizan) é mais necessário, que ele é retirado dos relatos míticos e históricos, para se plasmar novamente na Terra e cumprir sua missão histórica e social.</p>
<p>Os Heróis não vivem somente para si mesmos, mas para a verdade e a justiça. São apaixonados pela justiça e por ela vivem e, se preciso, morrem. São exemplos de virtudes, cuja base de cada uma de suas atitudes é o Amor. Sem o Amor, mesmo com todas as virtudes e com toda a disciplina, o guerreiro sucumbirá, porque terá sido derrotado por seu maior e mais perigoso inimigo: ele mesmo.</p>
<p>Por isso, o guerreiro deve manter-se sob controle, disciplinando e dirigindo sempre a sua personalidade. E, quando todos os valores são esquecidos, é necessário lembrá-los, e os símbolos são feitos para isso. Os heróis são esse símbolo, com suas vidas dedicadas ao bem e ao ideal.</p>
<p>Essa chama do verdadeiro guerreiro, dos grandes heróis, ainda hoje se vê brilhar no fundo dos olhos do povo turco. Por mais que, para muitos, essas tradições pareçam se ter resumido a algumas danças e trajes típicos, ainda se vê a fagulha de dignidade e de heroísmo no semblante desses homens, que, sem dúvida alguma, não hesitariam em mais uma vez viver e morrer por um Ideal.</p>
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		<title>A CULTURA MARCIAL</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Sep 2008 03:59:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Talal</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Cultura Marcial - Tema I]]></category>

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		<description><![CDATA[1. INTRODUÇÃO
A cultura marcial não é exclusividade de nenhuma religião, cultura ou civilização em particular. Sempre esteve presente tanto no ocidente quanto no oriente no caleidoscópio de diferentes momentos históricos. Suas digitais marcaram os guerreiros espartanos, romanos, tibetanos, índios norte e sul-americanos, celtas, pré-colombianos, assim como esteve presente no ideal dos samurais, tuaregs, maoris, etc.
A [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>1. INTRODUÇÃO</p>
<p>A cultura marcial não é exclusividade de nenhuma religião, cultura ou civilização em particular. Sempre esteve presente tanto no ocidente quanto no oriente no caleidoscópio de diferentes momentos históricos. Suas digitais marcaram os guerreiros espartanos, romanos, tibetanos, índios norte e sul-americanos, celtas, pré-colombianos, assim como esteve presente no ideal dos samurais, tuaregs, maoris, etc.<br />
A cultura é um conjunto de valores, de cultivo de experiências e crenças transmitidos de geração a geração que transcendem ao tempo das sociedades humanas. A civilização nada mais é do que a plasmação dessa cultura. Para a criação da civilização, é necessário dirigentes conscientes dessa tradição, dirigentes capazes de manter vivo o elo que os une por um lado à sabedoria e por outro ao coração do homem. O princípio do guerreiro iluminado ou dirigente consciente, capaz de ser esse elo, esteve presente no rei Artur, no Davi bíblico, em Ulisses, assim como em Leônidas, Alexandre o Grande e em milhares de outros.<br />
Marcial (Marte, deus da guerra romano) se refere à guerra. Para um guerreiro, a guerra é inevitável e fundamental. Através dela o guerreiro tem acesso às portas de seu templo interior. Voa como um pássaro em direção ao trono da morte, tendo em uma das asas o medo e na outra a dor. A presença constante da morte dá ao guerreiro o verdadeiro sentido da vida e do amor. Numa ocasião, um rei capturou um inimigo e disse que o mataria, este contestou dizendo que perseguira o rei por toda a sua vida e que depois de morto causaria mais problemas ainda. O rei refletiu e disse: “Se realmente você for capaz de tal façanha, quando cortar-lhe o pescoço, você ainda será capaz de morder uma pedra”. O inimigo olhou as pedras que estavam no chão ao seu redor. O rei ordenou que o decapitassem. A cabeça rolou e mordeu uma pedra com um vigor assombroso. Todos que estavam ao redor se desesperaram temendo pela vida do rei. O rei os tranqüilizou dizendo que o último pensamento do inimigo foi morder uma pedra e não matá-lo. O rei disse que um dia um sábio lhe ensinou que o último pensamento é que importa, é o que nos projeta para o outro lado. De acordo a esse ensinamento tradicional devemos ter em conta que para termos um último pensamento digno e sábio devemos viver com dignidade e sabedoria. A vida é o treinamento para a morte. Para que o pânico não nos assalte no último momento devemos treinar por toda uma vida. Cada dia de vida é um preparo para a morte. Portanto, a condição da guerra é categórica para um guerreiro.<br />
O problema é que quando se fala da guerra surgem preconceitos descabidos, acompanhados de alienações desmedidas. Sempre houve guerra entre os homens. Desde os tempos mais remotos da história até os momentos atuais. Parece ironia que quanto mais se clame pela paz mais guerras se vêem. Na realidade, a alienação de que as guerras não deveriam existir está mais presente neste ciclo histórico do que em outros. Por exemplo, ainda que pareça impactante, Ésquilo, o Pai da Tragédia, considerado como um dos homens mais espirituais e cultos da humanidade, teve a maior honra em ser um guerreiro e um homem de paz. Lutou nas batalhas de Maratona, Salamina e Platéia. No epitáfio de Ésquilo, confeccionado por ele mesmo, liam-se as palavras: “Este monumento cobre a Ésquilo, filho de Euforião, que nascido ateniense e morto nas fecundas ranhuras de Gela. O tão afamado bosque de Maratona e o medo da longa cavalaria dirão se fui valente. Bem, eles o viram!”<br />
A guerra é natural e por isso obviamente é vista na natureza. O coração segue sua marcha pela oposição infinita que ele protagoniza. Os planetas, os satélites, lutam constantemente por seu espaço, ora atraindo ora repelindo. O próprio ser humano é agredido por uma série de micróbios que trata que adoeça ou morra. Os glóbulos brancos são os responsáveis por essa guerra que pode levar à saúde ou à morte. Há guerra numa partida de xadrez ou de tênis, tanto quanto nas relações humanas. Quando um cavalheiro quer conquistar uma dama, isso já não implica uma luta? Uma forma de guerra? Nas religiões, se encontram mestres espirituais que lidavam com a guerra de acordo ao necessário. Não foi Jesus quem lutou e tirou a chicotadas os publicanos que profanavam o templo? Também não foi Jesus que, na Galiléia, contra os fariseus, disse que quem não estivesse com ele estaria contra ele? Krishna não estava com Arjuna sobre um carro de guerra dando instruções sobre o campo de batalha e como vencer? Certamente trata-se de símbolos, mas o ambiente bélico pairava no ar. Maomé não conduziu grandes batalhas e invasões? Buda diz-nos que o Nirvana deve ser arrebatado, ou seja, tomado de assalto. A guerra e os combates não os desmerecem, não deixarão de ser seres espirituais condutores da humanidade. A guerra e o combate nesses casos estão inseridos dentro de um contexto maior . É como um mosaico, cujo desenho todo não se vê se não se toma a distância necessária. E não é porque não se vê o todo, pela proximidade das ranhuras do mosaico, que ele não tem um sentido. A própria história tem mais a ver com guerra do que com paz. A guerra é um fato. Por fazer parte do conhecimento, não pode ser omitida. O conhecimento leva a ver o que está para além do comum, assim como a pedra do rio toma formas incríveis pela luta constante com o rio, assim como o céu aparece com matizes de cores que nem nos sonhos são possíveis, devido à guerra das partículas em choque contra a luz solar. Assim, o verdadeiro conhecimento da guerra leva a conhecer o valor da paz.<br />
Quando a Justiça, o Bem, ou quando os princípios de uma civilização estão em jogo, surge a necessidade da guerra. Um guerreiro não luta por qualquer motivo. Quando se luta, se luta com valor, coragem e outros códigos para que ninguém se torne assassino. A célebre frase das tradições para o uso da espada era: “Não me desembainhe por qualquer motivo. Não me guarde sem honra”. Também o conhecimento das tradições que diziam que num torneio eram os deuses que escolhiam o vencedor para ser exemplo para os demais, aquele que ganhasse era porque tinha uma virtude superior, demonstra que a verdadeira guerra é interior. Um guerreiro deve ser preparado para lutar contra suas próprias sombras e medos e que dentro de seu coração estava a verdadeira vitória. Sidharta Gautama dizia que “Maior do que aquele que venceu a mil homens em batalha é aquele que vence a si mesmo”. A luta é sempre contra nós mesmos. A verdadeira concepção do guerreiro não significa entrar em guerra com os outros. A agressividade originada de nossa ignorância é a origem de nossos problemas, não a solução.<br />
O Bhagavad-Gita, tal como outras grandes epopéias, qual a Ilíada e a Odisséia de Homero, e todas as demais obras imortais, tem por objetivo revelar ao homem o verdadeiro sentido da vida. A virtude esteve sempre vinculada ao espírito da luta ou ao ideal sagrado da guerra. Só a virtude, com sua luz cintilante, pode iluminar os mais obscuros e recônditos rincões da personalidade. Se a luz vence, não há espaço para a escuridão, para os defeitos, limitações e impurezas. Por isso, os pré-colombianos, através do rito da “guerra florida” afirmavam: “Se vence a alma o corpo floresce”.<br />
A paz que as pessoas reivindicam não passa de mentira, pois o preço que teria de se pagar para obtê-la implicaria a perda da honra, da dignidade e dos valores morais. Para prevalecer a justiça, o bem, a dignidade e a honra, se faz necessário que o indivíduo seja justo, digno, bondoso e honrado. Aí reside a guerra sagrada. A vida deve ser conquistada. A paz vem depois da guerra interior. A paz guerreira é a verdadeira paz para o guerreiro.<br />
Como já foi visto, a cultura marcial se manifestou em diferentes povos, lugares e épocas. Essencialmente falam dos mesmos valores, códigos de honra, virtudes e de uma sabedoria capaz de resolver os problemas do mundo. No entanto, as nuances e as diferenças são tão ricas e impressionantes que facilmente aqueceriam o coração de qualquer guerreiro.<br />
Algo do que será relatado parecerá forte e agressivo. Na realidade, é perfeitamente compreensível desde que esteja no contexto correto. Mesmo assim, para além do contexto, certas realidades só podem ser concebidas por quem tem natureza de guerreiro. Quem não o é, não deve se atrever a querer viver sequer um segundo como tal. Um lobo não deve querer ser uma águia, assim como uma ovelha não deve querer ser uma raposa. Cada um tem sua natureza própria. Um lobo não entenderia a realidade da águia, assim como uma ovelha não compreenderia as necessidades da raposa. A cultura marcial cria ressonância no interior de todo aquele que tem natureza guerreira. Ainda assim, é somente uma etapa dentro das esferas do conhecimento. A cultura marcial é prévia à filosofia das artes marciais, que por sua vez precede à magia marcial. A cultura marcial está relacionada com os códigos de honra, comportamentos, virtudes, etc. A filosofia das artes marciais está mais além e diz respeito à depuração dos conceitos. Para um guerreiro, a cultura marcial é o primeiro degrau dessa fantástica escada de luz que leva ao seio de Deus.<br />
A alma do guerreiro é como a flor de cerejeira, que se abre para dar seu perfume antes de desfalecer por completo, sem medir o valor disso. Simplesmente se dá. Da mesma forma, este trabalho está sendo feito sem grandes pretensões nem pequenas, simplesmente está. Descobriremos assim, iluminado pelos mestres e pela alma, até onde esse perfume nos levará.</p>
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		<title>2. TIBET</title>
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		<pubDate>Sun, 28 Sep 2008 03:57:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Talal</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Cultura Marcial - Tema I]]></category>

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		<description><![CDATA[2. TIBET
2.1. A Tradição
Pouco se sabe sobre a cultura marcial do Tibet, sua cultura e sociedade se viram afastadas do mundo criando uma fronteira misteriosa e singular. Ainda assim, sua tradição está viva e presente com os Khampas tibetanos, estirpe nômade guerreira, valente e corajosa.
Os Khampas foram os primeiros a descobrir as reais intensões da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>2. TIBET</p>
<p>2.1. A Tradição<br />
Pouco se sabe sobre a cultura marcial do Tibet, sua cultura e sociedade se viram afastadas do mundo criando uma fronteira misteriosa e singular. Ainda assim, sua tradição está viva e presente com os Khampas tibetanos, estirpe nômade guerreira, valente e corajosa.<br />
Os Khampas foram os primeiros a descobrir as reais intensões da China- a extirpação dos tibetanos e cultura. Lutaram sempre na primeira linha e defendido seu país incontáveis vezes.<br />
Seguem em alguns aspectos características similares as dos espartanos. Treinam muitas horas por dia e cuidam da aparência antes das batalhas com o mesmo propósito dos espartanos e tem um orgulho próprio muito distinto. Sua cultura marcial vem de um tempo muito distante. Herdeiros de uma tradição de sábios “Kham”que significa:grisalho, cabelo cinza (representando o sábio), transmitem oralmente à seus filhos histórias guerreiras, façanhas do rei Gesar de Ling e ensinam sobre sua origem ancestral, definindo a coragem como plataforma dessa tradição  e o vencer a si mesmo como ápice do poder humano.<br />
Na tradição guerreira do Tibet, encontram-se textos que fazem menção às origens da sociedade humana e à distinção singular demarcada entre o guerreiro e o covarde. No texto que segue, tem-se um exemplo claro:</p>
<p>A partir do grande espelho cósmico<br />
Sem início e sem fim,<br />
Tornou-se manifesta a sociedade humana.<br />
Naquele momento nasceram a liberação e a confusão.<br />
Quando ocorreram o temor e a dúvida<br />
Perante a confiança, que é primordialmente livre,<br />
Ergueram-se multidões de incontáveis covardes.<br />
Quando a confiança, que é primordialmente livre,<br />
Se fez seguir e assim trouxe o deleite,<br />
Ergueram-se multidões de incontáveis guerreiros.<br />
A multidão de incontáveis covardes<br />
Ocultou-se em cavernas e selvas.<br />
Mataram irmãos e irmãs e comeram sua carne,<br />
Seguiram o exemplo das bestas,<br />
Provocaram o terror entre si;<br />
Tiraram assim sua própria vida,<br />
Acenderam a grande fogueira do ódio,<br />
Agitaram sem cessar o rio da luxúria,<br />
Rolaram na lama da indolência:<br />
Nasceu a era da fome e da praga.</p>
<p>Dentre aqueles que se consagraram à confiança primordial<br />
— As múltiplas hostes de guerreiros —<br />
Alguns foram às montanhas<br />
E ali ergueram belos castelos de cristal.<br />
Alguns foram às terras de belos lagos e de belas ilhas<br />
E ali ergueram palácios encantadores.<br />
E ali semearam o arroz, cevada e trigo.<br />
Sempre livres de conflito,<br />
Sempre amáveis e generosos,<br />
Com sua condição insondável, que existe por si mesma, sem receber estímulo<br />
Foram sempre devotados ao Rigden Imperial.</p>
<p>O espelho cósmico se refere a um espaço aberto, vasto e incondicional. É um universo eterno, sem começo nem fim. Sobrepassa os pensamentos e dentro desse universo não há espaço nem para a dúvida nem para a ignorância. Ele dá a visão do Todo, da Unidade incondicional. Ao mesmo tempo que é o círculo é o ponto central. É da vivência do reino do espelho cósmico na sua forma mais profunda que surge a sabedoria. A humanidade surge Dele e a Ele retornará. Na humanidade, portanto, desde o seu princípio, surgiram hostes de guerreiros e uma tradição secular de conhecimento capaz de fazer com que o homem dominasse suas imperfeições e limitações.<br />
Mas para entender essas concepções e sua profundidade de pensamento devem-se analisar primeiramente as origens da tradição tibetana.</p>
<p>O Tibet sempre esteve associado ao mistério, ao desconhecido, a altíssimas montanhas brancas permeadas por homens sábios e santos. Dificilmente se imagina que o Tibet nasceu de uma estirpe de guerreiros, que defenderam suas terras de inúmeras invasões em batalhas sangrentas. Ainda nos dias de hoje se encontram grupos de guerreiros conhecidos como Khampas, equivalentes aos Gurkas do Nepal.<br />
Alguns dizem que são descendentes dos Qiang, um grupo de tribos nômades guerreiras, registradas pelos chineses desde o Século II a.C. Outros afirmam que a origem da formação do Tibet vem de tempos muito mais antigos. De qualquer forma todos concordam que sua formação foi guerreira.<br />
Um dos maiores guerreiros do Tibet, que inspirou guerreiros por muitos séculos com suas façanhas e seu alto grau de sabedoria, foi o Rei Gesar de Ling. Gesar é o Rei benevolente, equivalente ao Caesar latino, Kaiser alemão, e também para a palavra russa “rei”, Tzar.<br />
Ling se refere ao reino provincial de Ling, situado na província de Kham, no leste do Tibet. O significado literal de Ling é “cintilante”, guardando talvez uma conotação mais simbólica do que somente de um local físico propriamente.<br />
Viveu aproximadamente no século XI. Seus feitos como guerreiro e governante foram tão impressionantes que, findo seu reinado, lendas e relatos sobre seus feitos despontaram por todo o Tibet e acabaram se tornando a principal epopéia da literatura tibetana. Gesar venceu a barbárie e a ignorância valendo-se dos princípios tradicionais do Tigre, do Leão, do Garuda e do Dragão (Tak, Seng, Khyung, Druk), quatro animais conhecidos com símbolos similares na China, Japão, India e Koréia. Algumas lendas afirmam que Gesar de Ling e todo o seu exército estão vivos e que um dia retornarão de Shambhala para vencer as forças do mal.<br />
A canção do Rei Gesar é o poema épico mais extenso do mundo. Contém mais de 120 volumes com mais de um milhão de versos. Dito de outra forma, é a obra mais extensa dentre os cinco épicos mais longos da história, a saber: O Gilgamesh, da Babilônia; Ilíada e Odisséia, da antiga Grécia; O Ramayana e o Mahabharata, duas das antigas epopéias da antiga Índia.<br />
Os ensinamentos foram transmitidos de geração a geração sob a forma oral, tendo sido escritos muito tempo depois. Acredita-se também que para além do Gesar de Ling mítico, surgiram muitos outros que encarnaram os mesmos princípios, se estendendo pelo tempo, formando conseqüentemente um conhecimento fantástico, a explicar a magnitude da epopéia desse Rei.<br />
Muitos tibetanos acreditam que o rei Gesar de Ling foi inspirado e guiado pelos Rigden e pela sabedoria shambaliana.<br />
Tanto no Tibet, como em muitas outras regiões da Ásia, circulam histórias sobre um reino lendário que foi fonte de conhecimento e cultura para as atuais sociedades asiáticas. Esse lugar de paz e prosperidade, perfeito e ideal, era governado por homens sábios. Shambhala é o equivalente a Avalon, Camelot, Acrópole, Shangrilá, etc.<br />
As lendas nos contam que Sidharta Gautama, o Buda, transmitiu ensinamentos avançados a Dawa Sangpo, o primeiro rei de Shambhala. Acredita-se que esse reino continua a existir, oculto num vale remoto em algum lugar do Himalaia. De acordo com as descrições de Mipham, célebre budista do século XIX, na montanha de Kailasa. O palácio dos Rigden — a palavra tibetana Rigden significa literalmente “detentor da sabedoria” —, os soberanos imperiais de Shambhala, ergue-se no topo da montanha de Kailasa. No centro do parque do palácio ergue-se um templo majestoso construído por Dawa Sangpo.<br />
Outras lendas relatam que o reino de Shambhala desapareceu da terra há muitos séculos. Num dado momento, a sociedade como um todo havia alcançado a iluminação, e o reino desvaneceu-se numa esfera ainda mais celestial. Diz-se que ainda continuam velando pelos humanos e que um dia retornarão para salvar a humanidade da destruição.<br />
Muitos sábios consideram Shambhala não como um reino externo, físico, mas como uma realidade interior repleta de poderes latentes, vêem-no como o ponto mais alto da consciência humana.<br />
Para além de Shambhala representar um fato ou uma ficção, ela representa o ideal da sociedade humana. Muitos tibetanos acreditam que o rei Gesar de Ling foi inspirado e guiado pelos Rigden e pela sabedoria shambhaliana.<br />
A visão do guerreiro tibetano é profunda e sólida. Ultrapassa as fronteiras do egoísmo e do medo, apontando para a atitude iluminada que existe potencialmente no interior de todo ser humano.</p>
<p>2.2. O CORAÇÃO DO GUERREIRO</p>
<p>Para o guerreiro tibetano, a condição de guerreiro não significa entrar em guerra com os outros. A palavra “guerreiro” traduz o tibetano “pawo”, que significa literalmente “aquele que é corajoso”. Nesse contexto, o espírito guerreiro é a tradição da coragem humana, ou tradição do destemor.<br />
Coragem, em última instância, é não ter medo de ser quem somos, não ter medo de si mesmo. Ante os problemas do mundo um guerreiro pode ser heróico e amável. Quando se tem medo do mundo automaticamente se torna egoísta e inseguro. Busca-se viver isolado e se promove, ainda que inconscientemente, a separatividade e a covardia.<br />
Dentro do princípio da coragem, deve-se pensar que se um guerreiro não ajudar o mundo ninguém o fará. Na realidade, antes de começar com o amigo ou com a família, deve começar por si mesmo. Confúcio já dizia que para governarmos o mundo, deveríamos primeiramente, governar a nós mesmos.<br />
O guerreiro deve vislumbrar dentro de si a bondade fundamental e esta se inicia com a valorização de experiências muito simples. Refere-se ao que há de intrinsecamente bom em estarmos vivos. Constantemente temos vislumbres de bondade, mas pelo desejo não chegamos a reconhecê-lo. Quando vemos um pôr-do-sol, a dança de uma fogueira, o sorriso de uma criança ou quando temos a sensação de frescor ao sair de um quarto abafado, estamos testemunhando a nossa própria bondade fundamental. Esses acontecimentos podem durar segundos, mas são experiências reais de bondade, em que se pode experimentar a não-agressividade, conhecida em algumas artes marciais como a não-violência. É a bondade que constitui a base de nossas vidas, não a violência.<br />
O mundo é bom, assim como nós. A bondade no guerreiro não é arbitrária.<br />
A técnica para vislumbrar a bondade fundamental é a concentração. Para compreendê-la plenamente é preciso receber orientação direta e individualizada. Devemos concentrar até que a que a mente e o corpo possam se sincronizar.<br />
No dia-a-dia, o guerreiro também deve estar atento à sua postura, à posição da cabeça, dos ombros, ao modo de andar, a forma de respirar, de fato pode-se reconhecer um guerreiro só pela sua maneira de andar, de olhar as pessoas. Para uma pessoa comum, tudo é comum. Para um guerreiro tudo tem uma razão de ser, nada é comum, tudo é especia<br />
 A bondade fundamental, ou a não-violência está estreitamente vinculada à idéia de “bodhicitta” na tradição budista. Bodhi significa “desperto” ou “ alerta” e citta quer dizer “ coração”; portanto, é o “coração desperto”. Não admira que o guerreiro — “aquele que é corojoso” — guarde relação com o coração, pois coragem é “agir com o coração”.<br />
Um guerreiro não deve ter uma postura curva, pois assim estará escondendo seu coração, dobrando-se sobre si mesmo.<br />
Sente-se uma tristeza, não de forma negativa, mas uma tristeza que guarda mais relação com a sensibilidade que se tem do mundo. Ela acontece porque nosso coração está absolutamente exposto. Para um guerreiro, é a experiência do coração triste e terno que dá origem ao destemor, à coragem… O verdadeiro destemor é produto da ternura e sobrevém quando deixamos o mundo roçar nosso coração.<br />
Só se conhece o destemor rompendo o medo. A essência da covardia está em não reconhecer a realidade fulgurante do medo.<br />
Uma das formas do medo está relacionada com a ansiedade e a agitação, como quando se rói a unha ou se coloca a mão no bolso sem necessidade, quando se entra em casa e liga a televisão ou o rádio para ter a sensação de que se está acompanhado, quando se toma tranqüilizantes ou se faz de tudo para afastar qualquer pensamento relacionado à morte. O covarde faz isso, evita o contato com seu silêncio interior, em contrapartida se casa com a tormenta da vida exterior.<br />
Medo todos têm, só não tem quem não nasceu ou quem já morreu. O medo é a outra face da morte. Só se pode enfrentar o medo da morte depois de se aprender a enfrentar o medo da vida. Aquele que enfrenta seus medos, a vida o brinda com o destemor. O verdadeiro destemor não consiste em diminuir o medo, mas em ultrapassá-lo. O destemor é o que está para além do medo. É um estado de consciência que, ao mesmo tempo em que está vazio, está pleno. Para se atingir o destemor, é também necessário sincronizar a mente e o corpo.<br />
 A dúvida nasce sempre que a mente e o corpo não estão sincronizados. Quando corpo e mente estão perfeitamente sincronizados, as percepções são nítidas e sentimo-nos livres da dúvida, das vacilações que caracterizam a ansiedade e que tornam nosso comportamento inteiramente impreciso. A sincronização não é aleatória. Corpo, mente e percepções devem estar perfeitamente alinhados para a perfeita desenvoltura do guerreiro.<br />
Os guerreiros kampas acreditam que o  sol representa a dignidade humana, o poder humano. É o sol nascente, representando assim a aurora, o nascimento da condição guerreira. O alvorecer do Sol do Grande Leste (Sarchen Nyima) é o resultado da sincronização entre mente e corpo.<br />
A visão do Sol do Grande Leste nos dá o sentimento de plenitude, de luz e de pureza, de um natural esplendor e brilho que se encontra no mundo. O sol da dignidade humana é comparável ao sol físico que atravessa a escuridão. Quando há um sol brilhante, não há espaço para a escuridão. Essa tradição é encontrada não somente no Tibet, mas também no Egito. Os egípcios moravam e tinham suas atividades do lado onde o sol nascia (leste) e enterravam seus mortos onde se punha (oeste). </p>
<p>O Sol do Grande Leste guarda relação com o mundo ideal, arquetípico, perfeito, do qual o guerreiro pode em certa medida partilhar e vivenciar neste mundo.<br />
Em oposição ao Sol do Grande Leste, encontramos a Energia do Sol Poente. Tal qual em outras tradições, representa a escuridão e a covardia. O sol poente também representa a mecanicidade e o automatismo que afetam o ser humano.<br />
No Tibet, o guerreiro que presencia a visão do Sol do Grande Leste, vive um grau de descondicionamento e soltura inimagináveis. Essa energia autogerável chama-se “cavalo de vento”. O vento representa a irradiação do imenso poder da bondade na vida do guerreiro. Poder que pode ser cavalgado, esse é o princípio do “cavalo”. Em certo sentido, o cavalo nunca chega a ser domado, a bondade nunca se torna propriedade pessoal. No entanto, a energia elevada da bondade pode ser invocada e provocada. Nos templos tibetanos, vêem-se bandeirolas flamejantes ao vento, essas bandeiras flamejantes representam o cavalo de vento. As bandeiras são agitadas pelos ventos da bondade, ou do dragão, como diriam os chineses. O guerreiro deve ser capaz de presenciar o cavalo de vento dentro de si e projetar esse estado anímico de energia superior para todos os demais.<br />
Sempre se viu o guerreiro como sendo alguém forte e com muita energia. Essa energia, proveniente do cavalo de vento, confere confiança incondicional ao guerreiro. A palavra tibetana para confiança é ziji. Zi significa “brilho” ou “cintilação” e ji quer dizer “esplendor” ou “dignidade”, às vezes tendo também o sentido de “monolítico”. Ziji, assim, expressa a irradiação, o regozijo da dignidade.</p>
<p>2.3. O MUNDO SAGRADO DO GUERREIRO</p>
<p>A valorização do sagrado começa de um modo muito simples, com o interesse por todos os detalhes da vida. É ter consciência de tudo o que ocorre em nossa vida diária. Para uma pessoa comum, o ato de tomar café, a forma como se levanta da cama, como pega num simples copo d’água é trivial. Para um guerreiro cada instante e cada detalhe conta. O simples ato de sentar-se, que para uma pessoa comum nada significa, para um guerreiro é um limiar entre o profano e o sagrado. O guerreiro torna esse mundo especial porque sua consciência está no agora, no presente. </p>
<p>As percepções com que o agora brindam o guerreiro são mais profundas que o comum. Para além da percepção comum há o supersom, o supercheiro e a supersensação, existentes em nosso ser. Quando captamos a numa única percepção, o poder e a profundidade da grandeza, descobrimos que estamos invocando a magia. Em tibetano, essa qualidade mágica da existência, essa sabedoria natural chama-se drala. Dra significa “inimigo”ou “adversário” e la significa “acima”. Literalmente, portanto, drala significa “acima do inimigo”, “para além do inimigo”.<br />
O drala (magia) é o ponto de contato entre a ordem do mundo externo e a ordem do mundo interno. Portanto, um dos pontos-chave para a descoberta do princípio de drala é perceber que nossa própria sabedoria como seres humanos não existe em separado do poder das coisas tais como elas são. Não há nenhuma separação ou dualidade entre nós e o mundo. Quando vivenciamos essas duas coisas como uma só, temos acesso a um poder imenso. Isso é a descoberta da magia.<br />
Para “atrair”o drala, há que gerar as condições propícias.<br />
A primeira delas é invocar o drala externo, isto é, invocar a magia em nosso ambiente físico. O modo como organizamos e cuidamos do nosso espaço é muito importante. Se é caótico e sujo, nenhum drala entrará ali. Para um guerreiro, invocar o drala externo significa criar harmonia em seu ambiente, para assim estimular a consciência e a atenção ao detalhe. Desse modo, o ambiente físico promove a disciplina da condição guerreira.<br />
A idéia de espaço sagrado foi cultuada por inúmeras civilizações, desde os egípcios, romanos, gregos, aos índios, tuaregs e celtas. A própria catedral gótica é um exemplo de espaço sagrado. Numa catedral há algo que vai além da perfeição arquitetônica, há um brilho especial, pode-se sentir a magia que sua atmosfera particular irradia.<br />
O drala interno está relacionado com a magia do nosso corpo. Vivenciar o drala interno significa sentir a unidade de nosso próprio corpo. Invocamos o drala interno através do relacionamento com nossos hábitos pessoais, da nossa maneira de cuidar dos detalhes, no vestir, no comer, no beber, no dormir. O drala interno se manifesta quando nos vestimos adequadamente para cada ambiente, sem automatismo ou mecanicidade. Também em nossa alimentação, no uso de nossa boca, para calar ou para falar. Tudo reflete um sentimento e uma conexão ou desconexão com o mundo. O drala secreto é o resultado da invocação dos princípios dos dralas externo e interno.                                Existem barreiras que devem ser superadas para dominar a fundo a invocação dos dralas. A arrogância e a vaidade cortam o elo com os dralas. Se considerarmos que o poder é nosso e que a realização é pessoal, estaremos errando o alvo. Quando não impera a amabilidade e a humildade, os dralas são repelidos.<br />
Outro obstáculo são as tendências habituais. As tendências habituais são instintivas e promovem mais o animal no homem do que o ser-humano propriamente.<br />
A palavra tibetana para “animal” é tudro. Tu significa “encurvado”, dro significa “andar”. Os tudros são quadrúpedes que andam encurvados. Fisicamente, aquele que vive dominado pelas tendências habituais, anda como um animal, encurvado e olhando para baixo, nunca para cima, não vê o sol nem as estrelas, não sonha e não permite que outros sonhem. É preguiçoso e tem um nível de inércia petrificante.<br />
O mundo para o guerreiro é de caráter sagrado. Tudo no universo é potencialmente sagrado. A vivência do mundo sagrado nos denuncia como estamos entrelaçados com a riqueza e o brilho do mundo fenomenal. Somos parte natural desse mundo, o que implica numa hierarquia ou ordem natural. Nas filosofias milenares da China e do Japão, os três princípios do céu, da terra e do homem expressavam a concepção de como a vida humana e a sociedade podem se integrar à ordem do mundo natural. Esses princípios baseiam-se numa antiga compreensão da hierarquia natural.<br />
Os princípios do céu, da terra e do homem são de grande ajuda para descrever de que maneira o guerreiro deve assumir seu lugar no mundo sagrado. O céu é tradicionalmente o reino dos deuses, o mais sagrado dos espaços. O céu representa simbolicamente qualquer ideal elevado. Inspira a grandeza e a criatividade humana. No I-Ching vemos o hexagrama Chien relacionado com a idéia de criativo, céu, luminosidade. A terra, por sua vez, simboliza a receptividade. É o solo que sustenta e promove a vida. O ponto de união e de potencialização do poder universal está representado pelo homem. Quando os seres humanos combinam a liberdade do céu com a praticidade da terra, podem viver juntos numa boa sociedade humana. Quando os seres humanos violam sua relação com o céu e a terra ou deixam de confiar neles, o resultado será o caos social e as catástrofes naturais.<br />
Em chinês, o ideograma que designa o governante ou rei é uma linha vertical unindo três linhas horizontais, que representam o céu, a terra e o homem. Isso demonstra que o rei detém o poder de unir o céu e a terra numa boa sociedade humana.<br />
O Homem tem um corpo de ouro por natureza, um corpo sagrado que não deve ser profanado. No Tibet, a visão dos três mundos (céu, terra e homem), expressada no corpo humano, é conhecida pelos nomes: lha, nyen e lu.<br />
Literalmente, lha significa “divino” ou “deus”, refere-se aos pontos mais elevados da terra. É o ponto mais alto, o primeiro a captar a luz do sol nascente.<br />
Psicologicamente representa o estar desperto, a atenção desperta. No plano corporal, lha é a cabeça, especialmente os olhos e a testa.<br />
Nyen significa literalmente “amigo”. Nyen começa nas altas encostas das montanhas e compreende as florestas, as matas e as planícies. Na tradição dos samurais japoneses, as ombreiras engomadas do uniforme de guerreiro representam o princípio de nyen. Na tradição ocidental, as ombreiras acentuadas representam o mesmo papel. Psicologicamente está associado à solidez. Relaciona-se com a valentia e a galhardia do ser humano. No corpo humano está representado pelo ombro, peito e a caixa torácica.<br />
Lu, por fim, significa literalmente “ser aquático”. É o reino da água, dos oceanos e grandes lagos. Lu tem o caráter de uma jóia líquida. No aspecto psicológico, a vivência de lu assemelha-se a um mergulho num lago dourado. Lu é o frescor da luz dourada do sol que se reflete num lago profundo. Em nosso corpo, lu são as pernas e os pés: tudo o que está abaixo da cintura.<br />
Viver de acordo com a hierarquia natural não significa seguir um conjunto de regras rígidas nem estruturar os dias em função de mandamentos ou códigos de comportamentos caducos. A ordem dá equilíbrio e unidade ao conjunto. Os braços têm seu lugar, a cabeça deve estar sobre os ombros e o pescoço, as pernas têm seu lugar, e assim por diante. Essa lógica aparentemente infantil guarda um grande segredo da natureza. As coisas têm poder quando estão devidamente no lugar que a natureza lhes outorgou estar. As pernas no lugar da cabeça, ou os pés no lugar do peito não seriam só ridículos mas perderiam seu potencial. Cada coisa no seu lugar abre caminho para a força do cavalo de vento se manifestar.<br />
De acordo aos princípios do lha, nyen, lu e da hierarquia natural, um guerreiro precisa estar com a cabeça alta, coluna ereta, ombros relaxados, peito aberto, andar possante e suavemente, respirar os problemas e olhar com a bondade e a força daquele que detém a vida e a morte em seu poder.<br />
Para fazer a viagem da condição guerreira e presencializar esse poder é preciso ter um guia, um mestre guerreiro que ensine o caminho. Só é possível renunciar ao egoísmo quando se tem um exemplo vivo, um exemplo humano, alguém que já o tenha conseguido e portanto nos possibilite fazer o mesmo.<br />
A cultura marcial do Tibet demonstra que não se trata de teoria, é uma trilha de coração que pode ser vivida pelo guerreiro de forma prática. Para ser guerreiro, requer-se uma disciplina impecável e uma convicção a toda prova.<br />
Talvez a maior viagem que um guerreiro possa aprender a fazer, a trilha mais longa e tortuosa, esteja dentro de si mesmo. Uma viagem de aproximadamente trinta centímetros. Uma viagem do cérebro ao coração.</p>
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